A Última Canção dos Dragões

A Última Canção dos Dragões
Muito tempo depois do Império de Dhamaggor e de suas fortalezas, muito depois que alguns seres mágicos de Dhorman migrarem para a Terra e Dhorman deixar de existir; um reino de elfos se formou nas florestas prateadas e os últimos dragões não transformados em homens ocupavam as montanhas rubras, onde poucos conseguiam chegar.
Durante séculos, viveram em paz; os elfos cultivavam bosques encantados, se espalharam por vários locais da Terra e abraçaram diversas tradições de seus ancestrais; enquanto os dragões guardavam cristais capazes de sustentar o equilíbrio da magia naquele mundo, todos trazidos do mundo original de Dhorman, muitos perderam o poder de se transformar como era comum para os vermelhos em Dhorman, agora tinham vários dragões, poucos de sangue puro, os dragões que existiam hoje na Terra vinham dos dragões vermelhos, brancos, negros e cinzentos oriundos do mundo original; também vieram muitos magos e dragões transformados de Dhorman, em maior parte aqueles que estavam na antiga fortaleza principal do império, mas esses faziam o possível para não interferir nos assuntos de elfos e dragões não transformados, esses se sentiam responsáveis em parte com o que ocorrera com seu mundo original.
Existia uma antiga aliança entre elfos e dragões, aliança essa criada logo no início da ocupação da Terra: a cada cem anos, um elfo e um dragão eram escolhidos para cantar juntos a Canção da Aurora, um ritual que fortalecia a harmonia entre os povos e relembrava as suas origens.
Mas a paz não dura para sempre.
Um inverno incomum caiu sobre a Terra, rios congelaram, árvores ancestrais morreram, a magia, já fraca naquele mundo, passou a desaparecer.
Os anciãos élficos acusaram os dragões de estarem acumulando os cristais mágicos para si. Os dragões, por sua vez, acreditavam que os elfos haviam roubado a energia das montanhas.
A aliança foi quebrada.
Alguns elfos viviam apartados do grupo, geralmente guerreiros, era assim com Luria, arqueira de longos cabelos negros e olhos muito azuis; muitos diziam que era a mais amada filha de Dhamaggor voltando, tinha o mesmo nome e a mesma aparência diziam os mais velhos, mas não era possível, a milênios Dhorman deixara de existir. Luria não acreditava que os dragões fossem responsáveis pelos problemas daquele mundo, ninguém realmente lhe dava ouvidos. Todas as noites ela sonhava com um dragão vermelho chamando por seu nome.
Do outro lado das montanhas vivia Shalabar, um dragão vermelho que tinha o mesmo nome de um dragão famoso e honrado de Dhorman, ele era destemido e muito teimoso, diziam que ele era muito parecido com o Shalabar original de Dhorman; curiosamente, ele sonhava com a mesma elfa e isso o irritava muito.
Elfos e dragões já não lembravam realmente das histórias do antigo mundo, a história se fragmentou muito e a muito não era contada. Tanto Luria quanto Shalabar, cada qual a seu tempo, haviam encontrado uma transformada, ela lhes contou a história de Dhorman, contou sobre os planaltos verdejantes, a grande cachoeira e o lago perto da fortaleza principal, falou sobre o feudo de uma dragão transformada que juntava muito do império, contou sobre uma das filhas de Dhamaggor, contaminada por um grande mal e de como isso foi o fim de Dhorman e que a canção da aurora fora a última canção que Lee e Shalabar cantaram antes de perecer, eram como pai e filha.
Tanto Shalabar quanto Luria pensaram ter visto tudo ocorrer, séculos de história contados e vistos em algumas horas, era como um sonho e ao mesmo tempo tão real, estranhamente quando despertaram a transformada não estava mais ali, eles passaram a sonhar um com o outro a partir daquele encontro.
Agora a guerra se aproximava, Luria e Shalabar estavam cansados do ódio crescente, elfa e dragão, decidiram seguir os sonhos.
Depois de dias de jornada, encontraram-se nas ruínas do Templo da Aurora, abandonado havia séculos, muitos diziam que era o que sobrara do refúgio das fadas de Dhorman.
