Football

Football

Aquecimento

A Estalagem Líbero Badaró deveria ter fechado em 1841, mas ninguém encontrara uma forma suficientemente educada de informar o proprietário.
Por isso continuava funcionando.
As paredes descascavam em silêncio.
O relógio parado sobre o balcão marcava três horas e dezessete minutos desde 1856.
Ao redor de uma mesa manchada por cerveja, tabaco e desesperança reuniam-se cinco homens cuja principal atividade consistia em evitar qualquer atividade.
Zeca observava rachaduras.
Tonhão estudava pombos.
Bira especializara-se em ficar imóvel.
Nicanor escrevia um livro cujo único conteúdo era o título: Talvez Amanhã.
E Djalma era considerado trabalhador porque às vezes mudava de cadeira.
Naquela tarde vazia de 1863, Zeca suspirou.
— Estou entediado.
— Eu também.
— Vamos inventar alguma coisa — disse Tonhão.
— Uma religião?
— Muito esforço.
— Uma revolução?
— Muito trabalho.
— Então um esporte.
Todos se animaram.
Era exatamente o tipo de projeto inútil para o qual estavam plenamente qualificados.

Primeiro tempo

— Precisamos de uma esfera de couro.
— Quantas?
— Uma.
— E quantas pessoas?
— Vinte e duas.
— Vinte e duas pessoas para uma única bola?
— Exatamente.
— Mas isso não faz sentido.
— Perfeito. Continuemos.
Definiram um enorme campo gramado.
— E o objetivo?
— Correr atrás da bola.
— E depois?
— Nada.
— Finalmente um esporte que representa a condição humana — emocionou-se Djalma.
Discutiram também o tamanho do campo.
Quando alguém observou que um campo menor faria mais sentido, a lógica foi eliminada por unanimidade.

O teatro obrigatório

Surgiu então a questão do contato físico.
— E se um jogador empurrar outro?
— Infração.
— Mesmo que seja leve?
— Melhor ainda.
Tonhão levantou-se.
— O jogador não deve simplesmente cair. Deve agir como se tivesse sido atropelado por uma carruagem militar.
— Mesmo sem ser atingido?
— Principalmente sem ser atingido.
Silêncio respeitoso.
— Isso não é esporte — murmurou Nicanor.
— Eu sei.
— É arte.
Foi aprovado que todo contato físico geraria rolamentos, gritos incompatíveis com a lesão e recuperação milagrosa trinta segundos depois.

A invenção do impedimento

Foi aí que tudo saiu do controle.
Linhas foram desenhadas.
Setas surgiram.
Castanhas tornaram-se jogadores.
Após uma hora de debate:
— O atacante pode avançar, mas não muito.
— Quanto é muito?
— Depende.
— Do quê?
— Da posição relativa do penúltimo defensor.
Seguiu-se um desespero matemático.
Triângulos.
Ângulos.
Casca de amendoim.
Velocidade da luz.
Ao final ninguém entendia a regra.
Nem mesmo quem a criara.
Tonhão ergueu o copo.
— Senhores, acabamos de inventar o impedimento.
— O que é?
— Não faço a menor ideia.
— Genial.
Foi aprovado por unanimidade.

A autoridade suprema

— Precisamos de um juiz.
— Para quê?
— Para errar.
Todos concordaram.
Mas Djalma propôs um sistema para corrigir erros.
Quando uma jogada fosse duvidosa, uma comissão examinaria o caso.
Os fatos seriam registrados em formulários.
Os formulários enviados por pombo-correio.
Especialistas analisariam os relatórios.
Ilustradores reconstruiriam a jogada.
E um conselho produziria centenas de páginas explicando por que ainda não conseguia decidir.
— E então o jogo recomeça?
— Quando ninguém mais se lembrar do que estava sendo discutido.
Assim nasceu o Sistema Vitoriano Arbitrário de Reavaliação.
Tempos depois, uma simples falta exigiu quatro geômetras, dezessete formulários, três pareceres filosóficos e uma audiência parlamentar.
Concluiu-se que talvez tivesse ocorrido uma infração.
O juiz manteve a decisão original.
A ciência comemorou mais uma vitória.

