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A menina que inventava mundos
A Menina que Inventava Mundos
Alice sempre teve tudo o que uma criança “precisa”: um quarto arrumado, uma família teoricamente presente e uma rotina organizada. As refeições aconteciam no mesmo horário, as vozes preenchiam a casa, ainda assim, havia um silêncio que só ela escutava, era um silêncio que morava dentro dela.
Ninguém percebia exatamente quando começou, nem ela lembrava-se; talvez tenha sido nas vezes em que tentou contar algo importante e ouviu apenas um “depois você fala, querida” ou durante um dos acessos de raiva da mãe ou quando se sentou sozinha no recreio, vendo grupos se formarem como se houvesse um código invisível que ela nunca aprendera.
Alice aprendeu cedo que algumas coisas ruins não vinham com aviso, elas simplesmente aconteciam; chegavam como o som de uma porta batendo forte demais, como um copo quebrando no chão, como a voz da mãe mudando de tom de uma hora para outra e, toda vez que isso ocorria, Alice desaparecia.
Na primeira vez que a mãe gritou sem motivo, Alice virou outra pessoa: naquele instante, ela não estava mais na cozinha pequena, com o cheiro de gordura espalhada no ar, era uma Capitã de um navio de vidro, navegando em mares feitos de luz líquida. Seu barco nunca quebrava, nunca afundava, e sua tripulação a respeitava pois ela sempre sabia para onde ir e o que fazer.
— Capitã Alice — diziam — o que fazemos agora?
Em seus mundos ela sabia responder e o que fazer, na realidade ela somente baixava a cabeça a princípio.
— Você não presta atenção em nada! — dizia a mãe, às vezes com os olhos perdidos, às vezes cheios de algo que Alice não conseguia nomear.
Alice ficava quieta a princípio, falar era pior, existir já parecia ser um problema por si só; cada dor virava uma história; cada erro, um novo mundo; cada frustração um novo personagem ou aventura. Também se imaginava como personagem de histórias que já existiam, tantos gibis, tantas aventuras no espaço, tantas aventuras no fundo do mar, mas inventar sua própria história era sempre mais divertido.
Quando esqueceu de lavar a louça e ouviu que “não servia para nada”, Alice se transformou na Guardiã do Tempo e um planeta distante, nesse mundo, ninguém era inútil; relógios paravam, momentos se perdiam e apenas ela conseguia consertar tudo.
Quando a mãe chorava sem explicação, ou mudava de personalidade instantaneamente antes de se refugiar em mais um gole de cerveja, Alice estava em um universo onde ela curava as tempestades, caminhando por céus turbulentos, acalmando nuvens enfurecidas, transformando trovões em música. Se ao menos a vida real fosse assim: Se ao menos ela pudesse tocar a mãe e fazer toda a dor desaparecer, mas o mundo real não obedecia as regras da fantasia, isso doía ainda mais.
A irmã e o pai não eram alento ou um porto seguro, eram alheios ou coniventes com o problema da mãe e isso fez ruir lentamente o relacionamento deles também.
Sozinha e sem em quem se apoiar, Alice criou sua história dia a dia e acabou transferindo parte de sua fantasia para o mundo real, afinal em seus mundos ela controlava tudo, no mundo real ela não tinha poder ou coragem. Isso não resolveu seus problemas, apenas criou novos, pois as brigas constantes com a mãe e o desdém dessa para com a Alice a feriam mais e mais.
Havia noites em que ela se deitava e torcia para dormir rápido, não para descansar, mas para fugir; dormir era um portal, sonhar era viver de verdade.
Em uma noite particularmente difícil, a mãe entrou no quarto, era raro isso ocorrer, geralmente estava sóbria quando o pai chegava do trabalho, sentou-se na cama com um semblante desafiador, isso fez com que Alice temesse, haviam tido uma briga horrível durante o dia.
— Você acha que é melhor que eu? — disse, com a voz pesada.
Alice congelou, ela nem sabia de onde vinha aquela frase.
— Não… — sussurrou.
