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O NOME QUE FALTAVA
O NOME QUE FALTAVA
Durante quarenta anos, Helena soube exatamente quem era seu pai.
Ou, pelo menos, sabia o nome dele.
Era uma dessas certezas estranhas que não nascem das lembranças, mas das
histórias que ouvimos tantas vezes que acabam se transformando em
memória.
Nunca havia visto seu rosto. Nunca tinha ouvido a sua voz. Não sabia se era
alto ou baixo, sério ou brincalhão, se gostava de café ou suco. Não sabia
sequer se tinha herdado dele os olhos, o jeito de andar ou aquela mania de
franzir a testa quando estava preocupada.
Mas sabia o nome.
E aquilo lhe foi suficiente por quarenta anos.
Sua mãe nunca gostava de falar sobre o assunto.
Quando Helena perguntava, ainda menina, recebia respostas curtas.
— Ele sabe que eu existo?
— Sabe.
— Por que nunca veio me procurar?
— Porque não quis.
Depois vinha o silêncio.
Com o tempo, Helena aprendeu que algumas perguntas custavam caro
demais. Então parou de fazê-las.
Cresceu.
Estudou, trabalhou, apaixonou-se, sofreu, recomeçou. Tornou-se adulta
carregando dentro de si aquela ausência já domesticada.
Até que, numa tarde qualquer, o telefone tocou.
Era seu meio-irmão. (Eles tinham se conhecido por acaso, e quando
compartilharam suas histórias, descobriram o parentesco.)
Ele falava depressa, empolgado.
— Helena, encontrei nosso pai.
Ela ficou em silêncio.
“Nosso pai”.
Duas palavras que, juntas, ainda pareciam estranhas.
— Encontrei mesmo — continuou ele. — Tenho certeza. Vou atrás dos meus
direitos. Se precisar, coloco na Justiça. Você vem comigo?
Helena sentiu alguma coisa antiga despertar dentro dela.
Não era exatamente esperança.
Talvez curiosidade.
Talvez medo.
— Antes de qualquer coisa, vou falar com a minha mãe.
Desligou.
Ficou algum tempo olhando para o telefone.
Depois respirou fundo e ligou para a mãe.
Conversaram sobre assuntos pequenos primeiro. A saúde, o calor, os netos,
uma conta que precisava ser paga. Até que Helena finalmente perguntou:
— Mãe... encontraram meu pai.
Do outro lado, silêncio.
— Meu irmão encontrou. Ele disse que tem certeza.
Mais silêncio.
— É ele mesmo?
A mãe demorou a responder.
— Helena... eu não sei.
Ela franziu a testa.
— Como assim, não sabe?
A mãe continuou.
— Naquela época eu era muito nova. Namorei algumas pessoas...
Helena sentiu o coração acelerar.
— Mãe, durante quarenta anos você me disse que aquele homem era meu pai.
— Eu sei.
— Então como agora você não sabe?
Outra pausa.
Dessa vez, longa demais.
Quando a mãe voltou a falar, sua voz parecia menor.
— Porque... na verdade, eu acho que seu pai é outro.
Helena não respondeu.
Não porque não quisesse.
Porque não conseguiu.
Durante quarenta anos, existira dentro dela uma porta fechada. Atrás daquela
porta estava um homem que havia decidido abandoná-la antes mesmo que
pudesse conhecê-la.
Ela aprendeu a viver com isso.
Aprendeu até a perdoá-lo sem conhecê-lo.
Mas naquele instante, alguém acabava de lhe dizer que talvez nunca tivesse
existido porta alguma.
Nem pai, nem abandono, nem aquela história.
Tudo aquilo que ela havia usado para explicar uma parte de si mesma, era uma
mentira.
— Quem?
A mãe disse um nome.
Helena nunca tinha ouvido esse nome.
E, pela primeira vez, em quarenta anos, não sabia quem era seu pai.
Dias depois, em outra parte do estado, um homem recebeu uma ligação.
— Paulo, preciso lhe perguntar uma coisa.
Ele reconheceu a voz. Era alguém que conhecia há muitos anos, alguém que
também conhecia a mãe de Helena.
Conversaram alguns minutos até que veio a pergunta:
— Você se lembra da Lúcia?
Paulo sorriu discretamente.
Como poderia esquecer?
— Lembro.
— Você sabia que ela teve uma filha?
