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A Redenção de Lourenço
A redenção de Lourenço
Sexta-feira. Noite de lua cheia. Serafim chega ao seu acampamento embriagado de cachaça. Ele passou a maior parte do dia bebendo com seus parceiros, comemorando o grande roubo que haviam realizado. Ele sentia necessidade de uma mulher, então, quando entrou na tenda e viu Rita colocando seus 3 filhos para dormir, não pensou duas vezes, jogou-a no chão e se satisfez ali mesmo. A mulher ainda tentou protestar.
– Homem, eu não sou a sua Rita!
– Cale a boca mulher!
Acostumadas que eram todas a somente aceitar, para não apanhar, ela deixou que ele se satisfizesse. Findo o ato, ele virou para o lado e dormiu.
Pouco tempo depois, Rita chegou à tenda. Ela tinha saído para tomar banho no rio e deixou a cunhada, irmã de Serafim, cuidando das crianças. Ela encontrou a cunhada sentada no chão, chorando.
– O que houve Zilá?
– Foi o Serafim. Ele chegou aqui cheio de cana na cabeça, achou que eu era você e me cobriu. Por mais que eu dissesse que não era você, ele não queria ouvir, só me mandava calar a boca.
– Valha-me Deus Zilá! E se você ficar prenha?
– Não quero nem pensar nisso. Eu vou ao rio me lavar e depois vou tentar dormir.
Mas naquela noite Zilá não conseguiu pregar o olho. Só ficava olhando a lua cheia e pensando nas histórias que contavam sobre os filhos de incesto, que se
transformavam em lobisomem.
Alguns dias depois, Serafim viajou com seu bando para longe e deixou as mulheres com as crianças.
A barriga de Rita começou a crescer, e a de Zilá também. Ambas estavam prenhas, com pouco tempo de diferença.
Os meses passaram e Serafim voltou, encontrando as duas mulheres barrigudas.
– Mas o que é isso aqui? Uma eu sei quem é o pai, mas e a outra? O que você andou aprontando minha irmã?
– Ela não aprontou nada Serafim. Um homem chegou aqui e, como eu já estava de barriga, não quis nada comigo, mas acabou pegando sua irmã.
– Pois que seja. Se for um macho, é mais um pra trabalhar. Se for fêmea, pode ajudar na comida.
E não se falou mais no assunto.
O tempo de as mulheres parirem já estava próximo, mas Serafim não se preocupava com isso. Ele não acompanhou o nascimento de nenhum dos filhos. Então, ele saiu para mais uma campanha com seus homens.
Um dia, Rita estava descendo o rio com a trouxa de roupas para lavar, escorregou numa pedra e caiu. Na mesma hora ela viu o sangue escorrer pelas pernas. Ela gritou por Zilá que foi ajudá-la, mas não havia mais nada a fazer. Ela ajudou a cunhada e colocar o bebê para fora e o enterraram ali mesmo, perto do rio.
Passadas algumas semanas, Zilá começou a sentir fortes dores. Ela sabia que chegara a sua hora, então, foi sozinha para a mata e teve seu filho lá. O garoto nasceu forte. Já era noite quando ela voltou para o acampamento com o menino enrolado em
panos.
– Onde você estava Zilá? Eu estava preocupada com você.
A cunhada apenas colocou o embrulho nos braços de Rita e disse:
– Rita, este aqui, de agora em diante, é seu filho. Eu não vou ficar com um fruto do meu irmão. Você pode dizer a Serafim que o meu bebê morreu e esse é o seu filho.
Ele nunca vai desconfiar de nada.
– Você tem certeza de que é isso que você quer?
– Sim.
De fato, Serafim voltou de sua campanha e ficou tão satisfeito com a chegada de mais um filho homem, que nem deu atenção para a perda de sua irmã. Com esse e os outros dois, já seriam 3 machos para acompanhá-lo. Ele nem precisaria mais dividir seus roubos com o bando.
O tempo passou. Os filhos de Serafim agora já eram grandes. João tinha 19 anos, Mané 18, Maria 17 e Lourenço 16. Como Zilá havia dito, Serafim nunca desconfiou
de nada e, como Lourenço tinha a sua cara, ele tinha certeza de que era seu filho.
