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O Vampiro de Canudos
O Vampiro de Canudos
Rafael Mininel
Quando encontraram Antônio pela primeira vez, ele já estava morto havia três anos.
Ainda assim, caminhava.
Os soldados do Exército Republicano o viram numa madrugada de gesso e cinzas, pouco depois que os últimos tiros ecoaram no sertão baiano. Canudos já não era uma cidade; era uma ferida aberta na terra. As casas de taipa fumegavam sob o céu de chumbo, e o cheiro de pólvora misturado ao azedo da carne humana queimada pairava sobre o Vaza-Barris como uma segunda atmosfera, espessa demais para se respirar.
Entre os escombros de templos desabados, surgiu aquela silhueta. Magra a ponto de os ossos desenharem ângulos retos sob a pele curtida. Descalço, os pés rachados confundiam-se com o chão de pedregulho. Estava coberto pela poeira branca do gesso das igrejas destruídas. Tinha os olhos profundamente fundos, órbitas escuras onde a luz parecia morrer.
Era um homem que parecia ter sido esquecido pela própria morte no meio do massacre.
Um soldado, trêmulo de febre e cansaço, ergueu o rifle Comblain. O cano da arma vibrava.
— Pare! — a voz falhou, engolida pelo silêncio do sertão.
A figura obedeceu. O vento áspero moveu os farrapos de sua camisa, mas seu peito não subia nem descia.
— Quem é você?
O homem demorou a responder. Seus lábios estavam rachados, colados pelo sangue seco e pela poeira. Suas cordas vocais rasgaram-se para procurar uma voz que não usava havia eras.
— Antônio.
— Sobrenome?
— Não lembro.
— De onde você veio, diabo?
Antônio desviou os olhos do soldado e observou as ruínas ao redor. Olhou para as valas comuns onde milhares de corpos haviam sido empilhados como lenha; para as cruzes improvisadas feitas de galhos secos de catingueira; para as cabeças degoladas expostas em estacas; para as crianças cujos pequenos ventres inchavam sob o sol.
Então, respondeu com a suavidade de um sopro:
— Daqui.
O soldado cuspiu no chão de terra vermelha, limpando o gosto da guerra da boca.
— Aqui não ficou ninguém vivo, homem. A República limpou essa peste.
Antônio sorriu. Um sorriso minúsculo, sem dentes, que não chegou aos olhos. Um sorriso que carregava toda a melancolia do mundo.
— Eu sei.
Naquela mesma noite, ele atacou.
Não houve a vaidade gótica dos monstros europeus. Houve apenas uma fome de bicho. No meio da escuridão, ele se arrastou até um cavalo de montaria que agonizava, ferido por estilhaços de granada. Quando os oficiais encontraram o animal pela manhã, ele estava rígido. Branco. Sem uma única gota de sangue nas veias, as mucosas pálidas como cera.
Tentaram matá-lo três vezes. Na primeira, crivaram seu peito de balas de chumbo; ele caiu, mas levantou-se antes do amanhecer, recolhendo os próprios projéteis do chão. Na segunda, degolaram-no; ele costurou a própria carne com espinhos de mandacaru. Na terceira, jogaram-no em uma fogueira de escombros; as chamas lamberam seus membros, mas ele saiu do fogo caminhando, vestindo as cinzas como se fossem roupas novas.
Antônio sempre voltava. Sempre mais magro. Sempre mais silencioso. Sempre mais triste.
Com os anos, o sertão mudou de forma, mas manteve suas assombrações. Antônio transformou-se em um sussurro entre os vaqueiros. O Vampiro de Canudos. O Morto do Conselheiro. O Lobisomem do Vaza-Barris. As mães usavam seu nome para calar os filhos chorões nas noites de ventania. Os viajantes apressavam os cascos dos cavalos quando o sol mergulhava atrás dos umbuzeiros.
