O CAMINHO DO PÓLEN O profano, o sagrado e a cidade subterrânea

O CAMINHO DO PÓLEN
O profano, o sagrado e a cidade subterrânea

A chuva desceu como incenso.
Não veio para lavar.
Veio para consagrar.
Caiu em sussurro d'água, como poeira luminosa. Ao tocar a luz do poste, adquiriu um improvável paladar de íris e espalhou clarões mansos sobre a rua.

As árvores, feridas pelo sol causticante do verão, receberam aquela chuva como unção sobre as faces. Os flamboyants estenderam tapetes vermelho-amarelados; pétalas pousaram sobre os pés de moleque; e um vento frio, dócil como um acólito, dançou entre as gotas.

Portal aberto.

Soaram, então, os órgãos centenários.
As vozes gregorianas ergueram um sacrário de silêncio.
Do alto das torres, os sinos falantes — que veem tudo — contaram tudo.
Contaram aos que têm ouvidos de ouvir; e, ouvindo, escutam; escutando, compreendem.
Cada badalada não chamava para o ruído.
Chamava para a escuta.

Assim fui levado à d'El-Rey.
Ali, o tempo aprende a rezar.
Cheiros de rosmaninho, alecrim e manjericão compunham a psicosfera dicotômica da quaresma e da Semana Santa: ouro e dor; penumbra e claridade; o peso da História e a leveza da fé.

Caminhei pelas ruas que conhecem seus próprios nomes e destinos: Rua Direita, Rua da Alegria, do Ouro, da Prata, da Graça, das Mônicas, do Barro, do Fogo, da Laje, da Cachaça.
Cada sílaba era um salmo.
Cada esquina, um versículo.

Pelos becos — do Cotovelo, do Sujo, do Agá, da Escadinha, dos Aflitos, da Romeira, do Salto — a cidade respirava por atalhos.
Ali, o passo se encurta e a alma se alonga.

Subi os morros como quem sobe orações: da Forca, do Mané José, do Cristo, do São Caetano, do Bonfim, da Muxinga.
Do alto, aprendi a humildade.
Tudo se apequena quando o céu se debruça.

Desci, então, aos lugares onde a água guarda memória: Tijuco, Bica da Prata, Buraquinho, Cajangá, Biquinha, Matola, Largo da Cruz, Águas Férreas, Caieiras, Quicumbi.

Levitei, quase sem perceber, pelos seus largos.
O do Tamandaré ainda me devolve a bruma leve da torra morna do café. O da Cruz permanece como recanto sagrado das catarses juvenis de meu irmão Antônio Carlos. O do Carmo repousa na solenidade de sua história. O do Rosário abriga, como uma joia incrustada, o Solar do Doutor Tancredo. O de São Francisco continua dedilhando sua harpa invisível sobre a cidade.

Cadenciei os passos com delicadeza, para não ferir a terra-mãe umedecida pelo lacrimejar da chuva.
Foi então que compreendi: enquanto meus pés caminhavam sobre o barro, minha alma já descia para outro lugar.

Submergi.

Em cada fonte, um espelho.
Em cada pedra, um ouvido.
Mas foi no ventre da terra que o mistério se fez absoluto.


Desci às betas.
Ali encontrei a cidade subterrânea.
Única.
Instigante.
Mítica.
Mística.

Ela corre como veias ocultas sob o corpo barroco que sustenta a cidade visível.
As betas de ouro conduzem o olhar como estrelas enterradas.
Não é apenas mineração.
É teologia da matéria.

Por aquelas linhas luminosas, homens foram compelidos a buscar o metal que faiscava nas profundezas — ouro semelhante ao de Ofir, mais precioso do que o próprio sol da superfície.

Na rocha ficou impregnado o lamento.
O suor ensinou a pedra a chorar.
A cidade de baixo conserva, até hoje, os ais plangentes da labuta forçada.
Por isso ela exige memória.
Exige justiça.
Exige amor.

Entre o alto e o fundo encontrei o eixo.
Compreendi, então, que os sentimentos tumultuados nascem quando o homem rompe sua comunhão com aquilo que lhe é essencial.
A falta de amor não é apenas ausência de afeto.
É desarmonia da alma.
É quando o ouro passa a valer mais que o homem.
Quando o brilho cega o cuidado.
Quando o silêncio deixa de ser escuta e se transforma em esquecimento.
O tumulto começa quando nos afastamos de nós mesmos, do outro e de Deus.

Foi então que as palavras de Joanna de Ângelis ecoaram como resposta à própria caminhada:
"A falta de amor gera conflitos íntimos e externos, porque o ser humano, afastando-se da própria essência, passa a lutar contra si mesmo."
E, como quem fecha um círculo, outra de suas lições completou o caminho:
"Somente o amor — compreendido como responsabilidade, respeito e autodoação — restabelece a harmonia interior."

Voltei à sacada.

Dois dedos de chá de hortelã aqueceram minhas mãos.
A chuva permanecia ali.
Serena.
Paciente.
Os sinos já haviam silenciado.
Era a vez da compreensão falar.

Então entendi.

O Caminho do Pólen atravessa ruas e becos, morros e fontes.
Atravessa também túneis.
Leva luz onde a sombra imaginava reinar para sempre.
Leva pólen onde, por tanto tempo, existiu apenas pó.
Não nega a história.
Consagra-a.
Porque, quando a memória encontra o amor, até a cidade subterrânea aprende a florescer.

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Inspiração

A cidade subterrânea existente em São João del-Rei, minha terra natal, tornando a sua ambiência que já é mágica, extremamente espiritual e filosófica.

Sobre a obra

São João del-Rei (que ainda preservo a grafia antiga no d"El-Rey) é meu porto que revigora meu corpo e dá sustentação para que meu Espírito não desita de mim mesmo. É uma peregrinação repleta de memóiras, liturgia e catarses. Eu sempre me utilizo da escrita em prosa poética, crônica lírica para descrever o que se passa em minha alma.

Sobre o autor

Sou um poeta que gosto de escrever sem o amargor e o gosto de fel de outros autores; tento passar para o meu leitor a mesma magia, o mesmo encanto que vivi ao peregrinar por cada detalhe que vivi, sempre com o belo - o bom e o harmônico predominando. Falo de amor, porque é ele quem elimina nossas precariedades humanas.

Autor(a): FERNANDO BATISTA DOS SANTOS (Fernanbas)

APCEF/MG