O especialista estrangeiro

Já passava da meia-noite quando perceberam que faltava um nome.
Foi então que uma voz surgiu do balcão.
Até aquele momento ninguém lhe prestara atenção.
Havia um homem magro, comprido e pálido como uma carta extraviada.
Usava um terno de lã incompatível com o clima e um bigode cuja simples existência parecia reprovar continentes inteiros.
Ergueu o copo.
— Com licença. Sou Ebenezer Floppy Cup.
A mesa permaneceu em silêncio.
— Floppy Cup? — perguntou Tonhão.
— Nome antigo da família.
— O que significa?
— Ninguém sabe.
— E por que mantiveram?
Ebenezer pareceu confuso.
— Tradição.
Todos assentiram.
Era um argumento sólido.
— E o senhor é o quê? — perguntou Zeca.
— Britânico.
A mesa voltou a silenciar.
Eles nunca haviam conhecido um britânico pessoalmente.
A Inglaterra era um lugar distante de onde vinham livros que ninguém lia, chá que ninguém bebia corretamente e pessoas que pareciam pedir desculpas até quando venciam guerras.
Ebenezer tomou um gole.
— Ouvi o projeto de vocês.
— E?
— É absolutamente ridículo.
— Nós sabemos.
— Não possui lógica.
— Sabemos.
— Não possui elegância.
— Sabemos.
— Nem utilidade.
— Também sabemos.
Ebenezer assentiu lentamente.
— Excelente.
— Excelente?
— Meu caro senhor, as instituições humanas mais duradouras raramente começam por ser úteis.
A mesa refletiu.
Parecia uma observação profunda.
Ou profundamente preocupante.
Talvez ambas.
Ebenezer examinou os rabiscos.
As setas.
As linhas.
As castanhas.
O impedimento.
O sistema de arbitragem.
Em certo momento sorriu.
— Isto é notavelmente britânico.
— Mas fomos nós que inventamos — protestou Nicanor.
— Não estou falando da autoria.
— Então de quê?
— Da estrutura.
— Como assim?
— Regras excessivamente complexas.
— Sim.
— Procedimentos incompreensíveis.
— Sim.
— Especialistas que discordam dos especialistas.
— Sim.
— Pessoas obedecendo normas cujo motivo foi esquecido.
— Sim.
— É exatamente assim que começamos quase tudo.
A mesa permaneceu em respeitoso silêncio.
Era difícil discutir com alguém que parecia ter conhecido pessoalmente a burocracia.
Finalmente Ebenezer apontou para os papéis.
— O problema é o nome.
— Concordamos.
— "Chutebola" é bárbaro.
— Sim.
— "Correria Organizada" é honesto demais.
— Sim.
— Precisam de um nome inglês.
— Por quê? — perguntou Nicanor.
Ebenezer pareceu sinceramente surpreso.
— Porque é inglês.
— Ah.
O argumento era irrespondível.
— Vejamos. Vocês usam os pés?
— Sim.
— Então temos foot.
— Sofisticado.
— E a bola?
— Bola.
— Ball.
— Extraordinário.
Ebenezer escreveu num guardanapo:
FOOTBALL
Os cinco homens observaram a palavra.
Instantes antes parecera absurda.
Agora irradiava respeitabilidade internacional.
— Parece importante — murmurou Bira.
— Parece científico — disse Tonhão.
— Parece caro — concluiu Djalma.
Ebenezer sorriu.
— A principal função da língua inglesa é fazer absurdos parecerem inevitáveis.
O grupo levantou os copos.
Mas Ebenezer ergueu um dedo.
— Há outra vantagem.
— Qual?
— Quando isso se espalhar pelo mundo, milhões de pessoas repetirão o nome sem compreender exatamente o que significa.
— E por que fariam isso?
Ebenezer terminou a bebida.
— Porque os seres humanos possuem um talento extraordinário para acreditar que uma ideia melhora quando atravessa um oceano.
Os homens refletiram.
— O senhor acha mesmo que isso vai se espalhar?
Ebenezer pensou.
Depois apontou para o desenho do impedimento.
— Ninguém entende essa regra.
— Correto.
— Nem vocês.
— Correto.
— E mesmo assim decidiram mantê-la.
— Correto.
— Então vai durar séculos.
— Como o senhor sabe?
Ebenezer pousou o copo.
— Porque a tradição não é aquilo que as pessoas compreendem.
— Não?
— É aquilo que continuam repetindo depois de esquecerem o motivo.
Silêncio.
Era, de longe, a coisa mais britânica que alguém já dissera.

As consequências

O álcool já começava a vencer a realidade.
As previsões ficaram ousadas.
— Amigos deixarão de se falar.
— Casamentos acabarão.
— Governos cairão.
— Pessoas gastarão fortunas com uniformes.
— Professores incapazes de explicar a ciência analisarão laterais cobrados cinquenta anos antes.
— Milhões acharão isso essencial para o futuro da civilização.
— Tudo isso por causa de uma bola?
— Sim.
— Maravilhoso.

O batismo definitivo

Brindaram ao football.
Brindaram à Inglaterra.
Brindaram ao couro inflado.
Brindaram à capacidade humana de transformar qualquer banalidade em religião.
Do lado de fora, a noite seguia indiferente.
Dentro da estalagem, seis homens riam da ideia de multidões apaixonadas por uma bola.
Riam porque tudo aquilo parecia impossível.
E, como acontece nas maiores tragédias da humanidade, estavam absolutamente convencidos de que eram inteligentes.

Epílogo

O football prosperou além de qualquer previsão.
Nenhum dos inventores ganhou um centavo.
Naturalmente.

