Cinquenta e Três Manhãs de Sol

Cinquenta e Três Manhãs de Sol

Minhas sextas-feiras sempre começavam às 6h. Desde a infância, eu e meu pai mantínhamos um hábito semanal que praticávamos nesse dia.
Colocávamos no carro três ou quatro sacolas de “feira”, confeccionadas com fios trançados por artesãos locais, e partíamos para o Mercadão do bairro onde fazíamos as compras dos mantimentos para nossas casas.
A chegada no local era brindada por um delicioso café da manhã, com tapiocas, bolos, cuscuz de milho, café quentinho e boas conversas com os que também estavam lá, e assim novas amizades surgiam
Os donos de barraca, já nos conheciam, e nos recebiam com aquela alegria de sempre e logo nos ofereciam as suas frutas, verduras e legumes e até já conheciam as preferências de cada “freguês”, assim acontecia também nos locais de venda de carnes e pescados.
Após concluirmos as compras, o picolé de frutas era sagrado. Eles eram vendidos em caixas de isopor, presas por aquele clássico elástico no meio, carregadas pelas crianças dali. No caminho de volta, o carro parecia nos esperar cercado de pequenos ajudantes, que carregavam as sacolas em troca de algumas moedas.
O tempo passava, semanas, meses, anos a fio, mas a rotina permanecia intocável, mesmo adulto, e imerso nas obrigações profissionais, eu fazia questão de resguardar esse momento. Era um tempo que pertencia só a mim e a ele.
Até que, em uma certa sexta-feira, ao voltarmos para o estacionamento após terminarmos as compras, levamos um grande susto: o carro não estava na vaga. Os meninos que costumavam ficar por ali, boquiabertos, correram ao nosso encontro para dar a terrível notícia. Três homens haviam arrombado o veículo, tendo ordenado que os garotos ficassem quietos, e fugiram em alta velocidade
Era Vokswagem Gol Plus, prata, seminovo, que há pouco tempo tínhamos adquirido através de carta de crédito de um consórcio, estava novinho com apenas 5 mil km rodados.
Meu pai permaneceu calmo, em contraste com a revolta que tomou conta de mim. Como um homem que sempre cumpriu as leis e acreditou nelas, ele tinha fé que o veículo seria localizado logo. Fomos à delegacia registrar a ocorrência, prestamos depoimento e passamos a aguardar a ação das autoridades.
Os dias se passaram e, em cada um deles, algum desconhecido nos procurava afirmando saber onde estava o carro e pedindo dinheiro pela informação. Por orientação da polícia, devíamos ignorar essas visitas e telefonemas, deixando que as autoridades agissem em busca da recuperação do bem.
Já quase conformado com a situação, passei a dividir o meu carro com o meu pai. Como ele trabalhava na construção civil, precisava do veículo para se deslocar e acompanhar as obras sob sua responsabilidade.
Durante esse tempo, eu me mantinha sempre alerta pelas ruas onde passava, na tentativa de encontrar o nosso veículo abandonado em algum lugar ou sendo conduzido por alguém. Enquanto isso, meu pai seguia confiante de que as autoridades policiais dariam uma solução para o caso.
O cenário mudou completamente em um domingo à noite, quando fomos à rodoviária receber um casal de amigos recém-chegados à nossa cidade.
Ao estacionarmos em frente à casa que eles alugaram, meus olhos travaram em um veículo ali parado. Era idêntico ao nosso, porém maltratado pelo tempo: pneus carecas, lataria arranhada e placas do estado do Pará
Enquanto meus pais e os amigos conversavam, fui observar o carro mais de perto. Percebi detalhes que coincidiam perfeitamente com o nosso veículo roubado: um friso cromado que havíamos comprado em uma viagem a São Paulo e a capa de couro do banco que, mesmo rasgada, foi fácil reconhecer, já que era um modelo único.
Criamos coragem e chamamos o morador da casa, pois pensamos que o automóvel pudesse ter sido apenas abandonado ali perto
Fomos recebidos por um senhor distinto, que nos explicou que o veículo estava sob a posse de seu genro, um delegado de polícia. O carro havia sido apreendido por sua equipe naquele mesmo dia na periferia da cidade e deixado com ele como fiel depositário.
