Helena

Helena

O menino acordou com uma luz laranja forte e um calor nos seus pés. Estava muito frio e o vento assobiava por entre as frestas das janelas e portas de madeira antiga. O frio também escapava das paredes irregulares e empoeiradas. Sua vó improvisava uma lâmpada para aquecer os pezinhos daquele menino branco de cabelos castanhos e boca rosa. Ele sorriu, resmungou alguma coisa e voltou a dormir. No café da manhã um espanto, na mesa havia milhares de frutas, mingaus e bolos, mas nenhum pão. Com desconfiança bicou o leite, mas deixou a caneca quase intacta. Pacientemente, a senhora de cabelos negros e cheiro de rosas insistiu para que o garoto experimentasse ao menos as frutas. Foi em vão. Beliscou o bolo de milho e só.
-Esse menino é mole pra comer!
Falou uma jovem que passava o café no canto da cozinha olhou para o pequeno com julgamento. Sentado na soleira da porta, um senhor se escondia dentro de uma camisa desbotada e sem botões, soltava uma fumaça cinza do seu cigarro de palha e só observava o tempo. Galinhas conduziam os pintos no terreno úmido na busca de alimento enquanto um moleque em idioma desconhecido rezingava para que os patos os deixassem colher os ovos.

- Só tem quatro anos. E tá acanhado com o lugar novo. - Deu um abraço protetor no neto e beijou seu redemoinho.

Ainda cedinho, levou o pequeno para passear por dentro da cabruca. O céu azul agora se fechava em cônicas folhas multicoloridas, dentro delas viam-se incontáveis tesouros aurirrubros. Agachada de cócoras, sua vó habilmente partia um fruto com ajuda de uma pedra. E, de uma só vez, fez surgir brotinhos brancos e doces que derretiam no céu da boca. Os pássaros cantavam músicas dos desenhos das manhãs, os bichos zuniam sons de pesadelos, todos os medos acabavam quando o menino se achava mais uma vez escanchado na cacunda da avó.

Em cima da laje via-se homens com grandes rodos, faziam uma dança engraçada e cantavam cantigas desconhecidas aos seus ouvidos. De repente, sentiu um empurrão em seu quadril, rodopiou no ar, deu uma gargalhada aberta e caiu de quatro. Limpou a poeira dos joelhos e observou mais de perto aqueles homens esparramando os grãos no chão quente do sol. Dava para ver uma nuvem pálida e quente pairando no ar. Num piscar de olhos, sua vó amarrava com firmeza uma camisa na sua testa com três nós. Viu que os trabalhadores usavam algo semelhante, e por isso, sentiu-se bem. Homes fortes e de aparência sadia equilibravam enormes sacos em pequenos panos enrolados na cabeça. O menino perplexo, se questionava como os pescoços não partiam ao meio, não soube quando perdeu sua vó de vista.

Num pulo heroico deixou o galpão de secagem para trás, precisava voltar para a casinha branca depois do lago. Parecia um caminho eterno de inúmeros obstáculos. Lembrou das tardes de TV com a irmã em que o personagem encarava perigosas aventuras e tudo ficava bem. Sentiu uma energia brotar em suas perninhas e correu descalço segurando suas sandálias no pulso. O mato alto chegava a cortar sua pele fraca e branca, os tornozelos coçavam muito e não demorou para estar coçando até os cabelos. Já conseguia ver a porta. Se aproximou devagar, um ser estranho estava bloqueando a passagem. Tinha olhos negros e chifres do tamanho de seus braços. O animal o encarou com indiferença, saltou um jato de ar quente e molhado de suas narinas. O garoto chorou alto, forte e estridente.

A água esverdeada escorria pela cabeça, lambia o tronco, pernas e retornava suavemente para a bacia com folhas fervidas. As paredes do banheiro estampavam um marrom sujo. Os azulejos rachados recheavam-se de um verde brilhante e o cheiro de chá era insuportável. O ritual todo não demorou mais que meia hora, o garoto achou que durou toda a tarde. Estava ansioso para voltar para casa.

Tivera muitos pesadelos a noite, os olhos do animal não saiam de sua memória, por isso, sentia um peso empurrando suas pálpebras para baixo. Segurava a mão da avó com força, dava passos do tamanho das perninhas e a poeira já cobria as tiras de sua sandália de tranças pois andava arrastando os pés. A jovem moça, que reclamara do menino no outro dia, estava revestida de malas redondas e disparou na frente, o Sol estava escaldante e aquela caminhada parecia não ter fim. Os olhos do garoto procuravam colo a todo instante, mas os braços da vó se perdiam em meio a tantas sacolas. Pararam nalgum canto da estrada, havia passado um montão de tempo, passavam também cavalos e alguns transeuntes, mas nada do carro que sua avó falava. Não havia sombra, assim, uma fralda foi improvisada como chapéu e não demorou para estar com o peito nu.

- Vó, estou com sede.

O garoto olhava para a jovem com curiosidade, ela devolvia um olhar cansado e impassível. Fazia algum tempo que sua vó tinha partido para buscar a água e ainda não tinha voltado. A mulher procurava o horizonte como se ele nem estivesse ali. Com alguma espera, um carro brilhante de mil janelas levantou um redemoinho de poeira e engoliu a moça. O pequeno estava agora sozinho entre a poeira, o capim marrom, o céu azul e um sol fervilhante. A boca secou toda a reserva de saliva, a cabeça doía da quentura que escapava nas fibras do pano fino. Sentiu medo. Queria sua mãe, queria sua casa. Pensou em voltar para a roça, mas não lembrava o caminho. Não sabe se chorou, pois, tinha certeza que o sol derreteria seus pequenos cristais de lágrimas. Fechou os olhos e pensou que tudo era só um sonho. Daqui a pouco estaria brincando novamente com Bel e Fifo. Contou todos os segundos de sua interminável angústia, abriu seus olhinhos sujos empurrando o sono a poeira e a claridade. Observou de longe que uma mulher caminhava em passos sincopados e trôpegos.
Esfregou os olhinhos para ter certeza de que não era uma miragem. Cabelos negros e ressurretos se estenderam por todo o caminho acalmando o vento e refrescando sua alminha de criança.

- Vó Helena!


*Homenagem a minha avó Maria Helena Carvalho. Eternas saudades!

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Inspiração

Homenagem a minha querida avó que como tantas outras marcou fortemente minha infância e juventude.

Sobre a obra

Texto elaborado pouco depois do falecimento de minha avó e por isso carrega todo sentimento de afeto carinho e proteção que sempre recebi dela.

Sobre o autor

Sou funcionário da Caixa há 16 anos e tenho a escrita e a fotografia como forma de ampliar minha visão de mundo.

Autor(a): JONATHAS FRAGOSO CARVALHO (Jonathas Fragoso)

APCEF/BA


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