Talentos Fenae/Apcef

Filho do Silêncio

Meu nome é Renato Veras. Sou operador de monitoramento de uma empresa de segurança. Temos contrato com alguns condomínios e empresas pequenas. Aqui no bairro, quando chove, alaga tudo. E hoje é um desses dias. Ônibus lotado sempre. Saio de casa, levando meu chaveiro que tem um canivete escondido para me prevenir por conta da falta de segurança. No meio do caminho fico de olho em um mendigo todos os dias, para não me roubar. No ponto de ônibus tem uma senhora que vende café. Ela sempre fica me encarando, não gosto muito dela. Dou bom dia a ela e entro no ônibus.
Só existe uma linha que passa onde trabalho e sei que vou encontrar todos os meus colegas nela. Faz um mês apenas que cheguei na empresa e nunca tive vontade de me aproximar deles.
Primeiro entra a analista de imagens, Elisa. Preciso mandar para ela todos os dias as imagens das câmeras que acho suspeitas. Mas ela nunca vê problemas. Acho que ela só olha as imagens para saber da vida dos clientes. Na comunidade onde ela mora é comum ficar na porta de casa o dia todo fazendo isso.
Depois, entra Caio, o técnico de campo. Ele fica o dia todo na rua. Nunca entendi bem a função dele. Tenho certeza de que ele finge que está trabalhando. É do interior, então está acostumado a ficar o dia todo sem fazer nada. Eu vim do interior, sei bem como é.
O próximo é Vigílio. Ele é o supervisor da empresa. Um tirano. Eu atrasei só dez minutos semana passada por conta dos atrasos constantes nos ônibus e acabou que ele me chamou atenção. Disse que atrasos são descontados do salário. Um idoso perto de se aposentar e fica tomando o lugar que deveria estar com os jovens.
Agora é a vez de Patrícia. Ela é a dona da empresa. Nunca entendi como uma mulher pode se interessar por segurança. É perigoso para elas. Tem carro do ano, mas prefere ir de ônibus. Sempre achei ela uma “patricinha”, como o próprio nome diz. E mão de vaca que não quer gastar com gasolina.
O último é Lucas, neto de Vigílio. É um rapaz até trabalhador, mas vive saindo à noite e chegando atrasado no estágio. Já vi ele passar na rua tarde da noite de bicicleta com bebida na mão.
Durante todo o percurso, eles conversaram na parte da frente do ônibus. Nem sequer me notaram, ainda bem. Creio que seja por conta do capuz que estou usando para me proteger da chuva. Ou talvez só não me veem como alguém importante na empresa mesmo. Esperei todo mundo descer e saí. Parei um tempo na barraca de lanches. Ainda tinha quinze minutos para entrar.
Quando enfim chego no prédio, passo pela catraca e coloco o dedo para bater o ponto. Vigílio, como sempre, falando do horário. Hoje, olhou para mim oferecendo um café. Ele mesmo cuida da copa e da limpeza na empresa. É tipo o faz tudo daqui. Eu aceitei por respeito e segui para minha sala. No meio do caminho, encontrei Elisa falando no celular. Ela acenou para mim. Eu respondi acenando também com a mão e abri a porta da minha sala.
É uma sala pequena, com pelo menos vinte monitores. Cada um deles ligado a uma empresa ou condomínio aos quais nós prestamos serviço. Puxo minha cadeira, me sento e a deixo em uma posição para ver bem os monitores. Aqui me sinto muito bem, não há pessoas, só máquinas. Posso ficar tranquilo.
Durante toda a manhã, fiquei desconfiado com algumas imagens. Salvo todas elas para Elisa analisar. Às onze, envio as imagens salvas para o e-mail de Elisa. Então, sigo para almoçar. Vou sempre mais cedo para não encontrar ninguém na copa. Mas hoje foi diferente. Vigílio conversava com o neto sobre algo. Acabei ouvindo a conversa sem querer.
– Você não precisa ficar no emprego. Eu te ajudo até você se formar e se estabilizar. – disse Vigílio, muito sério.
– Eu não tenho como sair meu avô. Ganho mal, mas no momento é importante. Ficar sem dormir direito por umas noites não é... – dizia Lucas, parando assim que percebeu que eu estava na copa.
Logo depois, Lucas se dirigiu a mim, mudando de assunto:
– Desculpa Seu Renato, não devia falar de assunto pessoal aqui. Mas é raro eu conseguir almoçar junto com meu avô.