Serafim dispensou seus comparsas para que cada um seguisse seu rumo e agora era somente ele e os filhos. Todos trabalhavam com Serafim no bando, todos espertos, mas de todos Lourenço, mesmo sendo o mais novo, era o que sobressaía. Ele cresceu um rapaz forte, inteligente, safo.
Em uma ocasião, no retorno de uma campanha, ao chegarem ao acampamento, Serafim e os quatro filhos (Maria ia com eles para fazer comida para os homens),
encontraram tudo despedaçado. Alguns fazendeiros descontentes descobriram onde era o refúgio do bando que roubava seu gado e foram até lá para acabar com eles.
Não os encontrando, para não perderem a viagem, mataram as mulheres.
Quando Lourenço aproximou-se de Zilá, viu que ela ainda tinha vida. Ele ia levantar-se para chamar os demais, mas ela segurou seu braço.
– Não meu filho. Eu nunca o chamei assim, mas agora não importa mais. Sua mãe não é a Rita. Ela o criou como filho para evitar problemas para todos. Eu sou sua mãe Lourenço. Eu guardei esse segredo durante todos esses anos, mas eu não podia partir sem lhe dizer isso.
– Como assim? Minha mãe! E quem é o meu pai?
– O seu pai é o mesmo traste que você conhece como pai.
– Serafim, seu irmão?
– Isso mesmo meu filho. Uma noite em que a cachaça tomou conta da cabeça do seu pai, ele me cobriu achando que era Rita. Deus me concedeu a graça de te ver mais uma vez antes de morrer e poder te dizer isso. Pegue esse terço meu filho. Reze sempre para Nosso Senhor e a Virgem Maria, para que eles te protejam. Você ainda vai passar por muitas dores. Vá, e não diga nada a Serafim. Ele é um homem bruto, não sei como ele reagiria a isso. Assim que você tiver oportunidade, suma da vista dele e não volte mais.
Ela apertou a mão do filho e fechou seus olhos pela última vez.
Lourenço não sabia o que fazer. Ele queria gritar, mas conhecia bem o seu pai. Ele já estava irritado o suficiente com o acontecido.
Agora que eles tinham sido descobertos, não poderiam mais ficar ali, então, Serafim mandou os filhos pegarem o que pudesse ser aproveitado e foram embora.
Pelo caminho eles atacavam todas as fazendas pelas quais passavam. Lourenço já estava cansado daquela vida e, agora que sabia que era fruto de uma violência de seu pai, não conseguia mais acatar suas ordens passivamente. Ele sempre lembrava das palavras de Zilá. Foi quando começaram os primeiros atritos. Serafim, não sabendo argumentar com o filho, apelava para a brutalidade, sentando-lhe a mão ou o chicote,
o que estivesse mais fácil.
Então, numa noite em que estava de vigília, Lourenço resolveu abandonar o bando.
Pegou as rédeas do seu cavalo e foi andando até estar longe o suficiente para poder montar.
Quando Serafim acordou e não encontrou Lourenço, ficou transtornado. Ele chutou os outros filhos mandando que se levantassem,
– Arrumem tudo rápido. Nós vamos atrás daquele bastardo. Quem ele pensa que é para me largar assim. Ele vai pagar, ah se vai. Quando nós o encontrarmos, ele vai ver só.
Mas Lourenço já estava longe, procurando algum lugar onde ninguém o conhecesse.
Acontece que Serafim não ia desistir nunca da sua vingança. Ninguém o abandonava assim. Quanto mais o tempo passava, mais aumentava a sua raiva e o seu rancor pelo filho que o deixara. Nesse tempo, ele ia envenenando o coração dos filhos contra o irmão, de forma que eles também já tinham o desejo de se vingar dele.
O tempo passou. Depois de muitas andanças, Lourenço já estava próximo de completar seus 18 anos, sempre fugindo. Agora ele achava que estava tranquilo. Ele estava vivendo em uma cidade pacata, trabalhando como pastor de rebanhos. Foi quando, finalmente, Serafim descobriu seu rastro. Ele chegou à cidade como quem não quer nada, perguntando aqui e ali, quando finalmente teve suas suspeitas
confirmadas. Lourenço estava vivendo ali.
