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DO CÉU CAIU POESIA
DO CÉU CAIU POESIA
Era uma vez um menino que brincava solitário com coisas de infância – bonequinhos de palha e barro. Às vezes distraia-se jogando gude com pequenos ossos de animais roídos pelo sol. Não tinha baladeira por não gostar do estrago. Nunca caçou, nem de arapuca, por gostar de capturar a natureza com o olhar.
Onde morava o menino, a vida era áspera e de espera.
Cores ressequidas refletiam o ardente do sol. Minguadas lágrimas vindas do céu conseguem tudo verdejar… minguadas lágrimas. Brotando das ranhuras da terra pela mera lembrança das gotas, árvores logo abandonam o viço e se camuflam no ocre da paisagem e se retorcem em misteriosas figuras. A paisagem se colore de marrons.
As famílias se acomodam em casas de pau a pique, com palmos medidas. Por fora, lares espacejados pelo céu de terra seca como estrelas plantadas no véu dos sonhos. Por dentro, poucos haveres. Pilão. Fogão de barro. Paninhos de bilro. Retratos pintados. Redes, não de pesca, de sonhos.
Um dia, de súbito, a vagueação foi interrompida e o menino esbarrou em um poema.
Uma rajada de vento árido trouxe um véu de poeira, incontáveis bolas de vegetação seca e um pedaço de papel.
Com ligeireza pueril, apanhou a folha no ar antes que esta viajasse para outro sítio. O impresso estava carunchoso por conta da excursão que a ventania o fizera seguir. As únicas paradas do folheto coincidiam com um enrosco numa árvore aqui ou com o atropelo numa pedra acolá e um rolar no chão escaldante.
Limpando as mãos poeirentas no calção, ergueu o papel até a altura dos olhos e leu.
“Naco de chão verde
germinado na água azul
– Marit(i)ma ilha.”
Essas foram as palavras que o menino arrebatou do retalho. A escrita parecia um pé de jitirana-azul, cada letrinha anil unida à outra e à outra, formando a trama da planta rasteira.
Quando estava sobre a escrita, pegou-se a pensar no próprio nome, seco e pedregoso, – Pedro. Sabia as letras, as sílabas e palavras, mas não sabia o que era ilha e nem mesmo mar. Não brotava verde ilha dentro de mar azul naquela secura.
Ora em voz alta, ora em pensamento, repetiu e repetiu, até não precisar mais consultar o escrito. O coração do menino estava tatuado com aquela oração.
Manteve-se inquieto até ver a figura do pai, grande chapelão de palha e pesada enxada incrustrada nas mãos calejadas, rompendo a soleira da porta.
– Pai… pai… pai.
– Calma! Você tá de bobagem ou as galinhas botaram ovos de ouro?
O cansado homem descalçou as botinas e arregaçou com cuidado as mangas puídas, momento que aproveitou para encher-se do ar refrescado da choupana. Percebendo a aflição do filho, perguntou: “– O que se passou para estar agitado como redemoinho no meio do sertão? A ventania levou a vaca leiteira?”
– Olha o que o vento trouxe. Um bilhete! Com as pequenas mãos apresentou o pedaço de papel como quem ampara um delicado ninho da ave mais rara e bela.
– Bilhete! De quem? Para você?
O homem quebrantado olhou o precioso tesouro que o filho apresentava. Ignorante das letras, mas entendedor da vida, pressagiou na sua tosca sabedoria. “– Não sei do que trata, mas sei que é algo de lindeza única. Guarde. Mostre à professora, ela saberá decifrar.”
O menino, sabendo da falta de entendimento com as letras, mas reconhecendo e admirando a sabedoria do mais velho – concordou.
A manhã mal tinha aberto os olhos e o sol já ardia nos ombros do menino em sua longa jornada. O ar estava morno e abafadiço. Desviando de espinhosos mandacarus e xique-xiques. Chutando terrões como quem chuta uma bola. Correndo atrás dos desengonçados calangos. Seguindo o curso do rio ressequido, chegou ao destino.
