Botocudo, o boto gaudério

Botocudo, o boto gaudério - Eloi Wilges
Noite de lua cheia, em pleno mês de junho, auge da temporada da tainha. A pesca cooperativa acontece com benefícios mútuos, os pescadores sabem o local exato de lançar a tarrafa seguindo os movimentos dos botos e estes são protegidos e respeitados pela colônia de pescadores. Um boto, neto da Geraldona, saracoteia faceiro na barra do Rio Tramandaí. Ali é o seu mundo, toda sua família convive, feliz, com os parceiros pescadores. Sobe e desce a correnteza e deixa enlouquecidos os pescadores de tarrafa que entendem e participam da sua coreografia. Satisfeito com o tanto que pescara naquela sexta-feira dá seus últimos mergulhos atrás do cardume. Hora de aliviar a jornada e buscar o aconchego da família, lá no raso do rio, onde dormem seu soninho de um olho só. Deixa-se levar pela força do rio, numa última descida até o mar. Que dia magnífico para os botos e para os pescadores da barra. Saboreando seu derradeiro passeio agradece, no seu rezar de golfinho, pela harmonia e a cooperação de tantos anos, conseguida com muito sacrifício. Quando olha para o lado do Imbé, avista um gaúcho, que apeia apressado do cavalo e corre em direção da água. Trajado a capricho, com bota, bombacha, guaiaca, camisa branca, lenço colorado e um chapéu tapeado na testa. Nota que o taura vem num passo apertado, louco para alcançar a água. O boto, disfarçadamente, fica boiando curioso, mas escamoteado entre as ondas revoltas e prateadas pela luz da lua. O peão ao chegar perto da água larga, a cada passo, uma peça do seu chucro manequim. Tira a bota, o chapéu, a guaiaca, a bombacha, a camisa e, por fim, o lenço e mergulha na onda. A temperatura nem de longe convida para um banho noturno. Quem olha a cena do alto tem a impressão de que ali se derreteu um gaúcho...
E o boto que já vira coisas estranhas como banhistas perdendo o calção para a onda, surfista voltar para a praia abraçado num pedaço de pau, guarda sol fugindo de uma família inteira. De vereda imagina se tratar daquele pessoal, sem empatia, que botou na cabeça que a onda, agora, é fazer churrasco na beira da praia e enfumaçar todo mundo. Fica de campana, aflito para tentar entender esta história. Ouvira há uns tempos, que lá para o norte do país alguns da sua espécie, na forma de um moço atraente e gracioso, aprontam marotice com ingênuas mocinhas ribeirinhas. Passa mais de meia hora e nada do gaudério reaparecer. Lá pelas tantas, incrédulo, assiste o Botocudo, um boto desgarrado e errante que apareceu por ali, no ano passado, mas nunca se aproximou muito dos botos da barra. Botocudo aproveita a distração dos pescadores extasiados pela quantidade de tainhas e recolhe as peças da pilcha, uma a uma e ainda dá um susto no cavalo que se perde correndo para o lado escuro da praia, lá para as bandas da Presidente e Noroeste.
Nunca ninguém reclamou a tal da pilcha, nem o cavalo, mas já se ouvem histórias que, nas noites de lua cheia, o bagual sempre volta para a barra do Imbé e após alguns relinchos, aparece um gaudério todo pilchado que monta e sai a marotear pelo litoral norte. Diferente do boto do norte, o nosso é chucro no visual, com olhar decidido, de poucas palavras, gestos delicados e exímio dançarino, uma figura ímpar. Dizem até que a filha de um veranista do Imbé confessou para a família, ao voltar de uma festa com o dia já clareando, que fora enfeitiçada por um boto gaudério e dali a uns meses deu à luz um piazito, muito esperto, brincalhão e irrequieto... O pai da moça, um fazendeiro, de início meio desconfiado, ao ver a faceirice do guri numa gamela cheia d'água e o seu desespero quando chega perto de um açude, do Braço Morto, de um rio ou do mar, se tranquilizou e hoje tem certeza que o neto é realmente filho do boto. Nem todos acreditam nesta história, mas contam que num fim de noitada, o Botocudo, atrasado e já meio desidratado, teve seu trajeto costumeiro atrapalhado por uma blitz da Brigada e, no desespero de voltar à água esqueceu de tirar o lenço vermelho e mergulhou no mar. Alguns Imbeenses atentos juram ter visto, por um mês inteiro, o Botocudo com o acessório no pescoço, toda vez que subia para respirar.

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Inspiração

Quando vamos ao Imbé, a nossa praia, visitamos os botos da Barra do Rio Tramandaí, que convivem em harmonia com os pescadores e, juntos, executam a "pesca cooperativa", que ajuda os pescadores a capturar a tainha e estes protegem seus parceiros botos. Como existe a lenda do boto no norte do Brasil, achei que os nossos mereciam uma história também.

Sobre a obra

Sempre gostei de escrever e quando surge algum tema que gosto, acabo criando uma história que me ajuda a valorizar as minhas horas de aposentado da Caixa.

Sobre o autor

Participei de algumas oficinas de criação literária promovidas pela APCEFRS e, de tempos em tempos, registro as histórias que surgem quando surge uma inspiração.

Autor(a): ELOI WILGES (Eloi Wilges )

APCEF/RS