Zeca
Zeca tornou-se comentarista esportivo.
Durante quarenta anos explicou impedimentos que jamais compreendeu inteiramente.
Isso nunca prejudicou sua reputação.
Ao contrário.
Era considerado uma autoridade.
Morreu aos oitenta e três anos durante uma conferência.
Suas últimas palavras foram:
— Tecnicamente ele estava adiantado, embora também não estivesse.
O público considerou a análise brilhante.

Tonhão
Tonhão dedicou a vida ao estudo das simulações.
Publicou diversos artigos sobre quedas sem contato físico.
Defendia que certos jogadores possuíam talento dramático comparável ao das grandes companhias teatrais europeias.
Foi ridicularizado por décadas.
Depois recebeu reconhecimento acadêmico.
Morreu satisfeito ao ver uma repetição em câmera lenta que confirmava todas as suas teorias.

Bira
Bira tornou-se torcedor.
Foi o único do grupo a sofrer verdadeiramente.
Passou quarenta anos acreditando que o próximo campeonato resolveria sua vida.
Não resolveu.
Mas o seguinte parecia promissor.
Depois o outro.
Depois o outro.
No leito de morte pediu para verificarem a classificação.
Seu clube estava em décimo sexto lugar.
Partiu otimista.

Nicanor
Finalmente concluiu Talvez Amanhã.
Levou cinquenta anos.
A obra tinha mil e duzentas páginas e tratava exclusivamente da relação metafísica entre escanteios e o fracasso humano.
Vendeu três exemplares.
Um para sua mãe.
Outro para ele mesmo.
O terceiro permanece desaparecido.
Críticos continuam debatendo sua existência.

Djalma
Djalma enriqueceu.
Foi o primeiro a perceber que não havia dinheiro na bola.
O dinheiro estava na discussão sobre a bola.
Criou jornais.
Depois jornais comentando outros jornais.
Depois periódicos dedicados a comentar os comentários.
Terminou milionário.
Jamais assistiu a uma partida inteira.
Considerava isso pouco profissional.

Ebenezer Floppy Cup
Retornou à Inglaterra.
Passou o resto da vida afirmando ter ajudado a batizar o football.
Ninguém acreditou.
Um outro inglês ouviu a história e imediatamente reivindicou sua autoria.
Ebenezer considerou aquilo uma homenagem.
Costumava dizer que a tradição britânica não consiste em estar certo.
Consiste em ser citado.
Morreu discretamente.
Seu obituário registrou apenas:
"Homem educado. Teve opiniões."
Considerou o texto adequado.

O destino da obra

O futebol transformou-se numa instituição.
Guerras foram interrompidas para assisti-lo.
Amizades foram destruídas por ele.
Milhões aprenderam geografia através das tabelas e desaprenderam matemática através das arbitragens.
O impedimento continuou sendo explicado.
Sem sucesso.
Os jogadores aperfeiçoaram a arte da dor.
A medicina jamais acompanhou seus avanços.
E o público continuou comparecendo.
Pagando.
Torcendo.
Sofrendo.
Celebrando.
Tudo por causa de uma bola.
Os inventores acreditavam ter criado um esporte.
Na verdade haviam criado uma forma socialmente aceita de adultos experimentarem colapsos emocionais em público.

Tempo extra: O Público

Mas havia um último participante.
O público.
No início eram apenas curiosos encostados numa cerca.
Depois vieram amigos.
Filhos.
Vizinhos.
Décadas depois vieram bandeiras, hinos e superstições.
Em algum momento o espetáculo mudou de lugar.
A bola continuava no gramado.
O drama acontecia nas arquibancadas.
Os jogadores tornaram-se celebridades.
Os dirigentes tornaram-se escândalos.
Os comentaristas passaram a comentar comentaristas.
O público permaneceu.
Retornava semana após semana.
Como se procurasse alguma coisa que o placar jamais entregava.
Talvez procurasse.
Numa tarde qualquer uma criança assistia ao primeiro jogo.
Ao seu lado, um velho assistia ao último.
Ambos reagiam ao mesmo lance com igual intensidade.
Talvez fosse isso.
Não identidade.
Não pertencimento.
Não ritual.
Apenas a necessidade humana de importar-se com alguma coisa.
Mesmo sem motivo.
Mesmo quando era apenas uma bola.
Mudaram os séculos.
Mudaram as regras.
Mudaram as tecnologias capazes de demonstrar com extraordinária precisão um erro que continuava gerando discussão.
O público permaneceu no mesmo lugar essencial:
entre a esperança e a decepção.
Esperando o próximo jogo.
Talvez porque existam coisas mais importantes na vida.
Mas poucas tão eficientes em fazer as pessoas esquecê-las por noventa minutos.

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Inspiração

A Copa do Mundo

Sobre a obra

Football é uma sátira literária. Utilizando a invenção fictícia do futebol como ponto de partida, uma reflexão bem-humorada sobre tradição, burocracia, pertencimento e criação de sentido coletivo.

Sobre o autor

Pato; se mete a nadar, voar e andar. Sabe fazer nenhum que preste.

Autor(a): PAULO ROBERTO PEREIRA DE ARAUJO (Paulo Araujo)

APCEF/PE