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Coisas do Calabetãp
Coisas do Calabetão
Nas décadas de 1960 e 1970, o ritmo musical que predominava em nosso cotidiano era o merengue. Recordo-me de que dançávamos em um salão improvisado, localizado em uma residência na Avenida Branca, cedida pelo senhor Rosalvo, sargento reformado da Polícia Militar, para a realização de nossas festas no alto do Calabetão. Esses momentos de lazer ocorriam, em sua maioria, às sextas-feiras.
A radiola executava os merengues de Luis Kalaff, e a celebração se estendia até o amanhecer. Bebidas à base de limão, churrascos, salgados e outras iguarias circulavam pelo ambiente, compartilhados entre todos. Sorrisos, alegria, ciúmes, lágrimas, exibicionismos e ingenuidades se misturavam dentro e fora do salão. Ocasionalmente, algum participante mais exaltado chegava a sacar uma peixeira contra outro, em razão de divergências surgidas naquele ambiente festivo, concebido exclusivamente para aliviar as dores e os calos que marcavam nossas mãos, resultado do trabalho braçal realizado ao longo da semana que se encerrava.
Aquele espaço era destinado unicamente à confraternização da comunidade. Não havia lugar para outra coisa senão a harmonia, o respeito e a solidariedade entre todos. Tratava-se de uma oportunidade de vivenciar, da melhor forma possível, valores humanos fundamentais, em um ambiente de alegria e compreensão. Era também um momento essencial para recarregar as energias e reunir forças para enfrentar as atividades da semana seguinte.
Apesar de tais ocorrências pontuais, nada de fato grave acontecia. Ao longo das festas, ninguém se feria. A chamada “turma do deixa disso” intervinha prontamente, encerrava os conflitos, e o merengue voltava a dominar o ambiente.
Passados tantos anos, ainda me recordo de alguns moradores do Calabetão: Alfaiate, Lourinho, os irmãos Jorge e Cacau, seu Lamec, Nenéu, Sergipinho, João Diabo, Jegue Edivaldo, Raimundo, o craque de futebol Dudu, Jonas, Dêgo e tantos outros cujos nomes já não me vêm à memória, mas que contribuíram significativamente para a nossa formação como indivíduos.
Não me deterei em observações mais amplas sobre as atividades ali desenvolvidas, por se tratarem de lembranças de um menino ainda em tenra idade. Ainda assim, confesso que éramos felizes, mesmo vivendo abaixo da linha da pobreza, característica marcante daquela comunidade.
A presença do Estado, à época, não alcançava aquele território periférico da grande Salvador. Na prática, tratava-se de uma área historicamente negligenciada pelo poder público, o que resultava em profunda desigualdade social, uma vez que não dispúnhamos de saneamento básico nem dos serviços essenciais que deveriam ser assegurados como prioridade governamental.
Buscávamos água potável e tomávamos banho no Azacá, um riacho que servia de divisa entre o Calabetão e o bairro de Mata Escura. Ali, as mulheres lavavam roupas, sempre atentas à pedreira que permanecia em plena atividade de extração.
Com frequência, as explosões provocadas por dinamites inseridas nas rochas faziam a região tremer, abrindo caminho para a retirada da matéria-prima contida naquelas formações. Mais acima do riacho, praticamente em sua nascente, havia uma pequena lagoa chamada Caneleira, também utilizada para banho e lavagem de roupas. Situava-se nas proximidades da casa de Celso, um talentoso jogador de futebol que jamais teve a oportunidade de atuar em grandes clubes baianos. Consola-me o fato de tê-lo tido como atleta do nosso clube de bairro, o Esperança Futebol Clube.
Não havia escola. Existia apenas uma igreja, a Assembleia de Deus, cujo pastor era o senhor Izídio. Havia também um campo de futebol bastante frequentado pela comunidade e uma extensa área remanescente de Mata Atlântica, onde colhíamos frutas como ingá, mangaba, jaca, maracujá, manga, abacate e tantas outras oferecidas pela generosidade da floresta.
Passado mais de meio século, nunca mais retornei àquela querida comunidade, seja pela distância, pela dificuldade de deslocamento ou pelo fato de já não conhecer as pessoas que ali residem. Confesso, porém, que trago no coração e na memória viva os ensinamentos que recebi naquele lugar. Foram eles que me ajudaram a percorrer, com maior sabedoria, a minha caminhada sobre o dorso desta querida terra.
O Calabetão talvez tenha mudado de feição. As pessoas, o tempo e as casas certamente já não são os mesmos. Mas há um lugar onde ele permanece intacto: na memória de quem aprendeu, entre a poeira das ruas, o som do merengue e a simplicidade da vida, que a verdadeira riqueza de um povo reside nas lembranças que o tempo jamais consegue apagar.
Inspiração
O concurso Talentos Fenae me retirou da zona de conforto. Aplicou a injeção necessária para compartilhar com meus colegas um pouco dos meus dons.
Sobre a obra
É sempre um produto de minha inspiração.
Nesse caso eu escrevo com propriedade, pelo fato de ter residido no bairro por um período de 15 anos.
É, também, uma forma de compartilhar um pouco dos dons recebidos de Deus, com todos os colegas da Caixa.
Sobre o autor
Sou aposentado da Caixa Econômica Federal desde 2009. Nesse intervalo, venho construindo poesias e contos, pela felicidade de ter reencontrado esse elo perdido, por conta das atividades que eu exercia na empresa.
Autor(a): JOSE BARBOSA SANTIAGO (Barbosa)
APCEF/SE