A resposta nunca era suficiente, nunca era a certa; quando a porta finalmente se fechou e Alice ficou sozinha, dessa vez não criou um mundo qualquer, criou um refúgio, um lugar diferente de todos os outros, não havia missões, nem responsabilidades; era somente uma pequena casa clara e com muitas janelas, cercada por árvores luminosas, o vento sempre suave, o céu sempre azul, o sol filtrado pelas folhas sempre desenhando com luz no chão; dentro da casa havia alguém esperando: ela mesma em uma versão mais velha, mais calma, uma Alice que parecia inteira e não em pedaços.
— Você demorou.
Alice não respondeu, apenas se sentou no chão, sentindo algo estranho no peito.
— Por que tudo dói tanto lá fora?
A outra Alice pensou por um momento.
— Porque você está tentando carregar coisas que não são suas.
Silêncio.
— Mas eu não posso deixar…
— Você já faz mais do que deveria.
Pela primeira vez, Alice não era uma heroína, estranhamente isso era mais difícil que batalhas.
— Eu queria que alguém me salvasse.
A outra Alice se aproximou e se ajoelhou diante dela.
— Eu sei, mas ninguém vem, além de mim.
Na manhã seguinte, algo mudou, não no mundo, mas nela mesma. Quando a mãe começou a falar alto outra vez e a ridicularizar, Alice ainda sentiu medo, ainda quis fugir, parte dela acabou fugindo, como água que escorre pelos dedos, mas parte dela ficou, observando, respirando e finalmente percebendo que aquela dor não definia quem ela era.
A partir daquele dia, ela ainda precisava de seus mundos, centenas deles, milhares deles, porém não eram apenas fugas, agora eram sementes. Ela continuava reagindo, as vezes de forma agressiva, não somente perante a mãe, mas perante as frustrações que encontraria na vida adulta, mas agora ela sabia que, todas aquelas versões dela mesma não eram fantasias, eram fragmentos de quem ela queria ou poderia se tornar, mesmo quebrada, mesmo invisível, mesmo sozinha, pois Alice compreendeu algo que nenhuma de suas histórias dizia claramente: imaginar não era só escapar, era também resistir e sobreviver.
Os anos passaram, as histórias de Alice se tornaram mais complexas enquanto envelhecia e uma delas, um mundo em particular, repleto de dragões, foi transformado em um livro, em dois livros, em três livros, em dez livros. As histórias saíam agora da imaginação e ganhavam espaço em páginas.
Alice sobreviveu, o relacionamento com os pais e irmã jamais foi bom ou amigável, com quase sessenta anos, com o pai falecido e a mãe e a irmã totalmente ausentes a quase um ano, não mais a procuraram, simplesmente parecia que haviam assumido que Alice era invisível. Estranhamente isso magoou Alice, se sentia uma menina ainda chorando por isso, afinal tinha uma carreira, tinha um marido maravilhoso, seu lar, seus bichos... sua vida estava da forma que sempre imaginou; lembrou-se das palavras da outra Alice: Você ainda está tentando carregar coisas que não são suas... Alice resolveu abandonar aquilo no caminho, não precisava de carga extra pela sua jornada.
Inspiração
Minha vida, Alice sou eu, alguém que teve que sobreviver e que teve problemas de carência afetiva por ter uma mãe alcoólatra e um pai que era conivente com isso. Por muito tempo transformei frustração em raiva, hoje transformo tudo em textos ou poesia.
Sobre a obra
Somente abri o coração e escrevi de forma lúdica sobre meus sentimentos, creio que as frustrações e mágoas do passado não devem se transformar em raiva, isso é uma carga pesada para se carregar, então a obra é algo a indicar que abandonei a carga pesada e continuo em minha jornada.
Sobre o autor
Atualmente ocupo a cadeira número 5 da Academia Jundiaiense de Letras, algo que mudou muito meus horizontes, já participei de várias antologias e coletâneas e até o momento consegui publicar três livros de O MESTRE DOS DRAGÕES VERMELHOS e esse ano publiquei o meu primeiro livro infantil: Vó Delina e Alê -Fut Fut meu gatinho.
Autor(a): ALEXANDRA APARECIDA JAHNEL PASCOAL (ALEXANDRA JAHNEL)
APCEF/SP