CARREGANDO O PESO DO MUNDO

O SILÊNCIO QUE CARREGA O PESO DO MUNDO

Antes mesmo que o sol ouse espreguiçar seus primeiros raios sobre a terra, e o céu abandone o escuro da madrugada, ele já está acordado para mais um dia, como se o dever fosse seu despertador natural. Trata-se de um dócil e inofensivo jumento, símbolo do Nordeste do nosso Brasil.
De passos curtos e firmes, de olhar profundo como cacimba esquecida no sertão, sobre o dorso carrega sacos, feixes e mantimentos, para atender à pressa dos homens e à impaciência do mundo.
Do couro marcado, não se queixa, apenas registra o tempo, como a madeira guarda os veios da própria história.
O sol lhe castiga o lombo ao meio-dia, a poeira lhe cobre os olhos e a chuva lhe visita sem pedir licença, ainda assim, ele segue.
Alimenta-se do capim ralo que encontra à beira da estrada, bebe a água morna das poças rasas que se formam pelo chão e dorme ao relento, sob a vigília das estrelas, a lua, talvez, seja sua única confidente.
Nunca conheceu um estábulo coberto, nunca sentiu o cuidado atento de um veterinário, nem usufruiu de um descanso que durasse mais que o curso de uma noite.
Seu único brinquedo é a carroça, companheira rangente que lhe segue em cada curva do caminho.
E quando o açoite corta o ar, não há revolta em seus olhos, há apenas um silêncio antigo
Um silêncio que parece entender, que a vida, para alguns, é aprender a resistir.
Contudo, a maior das dores não vem do peso da carga ou do calor do asfalto, mas da ingratidão que o aguarda no fim da sua jornada.
Quando o tempo cobra seu preço e as forças desvanecem, as pernas vacilam e o lombo já não suporta mais o fardo, esses fiéis servidores são abandonados sem piedade à beira das estradas, pelos mesmos homens a quem dedicaram uma vida inteira de obediência e suor, restando-lhes apenas a solidão de um adeus invisível
Há uma nobreza invisível em seu passo lento, uma grandeza que não faz alarde. Ele ensina, sem palavras, que a dignidade não depende de aplausos, e que a resistência não precisa de orgulho.
E se o mundo tivesse olhos mais atentos, veria naquele dorso curvado não apenas peso, mas uma admirável coragem. Porque viver de sol a sol, sem perder a sua brandura, é feito raro, até entre os homens.
Mas o amanhã guarda a promessa de um tempo mais brando. O eco desse silêncio antigo finalmente começa a despertar no mundo, transformando-se em leis de proteção, santuários de acolhimento e na força de braços humanos que agora se levantam para defendê-los.
Onde antes havia o abandono, floresce a esperança do resgate, do repouso merecido e do respeito que sempre lhes foi devido.
Que a justiça apague as marcas do passado, e que as novas gerações aprendam a guiar o destino desses nobres guardiões com a dignidade e o amor que eles sempre carregaram no olhar.
Vida longa ao jumento. que um dia lhe sobre capim farto, água limpa, sombra generosa e mãos que, em vez de açoite, lhe ofereçam um afago, um cuidado, um simples carinho




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Inspiração

Desde pequeno acompanhava e me entrestecia com a triste vida dos jumentos, que circulavam a cidade carregando todo tipo de objetos e materiais a derem transportados até para lugares longiquos.
Então resolvi escrever essa crônica baseada em uma relidade que ainda hoje acontece na esperança de sensibilizar mais e mais pessoas para com essa causa.

Sobre a obra

Uma crônica que relata em o dia a dia de um jumento, como ele vive, se alimenta, resiste ao trabalho pesado e aos açoites, sem sequer usurfruir de cuidados e um simples descanso, e ainda, o que acontece quando esses animais envelhecem e acende-se uma luz de esperança por ações que começam a existir para proteção e cuidado desses filhos da natureza.

Sobre o autor

Na família paterna tive a oportunidade de conviver com o pai, irmão tios e avô que escreviam contos posias e histórias diversas que eram compartilhadas nos aniversários e outros encontros, desenvolvi o meu talento a partir daí e gosto de escrever sobre coisas que vejo, que vivi e algo que de repente surge e torna uma inspiração para uma nova obra

Autor(a): PAULO EGIDIO OLIVEIRA DA SILVA (Paulo Egidio)

APCEF/MA