Nesse momento, minha mente foi longe no passado. Lembrei dos momentos difíceis com a pessoa que mais me inspirou - meu pai. Um médico famoso em uma cidade pequena. Apesar de nunca termos sido ricos, para o padrão da cidade, éramos considerados como tal. Meu pai me enchia de brinquedos e eram toda companhia que eu tinha. Trabalhava em um hospital popular. Atendia pessoas de baixa renda. O hospital nunca teve muito apoio do governo, estava “entregue às traças” como ele mesmo dizia. As pessoas que tinham condição pagavam pelo hospital caro da cidade e meu pai nunca as atendeu.
Com meu pai trabalhando o dia todo, eu acabava almoçando na escola pública municipal, sozinho. Apesar de sermos considerados “ricos” eu nunca fui à escola particular. Quando estava na escola, os livros eram minha única companhia. As outras crianças nunca chegavam perto de mim, exceto quando eram para me bater. Afinal, eu era filho do estranho “Doutor Silêncio”. Nunca entendi o porquê desse apelido. E meu pai nunca me contou.
Estava perdido em pensamentos quando ouvi uma voz feminina me chamando:
– Tudo bem aí, Renato?
Era Patrícia, que acabou de chegar, junto com os outros da empresa. Olho para ela e digo:
– Dona Patrícia, eu estava sem jeito porque acabei atrapalhando a conversa de...
Não consegui terminar a frase quando Vigílio interrompeu:
– Não se preocupa Seu Renato, eu e Lucas não temos segredos para ninguém aqui. – disse a mim.
Eu não sabia o que falar, não estava acostumado com contato humano. Mas antes que pudesse falar qualquer coisa, chega Elisa correndo e gritando:
– Eu me atrasei para a surpresa?
Arregalei os olhos, não entendi nada. Caio entra logo depois com um bolo de banana com cobertura de laranja. Pode ser uma combinação estranha, mas é minha favorita. É então que me lembro do único aniversário que meu pai esteve comigo. Eu tinha feito seis anos. Ele não teve plantão nesse dia e comprou um bolo exatamente como esse no mercado. É o único momento que eu lembro dele estar ao meu lado em um aniversário. Ele estava junto com a nova namorada, uma professora.
Esse bolo também me fez lembrar de minha mãe, não sei bem o motivo. Meu pai disse que ela deixou a família quando eu era um bebê, nem lembro o rosto dela. Meu pai sempre se envolveu com várias mulheres depois disso, mas nunca gostei delas. Exceto essa professora, que era gentil comigo. Voltei ao presente quando Caio deu um tapa de leve nas minhas costas dizendo:
– Esse vive no mundo da lua! Acorda que a surpresa é tua!
Quando olhei à minha frente, a mesa estava posta com o bolo. Então, Caio disse:
– Eu fiz tudo que precisava hoje na rua, ia organizar sua surpresa aqui. Mas a linguaruda da Elisa já entregou tudo.
Depois disso, todos riram. Mas não de mim, e sim da situação engraçada. Era uma comemoração por eu completar um mês na empresa. Patrícia troca o sapato de salto alto por uma sandália de praia dizendo que aquele momento era de descontração. Ela fez um discurso de dez minutos, falando como a empresa funciona e elogiando meu trabalho. Diz que lembrou que é meu bolo favorito por algo que disse quando fui entrevistado. E finalizou com uma piada:
– Pronto, tirei o salto. Agora posso sentir meus dedos de novo!
Depois de um mês isolado, fui enfim conhecendo os meus colegas. Em uma conversa com Vigílio, lembrei que ele sempre me avisava dos horários porque sabe que o sistema da empresa desconta automaticamente do salário no mesmo dia, e ele não tem controle. E eu achava que ele foi tirano comigo, mas estava preocupado porque eu era novo na empresa.
Eu estava de certa forma envergonhado com tudo isso que aconteceu. Não conseguia nem falar direito. Eu apenas agradeci por tudo, e quando tudo acabou, voltei para minha sala. Aquela sala já não era mais o abrigo solitário que eu amava. Parecia uma prisão que eu mesmo criei.
Elisa entra na minha sala e me parabeniza por ter completado um mês na empresa novamente. Eu pergunto a ela se as imagens que eu vi na câmera eram realmente os problemas que eu imaginei. Ela se sentou e disse olhando nos meus olhos:
– Você é ótimo funcionário. Mas você foca apenas nos condomínios de classe média e esquece os condomínios mais humildes. Essas pessoas têm menos condição financeira, mas nos pagam para ter mais segurança – disse, num tom sério.
Novamente, fiquei sem reação. Eu pedi para Elisa tomar conta dos monitores para eu resolver umas coisas. Caio estava de saída e eu disse a ele que estava curioso do porquê ele não ter uma sala própria na empresa. Ele responde:
– Além de fazer manutenção das câmeras, sou responsável por procurar novos clientes e raramente paro na empresa.
E por fim, procurei Lucas. Perguntei o porquê de ele passar todas as noites em frente ao meu prédio com bebida na mão. Ele respondeu:
– Eu também trabalho para aplicativos de entregas. Sem isso, não consigo pagar a faculdade. Meu avô quer que eu foque apenas no meu estágio aqui e ele me ajuda. Mas não quero que ele gaste comigo tão perto da aposentadoria. Além disso, coleto algumas doações e levo para o morador de rua que vive perto de onde você mora. Aquele homem perdeu a esposa e os filhos. Desde então, ele vive na rua.
Tomado de vergonha de mim mesmo, percebi que precisava ir a um lugar urgente. Avisei a Patrícia pelo celular que passaria uns dias fora. Peguei o primeiro ônibus para o interior que passou, sem nem passar em casa antes para pegar roupas. Até chegar lá, senti um peso no peito que não parava.
Depois de uma longa viagem, eis que chego no gabinete do prefeito: meu pai. Como a cidade toda sabe que sou filho dele, entrei facilmente. Era ano eleitoral e o velho médico estava em campanha. Eu fechei a porta com força quando entrei na sala, com raiva. Depois expulsei todos que estavam nela para ter uma conversa a sós com meu pai. Finalmente percebi tudo que ele fez comigo. E o motivo de ter feito. Meu pai como sempre, fingindo ser quem não é, disse:
– Acredito que lhe dei boa educação. Não é assim que você deve tratar seu pai.
Eu derrubei as cadeiras da sala e espalhei os papéis da mesa. Olhei para todos os lados, e não encontrei sequer uma foto minha junto com ele no gabinete dele. Peguei a foto que eu guardava na carteira, do único aniversário que tive junto a ele. Rasguei a foto na frente dele. Depois, gritei com ele, tomado de raiva:
– “Boa educação”? Eu cresci sozinho na escola. Mal te via durante a semana. E fim de semana sempre estava com alguma namorada, não é, “Doutor Silêncio”?
Ele apenas me ignorou. Não acredito como um ser humano pode possuir tanta frieza. Ele se virou e ajeitou o paletó dizendo:
– Já acabou? Me lembrou sua mãe...
Eu peguei uma pilha de panfletos da campanha e rasguei na frente dele. Com mais raiva ainda, falei:
– Não se atreva a falar dela, seu monstro. Eu nunca percebi como você me manipulou. Como me usou para subir na vida na imagem de “bom pai”. Um pai perfeito que foi abandonado pela esposa e cuidou do filho tímido que nunca teve amigos. Eu te admirava pai. Você era o meu herói.
Se aproveitando da situação, meu pai tentou me manipular novamente, tentando me abraçar. Disse para mim:
– Filho, eu te amo, mas você está descontrolado.
Eu o empurrei de leve e falei furioso:
– Já cansei de suas mentiras! Não vai mais me usar! O que você fez com a minha mãe? Se ela me abandonou ainda bebê, por que tenho lembranças dela?
Minha mente começou a lembrar de memórias reprimidas. Lembrei brevemente do rosto de minha mãe. Dela comendo um bolo de banana com cobertura de laranja junto comigo. Eu esmurrei a mesa, com lágrimas nos olhos. Na maior frieza meu pai disse:
– Sua mãe fugiu. Já lhe contei essa história várias vezes. Vá para casa, tem caixas do seu remédio lá.
Eu percebi que não adiantava discutir. Antes que ele tentasse me silenciar novamente me dopando de remédios como fez na minha infância, eu abri a porta. Olhei com desprezo para ele dizendo:
– Até mais “prefeito”. Não vou mais te incomodar. Tenha certeza de que nunca mais me verá.