- Então você existe - disse Luria, segurando o arco com cautela.
- E você também - respondeu Shalabar, curvando a cabeça. - Talvez os sonhos não sejam uma coincidência.
Luria guardou a flecha em uma sacola de flechas e colocou as poucas coisas que tinha em um canto da clareira, olhava para Shalabar com curiosidade.
- Eu já fiz minha refeição hoje, não precisa se preocupar…
Luria riu com gosto, jamais soubera que os dragões tivessem senso de humor.
- Sou Luria, elfa errante e mestra arqueira.
- Sou Shalabar, dragão errante e mestre de absolutamente nada… talvez da teimosia. Por qual motivo veio para cá?
- Alguns anciões sempre contam do refúgio das fadas e como ele sempre guardou segredos, achei que poderia saber o que está havendo.
- Também vim por esse motivo, mas não posso me esgueirar pelo antigo templo…
Luria sorriu, nunca havia estado ali, examinou as ruínas, descobriu uma entrada que parecia dar no subterrâneo, com ajuda de Shalabar conseguiu abrir mais a entrada.
- Podem haver perigos aí…
- Nos últimos tempos não há lugar sem perigo.
Luria precisava de uma tocha para iluminar seu caminho, a fez com galhos e ramos, mas a neve havia molhado muitos deles, não seria fácil conseguir fogo suficiente para a tocha. Shalabar tomou a tocha das mãos de Luria, enfiou e tirou da boca, coisa que pareceu nojento para Luria, Shalabar riu e incendiou a tocha, ela parecia mágica, não se apagaria tão cedo.
- Um pequeno truque de dragões… cuidado jovem Luria.
Luria entrou e andou pelas profundezas do templo, encontrou retratos gastos e quase sem cor nas paredes, um dele parecia muito com ela, ficou espantada, mas seguiu até o que parecia um local para guardar livros, muitos estavam deteriorados pelo tempo, mas também não conseguiria ler, muito do que era de Dhorman foi esquecido ou deixado para trás, as novas gerações de elfos não aprendiam mais todas as línguas. Viu um enorme livro de madeira, as cores não existiam mais, porém os sulcos estavam lá, haviam figuras e algo escrito, resolveu levar para Shalabar, talvez ele compreendesse as escritas. Não foi fácil carregar algo tão pesado, amarrou o livro ao corpo e o arrastava, depois de algum tempo consegui sair e encontrou Shalabar já com uma fogueira e o que parecia ninhos, um enorme e outro bem pequeno, havia coelhos assando no fogo.
- Acabei de decidir que não viajo mais sem um dragão me acompanhando.
Shalabar riu e a ajudou com o que ela trazia, percebeu que havia ferido os ombros, tocou-lhe e uma luz dourada tênue os envolveu, os ferimentos de Luria não mais existiam.
- Que foi isso? Os antigos falam sobre o beijo do dragão…
- Foi energia de dragão, muitos dizem que essa coisa de ficar beijando foi criado por transformados… mas se quiser um beijinho…
- Shalabar!!!!
Shalabar riu e passou a examinar o livro de madeira, compreendia a escrita, era algo antigo, os dragões mantiveram tradições do antigo mundo, então todos os dragões aprendiam todas as línguas. A magia não estava desaparecendo por culpa de elfos ou dragões, estava sendo drenada por um mal antigo, mais antigo que aquele entre mundos, mais antigo que Dhorman, era chamada de Alex, uma devoradora de estrelas, uma criatura que já vivera como mulher, mas que havia se transformado em algo ruim, uma criatura que se alimentava da energia mágica e crescia a cada desavença entre os povos; quanto mais ódio existisse, mais forte ela se tornaria.
- Precisamos avisar a todos e caçar essa criatura.
- Vou avisar os dragões e você os elfos, nos encontraremos aqui com quem conseguirmos juntar.
Quando Luria levou a notícia ao seu povo, ninguém acreditou, o mesmo aconteceu com Shalabar, assim, os dois se encontraram novamente no Templo da Aurora e partiram sozinhos.
Atravessaram desertos de cristal, florestas assombradas e mares cobertos por névoa. As vezes Shalabar voava levando Luria em suas costas, mas evitava ser visto pelos demais dragões, então acabou andando ao lado de Luria pela maior parte do tempo. Durante a jornada a amizade entre eles cresceu; Luria admirava a sabedoria do dragão e Shalabar admirava a coragem da elfa. Shalabar lhe contava histórias de dragões, como uma vermelha havia se apaixonado, o mago não era bem um mago, tinha sangue de dragões verdes, da união deles surgiu a filha mais amada de Dhamaggor, Luria, nasceu de um ovo.