A professora já estava debaixo da árvore onde a aula seria labutada. Sim, árvore, pois a única sala de aula era usada só na estação de chuva, coisa rara de acontecer naquele torrão de mundo.
Ofegante pela caminhada de passos rápidos, só conseguia balbuciar e gesticular.
– Prof... profess... aju... prof...
– Pedro, quanta gastura! Aquieta a respiração e conta o que te aflige. – Como já conhecia muito bem cada aluno, ela percebeu logo que o garoto queria revelar algo.
– Recebi um bilhete... uma mensagem do vento!
O menino estava tão entusiasmado que logo fez com que todas as crianças ao redor também se alvoroçassem, mesmo desconhecendo o motivo. Ele sempre fora econômico nas palavras, mas naquele dia estava diferente.
Mostrou uma caixinha trançada em palha como se fosse o mais rico porta-joias. Abriu-a com cuidado e respeito. Colheu o papel. Repetiu as palavras sem olhar as marcas azuis.
“Naco de chão verde
germinado na água azul
– Marit(i)ma ilha.”
A mestra, sussurrante, soprou: – Sublime!
Numa mistura de júbilo e acanhamento, o aluno tentou explicar.
– Achei de tão linda boniteza, mas não entendi.
– O que não entendeu? Você já conhece as letras e sílabas, sabe que elas formam um mundão de palavras e as palavras uma vida de histórias!
– Sei que é lindo, mas... nunca avistei uma ilha. Nunca atinei sobre o azul marinho e nem me apercebi de tanta história em tão poucas linhas.
A professora compreendeu que o próprio conhecimento era pura imaginação alimentada por imagens aplainadas de livros e revistas. O mar nunca nem resvalara nos olhos da jovem. Resolveu então afervorar a imaginação das crianças e a própria.
– Vamos criar nossa ilha... criar nosso oceano... vamos criar nossa poesia!
Fascinados, os alunos não se importavam com o ilusório da imagem. O sonho tinha sido alimentado com a fantasia e o esperançoso conteúdo da gamela.
– As cores são coradas assim?
– São até mais.
– O azul do mar é lindo. Acho o mar mais lindo que o céu. O mar tem água em gotas, no céu só tem água em nuvens.
E o menino com o bilhete guardado como o mais precioso bem de uma pessoa, percebeu que tinha um novo amigo – o vento.
Muitos ventos sopraram.
Um tufão surgiu barulhando medo e levou para longe o telhado da casa, algumas galinhas, todo o trabalho na lavoura. Uma ventania assobiou com tristura na noite da partida da vó, enquanto as velas oscilavam numa dança lamentosa, a família chorava ao compasso do silvo. Um vento perfumoso brincou com as flores do quintal no dia do nascimento do irmão de Pedro. Algumas brisas surgiam de quando em quando para desfazer as tranças dos cabelos maternos na lida diária.
Pedro se entristecia. Aqueles ares agitados não eram o amigo das palavras poéticas.
Nas lufadas do vento, o tempo voou.
O menino já não brincava mais com os bonecos de palha e nem com os ossinhos, mas decifrava com rapidez as combinações das letras e as tramas das histórias contadas nos livros.
Com um galho de barriguda, teimava em traçar poemas no pó do terreiro. Tinha esperança de que o amigo levasse suas palavras e devaneios para leitores distantes, em outras povoações. Mas as orações eram esmagadas pela realidade das patas das vacas ou pelo ciscar das galinhas, nunca pelo bafejar camarada.
Mesmo ainda criança, Pedro já empunhava a enxada. Ajudava os pais na lavoura e no cuidado com os animais: duas vacas, um jumento, galo, galinhas e cachorros. As mãos, acostumadas aos brinquedos feitos das sobras da natureza e prontas para guiar o lápis nas escritas, agora calejavam no plantar e colher nos torrões domésticos.
O bilhete do vento ainda estava guardado na caixinha de palha cada vez mais empoeirada e menos buscada, aquelas palavras foram ficando mais apagadas.
