Vigilante

E eu que decidi salvar o mundo? Não por inocência (e não que eu não seja ingênua), não por arrogância (e não que eu não seja pedante). Decidi salvar o mundo sendo quem sou, por não saber fazer diferente, pra pagar uma dívida com juros, que nem sei como, ou quando, tomei. Lá no fundo da minha mente, imagino frondosas árvores brotando em cada caixa de aveia, em cada plástico protetor de ovos, em cada carteira de cigarro que separo pra reciclar. E é nesse puro ar que escuto límpidos rios, e mares e lençóis freáticos caudalosos, escorrendo a cada vez que fecho o registro pra me ensaboar, pra lavar a louça. Eu vivo a missão de salvadora do planeta em sermões moralizantes pra gente que não deve me suportar, e pra gente que até gosta de mim, também.
Eu prego meu código, eu espalho a minha conduta. Eu julgo (porque sou humana), aponto o dedo vão, metralho palavras dispersas em ouvidos relutantes, debochados, ou surdos. Eu escondo minhas falhas com fins educativos (e também porque sou humana). Estou sempre enchendo o saco do mundo, com a desculpa de salvá-lo. Decidi não ter filhos, e, por isso, o mundo agradece, mas isso é só mais um policiamento moral. Escuto também o mundo agradecendo em silêncio os cigarros que vão encurtar minha vida, e todos os litros d'água que não escorrerão pelo ralo, depois que eu me for (porque há sempre a hora de abrir as torneiras).
Lembra do beija-flor, fazendo lá a parte dele? Aposto que a floresta ardeu até às cinzas. O que isso diz sobre mim? Não fui eu quem incendiou o mundo, mas só de ser uma dentre bilhões, já tenho culpa para assinar. Não deveriam ser bilhões, e, provavelmente, não deveria ser eu, entre eles. Tudo já está arruinado, eu decidi salvar um mundo que já acabou, e minha ausência ajudaria mais que qualquer ladainha que eu invente. Mas sigo. Humana, sabe como é, mulher sem maravilha nenhuma, não-heroína, alguém que decidiu salvar um mundo perdido, por remorso, ou talvez por achar que vivo numa fábula, ou talvez ainda porque não tenho nada melhor pra fazer.

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Inspiração

Minha inspiração foi o fim do mundo, o apocalipse iminente, o fim da aventura humana na Terra.

Sobre a obra

Crônica do fim do mundo.

Sobre o autor

Eu vejo arte em tudo e escrevo.

Autor(a): CHANDRA DE CARVALHO LASSERRE (Chandra Lasserre )

APCEF/BA