Serafim combinou com os filhos de armarem uma tocaia, para surpreender Lourenço quando deixasse a fazenda em que trabalhava de volta para a sua casinha.
Era tarde da noite, Lourenço ia tranquilamente pela trilha, já conhecida dele, cantarolando enquanto caminhava, quando, no meio do caminho, viu alguém parado.
Ele conhecia aquele vulto. Não podia ser outra pessoa, era Serafim.
– O que você quer comigo?
– Você acha que pode simplesmente me abandonar e pronto? Que fica por isso mesmo? Você me pertence, como o gado que eu roubo. Você só sai quando eu quiser.
– E se eu não quiser ficar com você?
– Então você vai ter que aguentar as consequências.
– Que seriam?
Nesse momento, seus irmãos saíram detrás das árvores, derrubaram Lourenço no chão e o amarraram. – É isso mesmo que você quer?
– Melhor morrer do que ter que viver como seu escravo, fazendo as mesmas barbaridades que você faz.
– Pois que seja então, se é assim que você quer. Amarrem a corda na sela do cavalo. Vamos ver se ele ainda mantém essa arrogância depois que tiver o corpo esfolado.
Dando gargalhadas, João e Mané prenderam a corda que amarrava Lourenço na sela do cavalo. Maria apenas olhava, sem manifestar nenhuma emoção.
– É sua última chance. Você virá comigo, ou irá com o cavalo?
Lourenço apenas cuspiu no pai, o qual deu uma chicotada no lombo do cavalo, que saiu em disparada.
Aquela cavalgada parecia que nunca mais iria terminar, mas, uma hora o cavalo parou. Serafim e os irmãos iam atrás dele nos seus próprios cavalos. Ao verem que o cavalo parou, Serafim mandou que João verificasse se o irmão ainda tinha vida.
– Está morto.
– Pois então, deixe ele aí para os urubus. Vamos embora que nós já perdemos tempo demais aqui.
E, assim dizendo, eles se foram.
Acontece que aquela era a noite em que Lourenço completava seus 18 anos. Uma noite de lua cheia, como aquela em que ele havia nascido. Ainda não era o fim para ele. No momento em que a lua banhou seu corpo disforme com sua luz prateada, começou a transformação. Lourenço havia sofrido, ao ser arrastado pelo cavalo, mas aquilo parecia muito pior. Ele sentia todos os seus ossos se movimentando,
crescendo, uma alteração profunda em todo o seu corpo, mas, de repente, tudo passou, ele já não sentia mais dor, apenas uma ira profunda, incontrolável, por tudo e por todos, mas principalmente por aqueles que o deixaram ali para morrer. Ele sentia o cheiro deles, seria muito fácil ahá-los. Mas antes ele precisava comer, ele estava faminto, como se não comesse há meses. Ele sabia onde havia comida, na fazenda onde ele trabalhava. Ali começava o terror das redondezas. A fera que atacava os rebanhos e qualquer um que cruzasse seu caminho.
Pela manhã, Lourenço acordou jogado no rio, com as roupas esfarrapadas. Ele se lembrava vagamente do que havia acontecido, mas tinha certeza do que ele se
tornara. Agora ele iria atrás de Serafim e seus irmãos. Ele os faria pagar pela sua maldição. Não seria difícil encontrá-los, ele conhecia muito bem o cheiro deles. Assim, ele roubou algumas roupas no varal de uma fazenda e começou sua caçada.
Não tardou para Lourenço encontrar o rastro do bando, então, ele ficou à espreita.
Uma noite em que João e Mané saíram para assuntar uma fazenda, Lourenço foi atrás deles. Ele queria aparecer para os irmãos antes de se transformar, porque queria que eles soubessem quem era que os estava atacando, então, assim ele o fez.
Os irmãos estavam de tocaia perto da fazenda, quando Lourenço chegou. Eles levaram um susto quando viram o irmão se aproximando.
– Não pode ser. Eu vi você todo estraçalhado. Você devia estar morto.
– Eu morri, mas voltei para buscar vocês.
E dizendo isso, começou a sua transformação.