Surgiram traços largados pelos poucos cantos da casa, poemas e pequenas histórias se conservaram nos pedacinhos de papel rabiscados por letra infantil, mas esses não ganharam permissão para habitar a caixinha de palha.
Um dia o vento voltou assoviando suave.
O pequeno sertanejo carregava todas as forças para desenterrar uma raiz de macaxeira que serviria de mata-fome naquela manhã. O pai afiava as ferramentas, a mãe ordenhava as vacas, o irmãozinho brincava com bonequinhos feitos de palha e barro. Todos na casa tinham afazeres.
Do nada o chapéu de palha afastou-se da cabeça do menino. Provocativo, rodopiou para lá e para cá no ar quente. Depois de agitar-se para resgatar o fujão, Pedro percebeu – o amigo voltara.
Aquele estranho pairou sobre a caatinga por horas como que explorando aquele universo desconhecido. Ora brincou de gira-gira com as estrelas, ora de pega-pega com as formigas. De repente cansou e acomodou-se a poucos passos da casa de taipa .
Pedro, não tirando os olhos do invasor, pé por pé, aproximou-se do objeto voador. O coração de menino sabia que o amigo vento tinha destinado o balão, uma nova mensagem.
Gomos de tecido colorido. Verde. Vermelho. Amarelo. Lilás. Azul. Laranja. Anil. Ora parecia um arco-íris dançante, ora um peão gigante a rodopiar na poeira do agreste. O balaio se assemelhava aos feitos pela falecida vó. A tocha mantinha o dirigível no ar como a lenha queimando mantém a comida calorosa no fogão.
Hipnotizado pelas cores e lento mover-se, Pedro subiu no cesto de vime. A aeronave não se distanciou do terreiro, apenas se mostrou seguro e confiável e, naquela noite, ninou os sonhos do passageiro.
O tempo pairou ao ritmo do balão.
Depois de dias de dormência, o dirigível deu sinal de querer voltar à vida… ao ar. Uma tímida brisa embalou o balão. Com a aparição das estrelas, o vento se mostrou ansioso para levar o balão a esvoaçar.
O galo ainda aprumava as penas antes de chamar o novo dia e o menino já rompia a porta da casa. Carregava uma pequena trouxa de pano, o desejo de conhecer o mar e a bênção dos pais. No pequeno fardo, levava angu de farinha de mandioca, um naco de pão caseiro, uma botelha de leite, uns poemas rascunhados e a caixinha de palha.
Decidido, lançou-se no cesto do balão e, em minutos, nos braços do vento, distanciou-se da terra em busca da imensidão do céu.
– Estou passarinhando.
As paisagens atravessavam como um fio em uma roca. As terras do sítio. O leito seco do rio. A escola a tagarelar pela voz das crianças. A árvore barriguda se fazendo grande para abrigar com sombra os alunos.
– Nunca a imaginei tão bela.
Pedro sentiu que seu corpo já era abraçado pelas nuvens do céu distante. A terra caseira era uma doce lembrança.
– Parece que meus olhos foram trocados. Mirava na secura do torrão e dessabia do ser tão belo.
O descortinar do mundo se iniciou. ¬¬
8
A aventura enchera de perguntas o imaginário do menino.
– Como vou usar palavras rabiscadas e tagareladas para mostrar a natureza? A falta dela? As cores? Os sabores e cheiros? As vidas?
Olhando da vizinhança das nuvens, sorriu. Pedro percebeu que, após flutuar pelos pontos extremos do país, chegara a hora de voltar.
Aquietado, deixou-se acomodar amparado pelo vime da cesta e cochilou como que acomodado nos braços da vó.
De repente, sentindo-se sacudido como por quem tenta acordar o outro de um sono profundo, os olhos de Pedro se abriram. Uma ventania agitada, quase um furacão, estremeceu a frágil embarcação. O dirigível volteou como pião, grande como um bubusão , mas rodopiava pela bafejada do ar. Gira. Flutua. Cai. Volta. Flutua. Cai. Gira.
