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A Canoa que Volta
A Canoa que Volta
Toda cheia o rio trazia de volta a canoa que ele jurou ter queimado.
Era a mesma. Casco preto, remo quebrado, e o nome "Maria" riscado a faca na madeira.
Só que dessa vez tinha alguém dentro. O Seu Zé a encontrou encalhada no porto às 5 da manhã. Névoa baixa, água batendo nas estacas, cheiro de peixe podre.
A canoa estava seca. Impossível. O rio tinha subido 3 metros na noite anterior.
E no banco de trás, sentada, uma mulher de vestido branco. Cabelo cobrindo o rosto. Água não pingava dela. Ele chamou: "Moça?"
Ela não respondeu.
Quando o vento soprou, o cabelo se abriu um pouco. Não tinha rosto. Só um buraco escuro, fundo, como o rio na cheia. O Seu Zé largou o facão e correu.
No dia seguinte a canoa sumiu.
Na outra cheia, ela voltou.
Dessa vez com duas pessoas dentro.
O Seu Zé não dormia em noite de cheia fazia 12 anos.
Desde a noite em que amarrou a "Maria" no barranco, jogou querosene e riscou o fósforo.
"Era pra acabar", ele resmungava pra água. "Era pra você descansar". Maria era a mulher dele.
Sumiu numa cheia de fevereiro. A canoa apareceu 3 dias depois, virada, sem ela.
O povo disse que a correnteza levou. O corpo nunca acharam.
Só que o Seu Zé achou. Achou ela presa na galhada, com a corda que ele mesmo amarrou no pé dela na briga.
Bêbado. Com ciúme. Disse que era pra "dar um susto só".
A correnteza fez o resto. Ele enterrou a canoa. Queimou. Jogou as cinzas no rio.
Reza que o rio esquece.
Mas o rio do Pantanal não esquece nada. Por isso toda cheia ela volta.
Primeiro só a canoa.
Depois ela dentro.
Agora com duas pessoas. Na terceira noite, o Seu Zé ficou esperando no porto. Lanterna apagada, facão na mão.
Às 3h a névoa desceu. A água subiu.
E a "Maria" encostou sozinha, fazendo o mesmo barulho de madeira na lama de 12 anos atrás. Dessa vez não tinha uma mulher.
Tinha ele.
O Seu Zé.
Sentado no banco de trás. De vestido branco. Com um buraco no lugar do rosto.
E o Seu Zé de verdade, em pé no porto, sentiu a corda apertar o próprio tornozelo. A canoa não veio buscar vingança.
Ela veio buscar vaga. O rio levou os dois naquela madrugada.
Na próxima cheia, os pescadores vão achar a canoa de novo.
Só que dessa vez... com três.
Na terceira noite, o Seu Zé ficou no porto. Lanterna apagada, facão na mão.
Quando a névoa desceu, a "Maria" encostou.
Dessa vez não tinha uma mulher. Tinha ele mesmo, de vestido branco, com o rosto oco.
E a corda apertando o tornozelo dele. O rio queria levar.
Mas o Seu Zé não correu. Ele ajoelhou na lama. A água já batia na canela.
"Maria... fui covarde. Fui bêbado. Fui monstro.
Não te soltei. Não te procurei direito. Queimei a prova pra não doer em mim.
Me perdoa. Ou me leva. Mas me deixa falar teu nome em voz alta primeiro. “O vento parou.
A canoa rangeu.
O "Seu Zé" do banco de trás levantou devagar. O buraco no rosto pingava água preta.
Ele estendeu a mão. Não era pra puxar. Era pra entregar algo. Era o remo quebrado. O mesmo da noite da briga. O Seu Zé pegou. A madeira estava fria, mas não pesava.
Na hora, a corda no tornozelo desfez sozinha e afundou.
A mulher de vestido virou névoa e entrou no rio.
A canoa não afundou. Ela só... ficou velha. Madeira rachada, casco furado. Uma canoa comum. Desde então a cheia sobe e desce.
A "Maria" nunca mais voltou.
Às vezes, pescador jura ver o Seu Zé de noite, remando sozinho.
Mas ele não rema pra fugir.
Ele rema recolhendo galho, tirando lixo do rio, procurando osso de gente que o rio esqueceu. Dizem que o Pantanal não perdoa.
Mas na noite em que um homem fala o nome do erro em voz alta,
até o rio escuta.
FIM
Inspiração
Olhando os ribeirinhos do Rio Paraguai
Sobre a obra
Fui inventando história.
Sobre o autor
Gosto de escrever quando estou inspirado.
Autor(a): JOHN GORDON RAMSAY (GORDON)
APCEF/MT