Mas Antônio não caçava pessoas. Nunca. Ele guardava um respeito religioso pela carne humana, porque sabia o quanto ela sofria antes de quebrar. Alimentava-se do sangue de bodes doentes, de carcarás feridos e, nas noites de maior desespero, rasgava os próprios braços com os dentes. Bebia de si mesmo. Preferia engolir a própria dor a infligir uma gota de sofrimento a quem quer que fosse.
As décadas passaram como um desfile de poeira. A República envelheceu, mudou de rosto, trocou de farda. Vieram presidentes civis, golpes de Estado, constituições rasgadas, ditaduras violentas, redemocratizações festivas. O progresso trouxe estradas de asfalto que cortaram a caatinga, fios de eletricidade que rasgaram o céu negro.
E Antônio continuou caminhando. Sempre a pé. Sempre sozinho. Sempre carregando uma pesada caixa de madeira de jacarandá, cujas arestas estavam gastas pelo atrito de suas mãos calejadas.
Em 1957, um jovem professor de história chamado Miguel o encontrou em um vilarejo que fedia a querosene e solidão. Miguel pesquisava a Guerra de Canudos para uma tese universitária. Quando viu aquele homem de traços rústicos, que aparentava quarenta anos mas portava certidões paroquiais amareladas do século anterior, o professor pensou estar diante de um vigarista que lucrava com o misticismo do sertão.
Até Antônio abrir a caixa.
Lá dentro não havia ouro, nem dentes, nem terra de cemitério. Havia pedaços de pano de chita. Santinhos de papel desbotados com orações a São Sebastião. Mechas de cabelo guardadas em papéis de pão. Alianças de latão oxidadas. Canivetes gastos. Sapatinhos de pano de bebês que nunca chegaram a andar.
Milhares de pequenos fragmentos de existências interrompidas.
Miguel passou a noite inteira sob a luz de um lampião, tocando aqueles objetos com as pontas dos dedos trêmulos. Sentia o frio que emanava de cada um deles. Por fim, com a voz embargada, perguntou:
— O que é isso tudo, Antônio?
Antônio olhou para o teto de telhas vãs da cabana.
— Os nomes.
— Que nomes?
— Deles.
Como Miguel permanecesse em silêncio, sem compreender, Antônio retirou do fundo da caixa um caderno de contabilidade antigo. As capas de papelão estavam roídas por traças nas bordas; as páginas, escuras como folhas secas de outono. Cada linha continha uma caligrafia miúda, desenhada com tinta de jenipapo.
Maria Francisca, 14 anos, costureira.
João Quadrado, 60 anos, carpinteiro.
Pedrinho, filho de Antônia, 8 meses.
Linha após linha. Página após página.
— Você... você conheceu essas pessoas? — perguntou Miguel, sentindo um nó fechar sua garganta.
Antônio sorriu. E, pela primeira vez, Miguel viu que a dor naquele rosto não era uma expressão facial; era uma estrutura óssea. Era uma geologia.
— Conheci.
— Todos eles?
— Todos. Eu vi quando chegaram com suas trouxas de roupas fugindo da fome. Eu ajudei a cobrir suas casas de palha. Eu limpei o sangue do rosto de muitos deles quando as granadas começaram a cair.
Miguel fechou o caderno devagar. Suas mãos suavam frio.
— Como isso é possível? O que você é? Um sobrevivente?
— Não — disse Antônio, olhando para o horizonte além da janela, onde o sol morria em um tom de sangue pisado sobre a caatinga. — Os sobreviventes continuam a vida. Eu não tenho vida para continuar.
— Então o que aconteceu com você?
Antônio demorou tanto para responder que o lampião chegou a estalar, quase sem óleo. Quando falou, sua voz parecia vir do fundo de um poço seco:
— Eu morri no terceiro dia do cerco. Uma bala atravessou meu estômago. Eu caí no meio dos escombros da igreja nova. Fiquei lá, ouvindo os gritos das mulheres e o estouro dos canhões. Senti minha alma se desprender... mas quando ela ia subir, ela olhou para baixo. E o que ela viu aqui na terra era tão terrível, tão injusto, que ela teve medo de ir para o céu e deixar meus irmãos sozinhos no inferno. A alma voltou para o corpo à força. Mas voltou errada. Voltei sem pulso. Sem respiração. Com uma fome que não é de comida. Uma sede que não é de água.