O sorriso desapareceu.
— Sabia que ela estava grávida.
A voz do outro lado hesitou.
— A filha tem quarenta anos.
Paulo fechou os olhos.
Quarenta.
Fez as contas sem precisar de papel.
As datas encaixavam.
Sempre encaixaram.
— Qual é o nome dela?
— Helena.
Paulo sentou-se.
Durante décadas, carregara uma dúvida que nunca conseguia resolver.
Quando Lúcia desapareceu de sua vida, ele suspeitava da gravidez. Tentava
saber notícias. Perguntava a conhecidos. Procurava, mas naquela época, as
pessoas podiam simplesmente desaparecer sem deixar rastros.
Depois os anos passaram.
E ele aprendeu a conviver com uma pergunta:
"Será que tenho um filho em algum lugar?"
Agora aquela pergunta tinha nome.
Helena.
— Ela sabe de mim?
— Soube agora.
Paulo passou a mão pelo rosto.
— E ela quer me conhecer?
Houve alguns segundos de silêncio.
— Quer.
Paulo suspirou profundo.
Não era felicidade.
Era uma espécie de luto.
Porque, naquele instante, ele descobria uma filha e, ao mesmo tempo,
descobria tudo aquilo que havia perdido.
O primeiro aniversário.
O primeiro dia de escola.
Os joelhos machucados.
As formaturas.
Os medos.
Os namorados.
As conquistas.
Quarenta anos inteiros cabiam dentro daquela palavra:
Pai.
E ele nunca a tinha visto.
Quando finalmente marcaram o encontro, Helena chegou primeiro.
Escolheu uma mesa perto da janela.
Tentava imaginar como reconheceria um homem que nunca tinha visto.
Até que a porta se abriu.
Um senhor entrou devagar.
Olhou ao redor.
Os dois se encontraram com os olhos.
E Helena soube.
Não por causa de uma fotografia.
Nem de um documento.
Havia alguma coisa naquele rosto que lhe parecia estranhamente familiar.
Paulo caminhou até ela.
Parou diante da mesa.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois soube o que dizer.
Quarenta anos de ausência eram grandes demais para caber numa
apresentação.
Finalmente ele falou:
— Helena?
Ela confirmou.
— Paulo?
Ele deu um sorriso hesitante.
Houve um silêncio constrangedor.
Até que Helena o convidou para se sentar.
Era estranho, não houve emoções instantâneas.
Parecia que estava conhecendo um novo amigo do trabalho.
Mas, havia barreiras que precisavam ser rompidas.
Depois vieram as perguntas.
Muitas.
Algumas tiveram respostas.
Outras jamais terão.
Vieram também as mágoas, as versões diferentes da mesma história, os
silêncios antigos e aquelas verdades que chegam tarde demais para consertar
o passado.
Mas chegaram.
E isso bastou.
Com o tempo, Helena descobriu pequenas coisas: de onde vinha determinado
sorriso, reconheceu nele alguns de seus gestos, descobriu coincidências que
os faziam rir.
Paulo, por sua vez, começou finalmente a conhecer a menina que durante
quarenta anos existia apenas como possibilidade dentro de sua cabeça.
Não recuperaram o tempo perdido.
Isso ninguém consegue.
Também não apagaram o passado.
Aprenderam algo melhor:
Que talvez algumas histórias não tenham um final feliz.
Tenha apenas, um final possível.
Porque existem fantasmas que não desaparecem quando descobrimos a
verdade.
Eles desaparecem quando finalmente conseguimos olhar o passado sem
deixar que ele continue decidindo o nosso futuro.
Inspiração
Essa é a história da minha esposa. É uma história triste e complicada, mas a verdade veio à tona depois de 40 anos
Sobre a obra
Eu trato como narrador, que está de fora da história, mas que conhece profundamente os sentimentos e pensamentos dos personagens. Uso também a técnica de suspense por revelação gradual, peripécia, fragmentação, dentre tantas outras
Sobre o autor
Eu sempre gostei de ler e escrever, já consumi muitos clássicos literários nacionais e internacionais. Mas amo poder me expressar de maneira não convencional, ou seja, artística e quero compartilhar minha forma de ver o mundo com as pessoas
Autor(a): MARCELO DE MEDEIROS MELO (Medeiros Melo Versos )
APCEF/RN
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