Sozinho no balão, Pedro agarrou-se na corda da coroa com o fervor de um peão segurando as rédeas de um cavalo arisco. As forças escapavam a cada grito. Sacolejo para lá e para cá. Ora de cabeça para baixo via a terra aproximando-se com rapidez, ora era lançado em direção às estrelas, ora se camuflava numa nuvem, e assim se deu o entrave.
A ventania começou a serenar. Agora brisa. Exaustos pela peleja, menino e balão se aquietaram como dois amigos que fazem as pazes.
Os minguados objetos voaram da aeronave por conta do duelo. A trouxa de pano alçou voo como uma gaivota em busca do alimento no mar. Os poemas libertos se espalharam pela paisagem, cada folha tomou um destino. Somente a caixinha de palha permaneceu segura nos dedos do menino.
Acocorou-se no fundo do cesto de vime e dormiu embalado pela ternura do vento amigo.
De repente o coração viajante saltitou ao receber os primeiros acordes da ararinha azul que cantarejava pousada na velha aroeira, os olhos infantis se abriram, o dirigível estava a centímetros da terra.
O menino, saudoso e animado, pulou do cesto e deu dois ou três passos em direção à casa, virou-se para despedir-se do balão que já não estava lá... partira em silêncio.
Pedro girou nos próprios calcanhares e reconheceu o lar. Encantou-se, tudo estava do modo como deixara. Os pais laborando na plantação, as duas vacas leiteiras ruminando um pouco da vegetação verdim, as galinhas ciscando no terreiro, os bonecos de barro e palha de milho dormitando esquecidos sobre o banco de madeira.
Não. Nada estava do modo como deixara. Tudo tinha conquistado novo corado, novo bálsamo, nova melodia.
O viajante se deu conta de que sempre vivera em uma ilha frondosa no meio do mar. A diferença é que a ilha era o próprio Pedro, verdim de sonhos e devaneios, o mar era o sertão em seus tons castanhos... dourados.
Ao viver aquela aventura, Pedro compreendeu que o colorido do mundo está nos olhos de quem busca a felicidade.
8
Mas a história não terminou.
Um dos poemas libertos ganhou o mundo. O pedaço de papel foi flutuando por entre folhas e flores de todas as nuances existentes. Rolou sobre pedras e grãos de areia das mais variadas luminosidades. Boiou nas águas do mar e dos rios e lágrimas, até restar apenas um verso de um grande poema:
“Do mar árido brotou meu sonho.”
E o papel rabiscado pelas letras e palavras que lembravam um pé de jitirana-azul viajou, carunchando das paragens, até tremular, por fim, nas mãos de uma pessoa que sonhava em conhecer outras ilhas… outras histórias e que se tornara amigo do vento.
Inspiração
O que sempre me inspira são as palavras. Gosto de brincar com a sonoridade e mesmo com a escrita diferenciada de certas palavras. Em "Do céu caiu poesia" , um conto poético, eu sendo do sul do Brasil, fiquei encantada com a riqueza de certas palavras comuns aos moradores da região sudeste para cima e que me brotaram em inspiração e sonho.
Sobre a obra
É uma história curta - um conto - que tem sua construção embasada na beleza e força das palavras e, à partir delas, a narrativa flui e cria imagens de grande impacto, como o menino brincando com ossos e lhes dando nova vida. O texto é poético, pois seu "tecido" cresce conforme o ritmo do vento e do balão, elementos de grande força metafórica.
Sobre o autor
Sempre gostei de Literatura e quando entrei na CAIXA em 1989 tive condições financeira de cursar Letras na PUCPR. Na época do trabalho, meus escritos ficaram escondidos ... eram apenas um hobby. Com a aposentadoria pude me dedicar com maior afinco e estudar com dedicação. Hoje tenho livros publicados e alguns troféus Talentos.
Autor(a): LILIAN DEISE DE ANDRADE GUINSKI (LILIAN GUINSKI)
APCEF/PR