Bati a porta com força e sai de lá. Sentei-me na cadeira rodoviária para esperar o ônibus que só ia sair pela manhã, já que não conseguia dormir. Assim que voltei à cidade, fui correndo para o trabalho. Era o único lugar onde eu me sentia seguro no momento. Sentei-me na frente da catraca de entrada, coloquei o rosto entre as mãos e comecei a chorar. Há tempos que não caíam lágrimas de meus olhos. Eu só tinha tristeza e desprezo por tudo. Naquele momento, tudo que eu lembrava era da frieza do meu pai. Mas aos poucos, esses pensamentos foram sendo substituídos pela única memória que tinha de minha mãe.
Quando percebi, meus colegas estavam todos ali, me dando apoio nesse momento. Sempre fui sozinho e nunca imaginei que alguém pudesse se importar comigo dessa forma. Confiei neles, contei tudo que tinha passado desde a infância. E eles ofereceram ajuda.
Alguém veio correndo em direção a mim. Uma mulher de uns cinquenta anos. Ela me abraçou com força e chorou muito. Era a senhora que vendia café. Ela me entrega uma caixa com algo. Eu abro a caixa. Um pedaço do bolo que tanto gosto. Então, eu reconheci aquele rosto. Antes de eu falar qualquer coisa, ela pegou na minha mão, me abraçou e depois beijou minha testa. Com muitas lágrimas, ela disse:
– Me desculpe por te deixar sozinho. Mas eu nunca deixei de te ver. Mesmo de longe.
No fundo da caixa, encontrei uma foto de quando eu tinha dois anos. Junto com minha mãe. Mal conseguia falar, pois a garganta doía do tanto que chorei naquele momento:
– Por que você me deixou? Por que nunca me procurou?
A senhora do café respondeu:
– Quando você tinha dois anos, você teve um acidente e seu pai disse que você tinha morrido. Disse que foi culpa minha. Eu fugi da cidade, por vergonha.
Eu senti que ela estava tensa, então, a abracei e disse que ela não precisava continuar se não quisesse. Mas ainda assim, ela continuou:
– Quando soube que você estava vivo, passei a te observar de longe. Apesar de seu pai ser um médico frio, que nunca se importou em falar com os pacientes, era bom no que fazia. Tinha se tornado um homem importante e você o admirava. Tive medo de você não acreditar em mim. Vi você crescer e se tornar um homem. Não consegui emprego na capital, então, passei a vender café para sobreviver.
Depois de tudo estar esclarecido, aos poucos fomos nos recompondo. Primeiro, convidei meus colegas para tomar o café que eu evitei por anos. Patrícia me deu uns dias de folga que aproveitei para conhecer melhor minha mãe. Soube por uns conhecidos do interior que meu pai perdeu a eleição e o emprego de médico. Agora vive sozinho, esquecido e em silêncio.
Assim que me preparo para voltar ao trabalho, separo um pouco de minha comida para dar ao mendigo que tanto rejeitei. Vejo o rosto de alegria dele por conseguir comer naquele dia. Passo a catraca nesse novo dia de trabalho, como um novo homem, para uma sala que não é mais uma prisão, mas sim algo ao qual eu pertenço.

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Inspiração

Durante os últimos meses, vivi um período de mudanças profundas. Percebi o quanto a mente humana é capaz de criar e distorcer memórias — lembranças que moldam quem somos, às vezes nos afastando da nossa verdadeira essência. A partir dessa reflexão, nasceu o desejo de escrever um conto que revelasse como essas distorções podem nos transformar.

Sobre a obra

O conto acompanha um rapaz recém-chegado a uma empresa de segurança, alguém que escolheu o isolamento como forma de proteção. Solitário desde a infância, ele se vê diante de acontecimentos que o forçam a encarar o próprio passado e, através disso, encontra uma chance de se perdoar e renascer — mais humano, mais aberto, mais gentil.

Sobre o autor

Sou formado em Produção Multimídia e atuo em diversas expressões criativas. Trabalho com artesanato, desenho, escrita, cosplay e arte digital envolvendo games, animação e 3D. Crio personagens desde a ideia inicial até sua versão final, explorando diferentes mídias para dar vida às minhas histórias

Autor(a): ANTONIO MIGUEL MACEDO FIGUEIREDO (MMario Artes)

APCEF/BA


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