O Caminho do Pólen - Águas que Curam

O Caminho do Pólen
Águas que curam

Há chuvas que caem não só para molhar a terra,
Dissiparem miasmas no ar, dar de beber à natureza...
Mas algumas descem para curar almas.

A que agora toca o telhado de minha casa
Não é apenas mais um fenômeno —
É sempre mensagem.

É o sopro líquido do Alto,
Descendo em pequenas bênçãos transparentes
Para acalmar o frenesi de corpos cansados
Pelo abrasivo calor dos dias
E pela exaustão silenciosa que cada um carrega dentro de si,
Em seus céus interiores onde há raios tonitruantes
E trovões incandescentes...

Porque, a verdade é que
Ninguém vê — mas por dentro
Há sempre vulcões.
Vulcões de ansiedade,
De lembranças que ainda fumegam,
De palavras que ficaram atravessadas,
De dores que não foram nomeadas,
Mas queimam mais que o sol das três e meia da tarde
Em CataguASES,
A Terra dos Ases.

E quando a chuva cai,
Ela não cai apenas do céu —
Ela cai sobre esse vulcão interno,
Trazendo o milagre antigo do reencontro com o próprio eixo.
É como se dissesse:
"Filho, silêncio.
Eu me importo.
Eu te acalmo.
Eu dissolvo o que te pesa."

As gotas escorrem pelas folhas,
Correm pelas pingadeiras
E telhas dos sobrados de linhas modernas...

Escutam a memória do cajueiro,
Das mangueiras generosas,
Dos flamboyants inflamados
Que aprenderam a fazer sombra até para a alma.

E no instante em que tocam o chão,
Elas carregam consigo um pouco da inquietação,
Um pouco do medo,
Um pouco do cansaço —
E devolvem paz ao ar.

Porque estas são, de fato, águas que curam.
Águas que lembram
Que o que nos aflige
Não é permanente.
Que o fogo que nos consome
Não é eterno.
Que a alma que se agita
Pode sim reencontrar seu lago de serenidade.

E então, em silêncio,
Como quem aprende uma lição pela meditação,
Nós compreendemos: a chuva é o abraço que o céu dá na terra...
E quando, então, deixamos que que a terra também nos abrace,
Descobrimos que podemos também abraçar a nós mesmos.

Assim prossegue o peregrino do Pólen,
Sabendo que há dias de sol que forjam,
Há noites que ensinam,
E há chuvas que curam.

Hoje, eu tive sorte —
Uma chuva me escolheu.
E onde ela toca,
o espírito respira mais leve.

Compartilhe essa obra

Inspiração

A chuva e o seu poder regenerador.

Sobre a obra

Quando chove eu gosto de me debruçar sobre a sacada de casa e ficar me alimentando do que ela proporciona a todos os meus sentidos; é sinestesia em seu mais puro refino.

Sobre o autor

Sou um poeta que gosto de escrever sem o amargor e o gosto de fel de outros autores; tento passar para o meu leitor a mesma magia, o mesmo encanto que vivi ao peregrinar por cada detalhe que presenciei, sempre com o belo - o bom e o harmônico predominando. Falo de amor, porque é ele quem elimina nossas precariedades humanas.

Autor(a): FERNANDO BATISTA DOS SANTOS (Fernanbas)

APCEF/MG