Desesperados de medo, ao ver aquela criatura horrenda diante deles, os dois saíram correndo, mas Lourenço rapidamente os alcançou e destroçou os dois. Ele pegou o que sobrou deles e os arrastou até o acampamento onde estavam Serafim e Maria.
Ao ver aquele monstro se aproximando, Serafim pegou seu rifle e atirou contra ele, mas as balas não faziam efeito, ele continuava avançando. Lourenço parou diante de Serafim e jogou os dois corpos aos seus pés. Ao ver os corpos, Serafim imediatamente
soube que eram seus filhos. Nesse instante, os surgiram os primeiros raios de sol e Lourenço começou a voltar à sua forma normal, então, Serafim viu que aquele monstro era o filho a quem ele havia mandado matar.
– Não, você está morto, eu vi quando você morreu!
– Você não me matou, você me amaldiçoou a viver desta forma. Em troca, aí estão seus outros filhos.
– Não pode ser, como você se transformou em lobisomem?
– Você realmente não sabe né? Pois eu lhe digo. Minha mãe não era Rita, era Zilá.
– Como Zilá? A minha irmã?
– A sua irmã, que você emprenhou achando que era sua mulher Rita, numa noite de cachaça. Ela nunca lhe contou, com medo do que você poderia fazer, mas o mal que existe dentro de você independe das coisas que você sabe. Por sua causa, eu já nasci amaldiçoado, e agora você vai me acompanhar na minha maldição. Prepare-se que esta noite eu voltarei para te buscar, e não adianta fugir, eu sinto seu cheiro, onde quer que você esteja.
Dizendo isso, ele se foi.
Serafim, com os filhos despedaçados a seus pés, ainda pensando naquela história de que Lourenço era seu filho com sua irmã Zilá, começou a rir, desesperadamente. O cruel bandoleiro enlouqueceu, saiu correndo dali e pulou do primeiro penhasco que
encontrou, vindo a sofrer a sua primeira morte. Mas aquele ainda não seria o seu fim, ele viria a descobrir isso depois. Ele fora amaldiçoado por Lourenço e não
conseguiria morrer antes de libertar o filho da maldição. Para isso, ele precisaria morrer sete vezes, para abrir caminho para o filho, até o paraíso.
Maria, sem ninguém mais ao seu lado, sem amigos ou parentes, ninguém no mundo que lhe pudesse ajudar, e sem ideias do que fazer para sobreviver, acabou caindo na vida, sendo muito procurada pelos homens da cidade, que queriam conhecer a irmã do lobisomem.
A história de Serafim e Lourenço correu por aquelas redondezas e até hoje ainda há
quem diga que viu o lobisomem correndo atrás do pai.
Lourenço ainda iria perambular por muitas terras, procurando viver sua vida da melhor forma possível, sempre apegado ao terço que sua mãe lhe havia dado, pedindo amparo e proteção, até que Serafim tivesse morrido pela sétima e última vez, abrindo caminho para que ele pudesse, finalmente, encontrar a paz derradeira.
Este conto é inspirado na música “Serafim e seus filhos”, composta por Ruy Maurity e lançada em 1971 no álbum “Em busca do ouro” de Ruy Maurity & Trio.
Inspiração
O conto é inspirado na música “Serafim e seus filhos”, de Ruy Maurity, lançada em 1971.
Eu era criança na época e me lembro de ter ficado impressionado com aquela letra.
Recentemente, ao ouvir novamente a música, fiquei com vontade de escrever um conto que desenvolvesse a história de Lourenço. Foi assim que nasceu A Redenção de Lourenço.
Sobre a obra
Diferentemente da maioria dos meus contos, esse está mais próximo do Brasil, suas crenças e realidades. Me fez sair um pouco da minha zona de conforto, mas eu gostei do resultado.
Sobre o autor
Estou na CAIXA há 37 anos e sou pai de 5 filhos.
Publiquei meu primeiro livro em 2025, A Esfera Negra, pela Editora Cartola (disponível na Amazon).
Depois disso já tive vários contos publicados em antologias diversas.
Autor(a): HERCULANO PEREIRA BASTOS (Herculano Bastos)
APCEF/DF
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