- OVO???? Me contaram que Luria nasceu de uma das consortes de Dhamaggor, uma elfa.
- Não… Luria era filha de Dhamaggor com essa vermelha transformada, mas ele tinha sido lançado nas linhas do tempo por…
Shalabar parou e arregalou os olhos amarelos.
- Ele foi lançado nas linhas do tempo por Alex, era uma antiga consorte dele… existem muitas histórias sobre ela, algumas insanas… será que é a mesma criatura que estamos procurando?
Shalabar agora contava à Luria tudo o que sabia sobre Alex, realmente muitas das histórias eram insanas, ela enlouquecera por vagar pelo tempo.
Finalmente encontraram Alex, a criatura parecia um pássaro, era tão enorme que suas asas cobriam o céu inteiro, seus olhos pareciam buracos negros e sua voz parecia ferir Luria.
- Chegaram tarde, o ódio de seus povos já alimentou meu poder.
A batalha se iniciou, durou três dias e três noites, o fogo de Shalabar queimava como estrelas e as flechas encantadas de Luria atravessavam as sombras. Ainda assim, Alex parecia invencível.
Dragão e elfa estavam exaustos e feridos, quando tudo parecia perdido, Luria lembrou-se da antiga Canção da Aurora.
- Shalabar! A canção!
O dragão compreendeu, juntos começaram a cantar.
A voz cristalina da elfa uniu-se ao profundo canto dracônico. A melodia ecoou pelos céus, atravessando florestas, montanhas e rios. Elfos e dragões ouviram o chamado.
Um a um, deixaram suas diferenças de lado e juntaram-se ao coro, milhares de vozes preencheram o mundo.
A luz gerada pela união dos povos transformou-se em uma aurora dourada que envolveu Alex. A criatura gritou, tentando resistir, mas a força da harmonia era maior que qualquer sombra.
Então desapareceu, dessa vez parecia ser para sempre.
Shalabar e Luria estavam distantes demais para serem ajudados, muitos os procuravam agora, mas não os encontraram até o início da primavera, eles conseguiram se recuperar dos ferimentos e voltaram para o Templo da Aurora vagarosamente; a primavera trouxe de volta as árvores floridas, frutos, rios correndo livres com vários peixes, florestas repleta de vida, a magia retornando com força.
Em homenagem aos heróis, elfos e dragões reconstruíram o Templo da Aurora.
Ofereceram a Shalabar o posto mais alto entre os dragões daquele mundo: Guardião dos Céus; para Luria ofereceram a posição de Rainha das Florestas Prateadas, porém ambos declinaram, seriam os guardiões do Templo da Aurora e assim foi, por séculos viveram próximos ao templo, eram amigos e irmãos e, ao seu tempo, ambos atravessaram os véus juntos, no mesmo instante a vida da matéria os deixou, ambos viraram luz enquanto cantavam pela última vez a canção.
Todos os anos, no dia em que Luria e Shalabar morreram, dragões e elfos reuniam-se para cantar a antiga canção que havia salvado o mundo, lembrando às futuras gerações que o maior poder não estava no fogo dos dragões nem na magia dos elfos, mas na amizade capaz de unir corações tão diferentes.

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Inspiração

Amo Literatura Fantástica, esse conto é baseado em um romance de minha autoria, O MESTRE DOS DRAGÕES VERMELHOS, lançado em 2010.

Sobre a obra

Dragões, elfos e magia... AMO LITERATURA FANTÁSTIA E DRAGÕES!!!! O conto é baseado em um romance de minha autoria, O MESTRE DOS DRAGÕES VERMELHO, seria algo passado a milênios da era de Dhorman e do império daquele mundo.

Sobre o autor

Ocupo a cadeira n.05 da Academia Jundiaiense de Letras, sempre amei escrever e tenho tr?s romances lançados de O MESTRE DOS DRAGÕES VERMELHOS, esse ano lancei meu primeiro livro infantil: VÓ DELINA E ALÊ-FUT FUT MEU GATINHO, além de ter participado de diversas antologias e coletâneas como Terra Querida Jundiaí e Ecos do Feminino.

Autor(a): ALEXANDRA APARECIDA JAHNEL PASCOAL (Alexandra Jahnel)

APCEF/SP