— E por que você não se deita e se deixa morrer agora? A guerra acabou, Antônio! Faz sessenta anos!
Antônio pegou o caderno de contabilidade de volta. Passou a ponta dos dedos trêmulos sobre os nomes escritos, acariciando as letras como quem toca a pele de um filho adormecido.
— Porque eles não podem.
O professor Miguel cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar. Um choro convulsivo, desajeitado, o choro de quem descobre que o mundo é muito mais sombrio e sagrado do que os livros ensinam.
— Todos os anos — continuou Antônio, com a voz firme, cortante como uma navalha — a República esquece mais um deles. Uma escola que levava o nome de um marechal apaga a história de uma vila. Uma fotografia antiga apodrece em um arquivo no Rio de Janeiro. Uma carta de amor desfaz-se em traças. Um neto que ouviu a história morre de velhice. Uma memória apaga-se na mente de um moribundo. E quando a última memória de um homem se apaga na terra... — Antônio engoliu em seco, e o som foi como o estalar de um galho seco. — Aí acontece a segunda morte. A morte de verdade.
Os anos continuaram seu galope indiferente. O professor Miguel envelheceu e morreu de um ataque cardíaco em sua escrivaninha. O livro que ele escreveu sobre Canudos foi publicado por uma editora universitária, teve uma tiragem de mil exemplares, foi lido por duzentos intelectuais e acabou esquecido nas prateleiras baixas das bibliotecas.
Mas Antônio continuou caminhando. Sempre com a caixa. Sempre com o caderno.
Em 1997, exatamente no centenário do fim da guerra, um jovem jornalista de São Paulo cruzou com Antônio em uma estrada de terra perto da Nova Canudos — a cidade artificial construída para cobrir as ruínas da velha, que agora jaziam sob as águas de uma represa.
— Quantos nomes o senhor diz que tem anotados aí nesse caderno? — perguntou o repórter, estendendo o microfone.
Antônio respondeu sem hesitar, o número gravado a fogo em seu peito:
— Vinte e cinco mil, seiscentos e quarenta e dois.
— Tudo gente que morreu na guerra?
— Sim.
— E o senhor... — o jornalista deu uma risadinha cínica — o senhor afirma que se lembra do rosto de cada um deles?
Antônio parou. Pela primeira vez em cem anos, ele fechou os olhos sob a luz do sol do meio-dia. O vento do sertão cessou por um instante. Ele sorriu. Um sorriso exausto, desarmado. Humano.
— Não.
O jornalista piscou, surpreso.
— Não?
— Não — repetiu Antônio, e uma única lágrima, pesada, escura, densa como o sangue que ele evitava beber, brotou de seu olho esquerdo e cavou um sulco na poeira de sua bochecha. — Eu esqueci um.
Foi a única vez que o Vampiro de Canudos chorou.
Não chorara quando a bala lhe rasgara as entranhas em 1897. Não chorara quando vira as cabeças de seus amigos espetadas em estacas ao longo da estrada. Não chorara durante os cem anos de uma solidão que nenhum homem vivo seria capaz de suportar. Mas chorou naquele instante. Porque finalmente havia falhado com um de seus mortos. A barreira havia rompido. A segunda morte havia vencido um deles.
Naquela mesma noite, Antônio não procurou abrigo. Caminhou para o coração mais fechado da caatinga, onde os xique-xiques e os mandacarus erguem seus braços espinhosos em direção ao nada. Sentou-se na terra seca, sob um céu coalhado de estrelas que pareciam estilhaços de vidro.
Abriu o caderno de contabilidade no colo. Com os dedos trêmulos pela debilidade da idade que finalmente começava a cobrá-lo, folheou página por página. Passou pelas Marias, pelos Joões, pelos Josés, até que seus olhos pousaram no espaço em branco. Uma linha onde a tinta de jenipapo havia desbotado completamente devido a uma gota de chuva de cinquenta anos atrás, ou onde sua própria mente falhara em reter os traços do rosto de uma mulher ou de uma criança.
