- Página inicial
- Detalhe obra
Sapato Social
Sapato Social
Com mais dezessete reais ele completaria os setenta necessários para comprar o sapato social mais barato na Baixa dos Sapateiros. O dia não foi muito bom e por isso ele precisava compensar no dia de amanhã, por isso nem foi dormir no seu barraco. Ajeitou o papelão em baixo do viaduto e dividiu o céu enegrecido e sujo com alguns pedintes. Thiago não gostava de pedir, "coisa de gente preguiçosa", repetia pra ele mesmo. Ele poderia subir por seus próprios méritos. O Sol havia nascido escaldante em Salvador, o Aquidabã parece um forno em dias quentes. Com sua garrafa pet e seu rodinho limpava os vidros e pedia uns centavos. Já era seu sétimo carro, tinha juntado apenas uns trocados e já era meio dia, "não vai dar" pensava ele. "Perco muito tempo lavando pra depois pedir, melhor pedir logo, tenho que pegar esse sapato, velho! Como vou botar currículo com esse pé todo sujo?" Não eram cindo da tarde e um carro importado preto se aproximou da calçada, desses de "barão", os pedintes partiram pra janela, Thiago com todo o zelo começa a limpar o vidro na esperança de uma boa gorjeta, um galego de olhos verdes com um sorriso amarelo ergue na sua direção uma nota dourada. Os pedintes se espremem pra tentar pegar aquele dinheiro, o galego gentilmente explica que é para o rapaz do para-brisa. Um pequeno tumulto se estabelece, um moleque de seus sete anos pega o celular e some nos becos da Sete Portas. O galego assustado tenta fechar seu vidro que é quebrado pela pequena multidão que se formou. Um tiro para o alto! Policiais se aproximam tentando proteger o galego, Thiago assiste parado aquela cena, consegue catar a nota agora suja de poeira. Os policiais perguntam de onde é aquele dinheiro? Num movimento impensado, Thiago começa a correr na direção da Baixa dos Sapateiros, uma perseguição sem sentido começa. Thiago não sabe por que correu, tropeça cansado e choroso e esbarra em várias caixas com calçados de uma loja ali ainda aberta. Os vendedores gritam "CALMA, CALMA, CALMA ele devolve, é só um menino! Sete tiros nas costas, Thiago agoniza em meio ao detergente, seu sangue e vários sapatos.
Inspiração
A linda cidade de Salvador também é palco de imensas contradições e tensões sociais. Não raro presenciamos nas sinaleiras e cruzamentos histórias como essa que infelizmente insistem em se repetir.
Sobre a obra
Conto curto mas que preserva intensidade e uma atmosfera bastante densa. Um conto trágico que ao mesmo tempo impressiona e denuncia as mazelas das grandes cidades do país.
Sobre o autor
Sou funcionário da Caixa há 16 anos e tenho a escrita e a fotografia como forma de ampliar minha relação com o mundo.
Autor(a): JONATHAS FRAGOSO CARVALHO (Jonathas Fragoso)
APCEF/BA
Essa obra já recebeu votos de 0 pessoas
Essa obra já recebeu 0 votos (com peso)