Presente

Presente

A manhã havia se espreguiçado com sua beleza habitual, dessas que chegam de mansinho e, sem pedir licença, já tomam conta do céu. Como faz todos os dias, com uma constância que beira o milagre, ela abriu as cortinas do mundo e, com seus dedos de luz, foi empurrando as sombras para longe. Mais um espetáculo gratuito, desses que só o dia sabe oferecer.
Naquela manhã, o relógio marcava sete horas. Eu, sentado no banco de espera de uma clínica médica, aguardava minha vez para ser atendido por um Médico Gastroenterologista. Ao meu redor, outros pacientes, silenciosos, acompanhados de olhares cansados e de acompanhantes atenciosos. A sala era pequena, as palavras eram poucas.
Até que meu nome foi chamado. Presente! Respondi, com voz firme, no melhor estilo aluno aplicado, como quem responde à chamada da professora, em plena sala de aula.
Minha resposta ecoou com força e bom humor. Notei sorrisos discretos ao redor, aqueles sorrisos meio tímidos que escapam antes mesmo de serem autorizados. Aproveitei o momento e, com a leveza que a ocasião permitia, comentei: "É o costume... Lembrei da escola." E foi o suficiente para acender o pavio da memória coletiva.
De repente, aquele espaço sem graça se transformou. O silêncio deu lugar ao riso. Sorrisos se desenharam nos rostos, lembranças saltaram das prateleiras da memória e, sem que ninguém combinasse, começamos todos a navegar por histórias antigas. Histórias de chamada oral, de caderno perdido, de professora exigente e de colegas inesquecíveis.
Naquela sala de espera, o tempo se dobrou. Por alguns minutos, deixamos de ser pacientes à espera de diagnóstico e nos tornamos estudantes outra vez, sentados em carteiras imaginárias, revivendo os anos dourados da juventude. A sala virou passarela de lembranças, desfile de risos, palco improvisado de um teatro de saudades.
Não era o riso teorizado pelos filósofos, daqueles que se explicam em tratados, era riso real, nascido da alma e empurrado pela memória. Um riso com raízes, com cheiro de merenda, com som de sineta da escola tocando no fim da aula.
Cada um ali trazia sua bagagem invisível: suas histórias, suas conquistas, suas derrotas bem guardadas em páginas que só o coração sabe folhear. E ali, diante de desconhecidos, cada um abriu um pedacinho do seu livro da vida, sem vergonha, sem medo, como quem sabe que lembrar também cura.
Fiquei pensando no poder de uma única palavra: presente. Tão simples, tão comum… e, ainda assim, capaz de acionar gatilhos tão profundos. Talvez tenha sido a entonação, talvez o gesto corporal ou o sorriso estampando no rosto. Ou talvez, quem sabe, tenha sido só o momento certo, a hora exata em que corações estavam prontos para se encontrar.
E então, como se estivéssemos de volta aos corredores da escola, a conversa ganhou ritmo. O que antes era sala de espera virou sala de aula. E o que era silêncio virou história contada em voz alta. Cada qual, à sua maneira, entregou um pedaço da própria infância, embrulhado em afeto e memória.
Não posso contar o que foi dito ali. O que se compartilha com o coração não cabe em parágrafos. Mas posso afirmar, com a mais terna certeza: naquela manhã, naquela sala sem charme, todos nós recebemos um presente. E respondemos à vida com um sorriso no rosto e o coração dizendo, com entusiasmo juvenil:
Presente!

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Inspiração

O p6rograma Talentos Fenae me retirou da zona de conforto. Aplicou a injeção necessária para compartilhar com meus colegas um pouco dos meus dons.

Sobre a obra

É sempre um produto de minha inspiração. É, também, uma forma de compartilhar um pouco dos dons recebidos de Deus, com todos os colegas da Caixa.

Sobre o autor

Sou aposentado da Caixa Econômica Federal desde 2009. Nesse intervalo, venho construindo poesias e contos, pela felicidade de ter reencontrado esse elo perdido, por conta das atividades que eu exercia na empresa.

Autor(a): JOSE BARBOSA SANTIAGO (Barbosa)

APCEF/SE