O nome perdido. A pessoa que agora era nada. A última derrota de Canudos. A derrota definitiva.
Antônio curvou as costas, preparando-se para o espasmo final da dor.
— Não tem problema, Antônio.
Ele ergueu os olhos.
Havia uma mulher parada entre os arbustos de jurema. Vestia um vestido de algodão cru, manchado de terra e de um sangue antigo. Ao lado dela, surgiu outra figura. Um homem segurando uma enxada. Depois uma criança, com os olhos brilhando como os das cabras na escuridão. Então dezenas. Centenas. Milhares.
As silhuetas começaram a brotar da terra vermelha, ocupando toda a planície da caatinga até onde a vista podia alcançar sob a luz do luar. O silêncio que compartilhavam era absoluto, o peso de um sertão inteiro que já não precisava gritar. Estavam todos ali.
— Eu esqueci você... — a voz de Antônio quebrou-se em um soluço seco, o peito doendo com uma dor física que ele achava que já não possuía. — Me perdoe. Eu falhei.
A mulher aproximou-se. Ela não tinha peso, mas seus pés deixavam uma marca leve na poeira. Ela estendeu a mão e tocou a bochecha áspera do vampiro. O toque era frio, mas para Antônio, pareceu o primeiro raio de sol após um inverno secular.
— Não, meu filho — ela disse, no mais profundo silêncio da planície. — Você lembrou da gente por cem anos. No meio do esquecimento do mundo inteiro, você ficou acordado por nós. Já foi suficiente. Pode deitar.
Pela primeira vez desde que o primeiro canhão fora disparado contra o arraial, Antônio sentiu a fome monstruosa desaparecer de suas entranhas. A sede implacável de sangue que lhe queimava a garganta apagou-se como uma brasa na água. A culpa que o arrastava pelos caminhos de terra desfez-se. O peso da caixa de jacarandá sumiu de seus ombros.
Quando o sol nasceu na manhã seguinte, dourando a caatinga com sua luz impiedosa, os pássaros carcarás voaram sobre o local e não encontraram nenhum monstro.
Havia apenas a caixa de madeira, aberta. O caderno de contabilidade, com as páginas em branco sendo movidas suavemente pela brisa da manhã. E, sobre o chão, uma fina e perfeita camada de poeira branca de gesso.
Nada mais.
Hoje, se você visitar as terras de Canudos, talvez encontre um velho livro com as páginas roídas numa biblioteca de município. Talvez encontre um nome rabiscado na parede de uma igreja que sobreviveu à inundação. Talvez encontre uma fotografia desbotada na parede da casa de uma rezadeira.
E, sem saber, ao ler aquele nome em voz alta, você estará ajudando um vampiro a descansar.
Porque algumas criaturas bebem sangue para continuar existindo na carne. Outras bebem memória para manter os seus de pé. E há crimes tão imensos na História dos homens que exigem que um monstro permaneça acordado.
Inspiração
Ao estudar sobre a Guerra de Canudos, pensei em um ser que sobreviveu a Guerra, mas ficou vagando até os dias atuais carregando uma caixa cheia de itens que lembram das pessoas que morreram lá. Esse mesmo ser se recusa ao morrer, pois ele tem medo que todos esqueçam aquele massacre.
Sobre a obra
Minha prosa é sinestésica. Não me prendo a detalhes físicos das pessoas (para qualquer pessoa se sentir representada), mas quero fazer o leitor ver a cena, sentir o cheiro, sentir o tato...
Sobre o autor
Estou na CAIXA há 21 anos. Escrevo desde sempre. Estava parado há muito tempo, devido a um Transtorno de Ansiedade. Através da terapia, minha psicóloga me incentivou a escrever. Voltei a escrever em setembro de 2024. Desde lá, já tenho 7 livros publicados, 2 em processo de publicação, além de já sair em mais de 40 coletâneas de contos por editoras.
Autor(a): RAFAEL MARQUES MININEL (Rafael Mininel)
APCEF/SP