A alegria tomou conta de nós, pois, mesmo bastante desgastado, finalmente recuperaríamos o automóvel, daria para fazer uma boa reforma e voltar a usá-lo. O próprio senhor que nos acolheu ficou visivelmente feliz com a nossa notícia.
Foi então que o delegado se aproximou de nós. Quando contamos o que havia acontecido, ele nos tratou de maneira ríspida, afirmou que não havia nenhuma possibilidade de aquele veículo ser o nosso, ignorando todas as evidências que identificamos, inclusive um reparo de urgência feito no radiador dias antes do roubo, cuja marca da cola usada pelo mecânico ainda estava visível
Apesar das negativas do delegado, conseguimos, por meio de um advogado, a liberação para uma perícia no veículo. No dia agendado, comparecemos ao Instituto de Criminalística do Estado do Maranhão (ICRIM/MA), onde fomos acompanhados pelas autoridades locais e pelo próprio delegado que detinha a posse do carro
Fomos submetidos a um verdadeiro interrogatório e, naquele momento, tudo parecia conspirar contra nós. Foi então que o perito criminal perguntou se possuíamos a nota fiscal do carro, e, prontamente, entregamos o documento ao profissional.
Após analisar os registros do chassi e do motor, confrontando-os com os dados de compra, ele atestou que o veículo era, realmente, a nossa propriedade que havia sido roubada.
O delegado, entregou o veículo à contragosto, e ainda tentou se vangloriar de ter recuperado o carro para nós, mas estávamos juridicamente bem assessorados e fomos autorizados a retirar o bem.
A partir daquele dia, enfrentamos uma longa jornada de burocracias, taxas e idas e vindas ao Detran para regularizar o veículo, cujo chassi havia sido adulterado. Foram providências que nos demandaram muito tempo e dinheiro, mas fazíamos questão de resolver tudo de acordo com as leis.
Nosso Gol Plus passou por inúmeros reparos na lataria, na parte elétrica e no motor. No fim das contas, diante de tantos recursos empregados na sua recuperação, tornou-se inviável continuar com o veículo, e fomos obrigados a nos desfazer dele.
Recebemos uma boa oferta e então decidimos vendê-lo e em troca, adquirimos um Fiat Uno com três anos de uso, simples, mas bem conservado. Assim, a nossa rotina foi finalmente restabelecida, com o cuidado de, dessa vez, contratarmos um seguro para proteção contra roubos e acidentes.
Alguns meses depois, ao fazermos o mesmo trajeto para visitar os amigos recém-chegados à cidade, o delegado da casa vizinha acenou para nós.
Desta vez, ele conduzia uma Parati branca, mas com um detalhe que saltou instantaneamente aos nossos olhos: as placas eram do Pará, exibindo exatamente as mesmas letras e números que estavam no nosso carro quando foi roubado, e que constavam no documento de restituição da nossa posse.
Diante disso, eu e meu pai ficamos perplexos, voltamos para casa, sem olhar para trás e, durante o caminho, refletimos sobre a questão: afinal, o que prevalece? A lei ou o poder?"
Essa foi uma história real, entre tantas outras que pude viver e aprender graças à experiência e aos sábios conselhos do meu pai.
Hoje, resta-me a saudade dos cinquenta e três anos em que pude contar com sua companhia e seu apoio irrestrito em todas e quaisquer circunstâncias.
Um tempo que parece longo, mas que, para mim, passou depressa demais.

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Inspiração

A idéia surgiu a partir de uma história real, vivida em um dia que quase sempre se seguia na mesma rotina, porém, não dessa vez.
Trata-se dos perrengues em que eu e meu pai passamos durante alguns meses fruto do roubo do nosso carro no Mercadão do Bairro, local em que íamos religiosamente nas manhãs das sextas-feiras

Sobre a obra

Obra escrita descrevendo fatos reais, com parágrafos interligados entre si, cujo o tema vai evoluindo com a iserção de fatos novos e inesperados e explorado sobre a ótica do meu ralacionamento de amizade e parceria com o meu pai e de como conduzirmos a solução da problemática apresentada.

Sobre o autor

Talento herdado do meu paio, tios e avô materno, que nos incentivávamos sempre a escrever ou desenvolver quaisquer outras habilidades, que eram apresentadas em momentos informais e alegres nas reuniões de família

Autor(a): PAULO EGIDIO OLIVEIRA DA SILVA (Paulo Egidio)

APCEF/MA