- Página inicial
- Detalhe obra
Atualizar ou Expirar
Atualizar ou Expirar
Por Antonio Aparecido de Carvalho*
O relógio da parede do escritório continua marcando os mesmos sessenta segundos por minuto, mas a sensação de quem observa o ponteiro é de que o tempo, hoje, roda em velocidade dupla. Ou talvez tripla. Houve um tempo, não muito distante, em que um diploma emoldurado e pendurado na parede da sala funcionava como uma espécie de apólice de seguro contra as incertezas do futuro. O script da vida parecia desenhado com tinta indelével: aprendia-se uma profissão aos vinte, exercia-se a mesma atividade aos quarenta e, com sorte e disciplina, aposentava-se nela aos sessenta, sem grandes sobressaltos ou solavancos no percurso. Esse mundo previsível, contudo, ficou definitivamente para trás.
A revolução tecnológica não pediu licença, nem bateu à porta com cortesia. Ela simplesmente arrombou a entrada, trocou as velhas fechaduras de latão por leitores digitais de reconhecimento facial e atualizou o sistema operacional de praticamente todas as carreiras conhecidas. Dos balcões de atendimento às salas de reunião de grandes corporações, a transformação foi ruidosa. Fala-se muito, quase com um tom apocalíptico e fatalista sobre como a inteligência artificial vai tomar o lugar dos seres humanos, varrendo postos de trabalho e tornando a mão de obra obsoleta. Mas, a verdade que se desenha no cotidiano é bem mais sutil, elegante e implacável: a IA não vai substituir as pessoas; as pessoas que aprenderem a usar a IA é que vão substituir, invariavelmente, aquelas que se recusarem a aprender.
Diante dessa engrenagem voraz que não desacelera nem aos finais de semana, a capacitação contínua deixou de ser um mero diferencial estético no currículo para se tornar uma questão premente de sobrevivência profissional. O grande obstáculo, no entanto, é que o ato de reeducar a si mesmo exige um esforço que vai muito além da memorização de comandos ou do domínio de softwares recém-lançados. Exige inteligência emocional.
É preciso ter uma dose cavalar de maturidade para encarar a própria ignorância diante de uma tela em branco ou de uma ferramenta nova. Exige-se resiliência para errar publicamente, para perguntar o óbvio e para reaprender o básico na frente de colegas mais jovens. É necessário um equilíbrio interior quase estóico para não permitir que a ansiedade da atualização constante paralise o raciocínio. Afinal, a técnica ensina apenas a apertar os botões corretos, mas é a inteligência emocional que impede o profissional de surtar quando os botões mudam de lugar, de nome e de função da noite para o dia.
E é justamente no ápice dessa corrida desenfreada que o mercado de trabalho revela a sua contradição mais perversa: o etarismo.
No exato momento histórico em que as organizações mais gritam por inteligência emocional, resiliência, liderança humanizada e capacidade de gerir crises — atributos que não se baixam em um aplicativo, mas se acumulam com as cicatrizes da experiência —, esse mesmo mercado insiste em olhar com desconfiança para quem já ultrapassou a barreira dos quarenta ou cinquenta anos. Cria-se, silenciosamente, um muro invisível de exclusão.
Murmura-se nos corredores do RH que o profissional maduro "não tem mais a mesma flexibilidade", que "encontrou barreiras para acompanhar o ritmo da tecnologia" ou que "possui uma pretensão salarial alta demais para o momento". Trata-se de um preconceito não apenas injusto, mas profundamente míope sob o ponto de vista estratégico. A tecnologia nada mais é do que uma nova linguagem, um novo idioma. Quem já possui um vasto repertório de vida, quem já atravessou planos econômicos, reestruturações, crises sanitárias e mudanças de gestão, aprende a gramática tecnológica muito mais rápido e com muito mais discernimento do que se imagina. Negar espaço, voz e capacitação aos profissionais mais experientes é cometer o erro crasso de jogar fora o ativo mais raro e valioso da atualidade: a sabedoria acumulada.
A sabedoria não compete com o algoritmo; ela o direciona. Um modelo de inteligência artificial pode gerar mil ideias de marketing ou analisar toneladas de planilhas financeiras em poucos segundos, mas ele não possui o tato social para negociar uma demissão humanizada, a sensibilidade para ler o clima de uma equipe desmotivada ou a intuição para perceber quando um gráfico perfeito esconde uma premissa errada.
Quem recusa o movimento da fila e se apega nostalgicamente ao passado corre o risco real de virar peça de museu em tempo recorde. Não há romantismo na estagnação. Mas quem deseja continuar ativo, relevante e no jogo precisa alimentar diariamente duas virtudes fundamentais: a humildade intelectual de se posicionar como um eterno aprendiz, não importa a idade ou o cargo registrado na carteira, e a coragem de combater a ideia absurda de que o valor e a capacidade de contribuição de um ser humano expiram com o passar dos aniversários.
As máquinas podem até processar volumes estratosféricos de dados em milissegundos e gerar respostas impecáveis na tela. Contudo, a capacidade de conectar pontos improváveis, sentir empatia genuína pelo outro, ter ética diante do dilema e a bravura de recomeçar do zero após uma queda continuam sendo um privilégio e uma arte exclusivamente humana.
Inspiração
A evolução tecnológica que vivenciei ao longo dos anos, do telex à inteligência artificial, exigiu constante adaptação diante da rapidez das mudanças. O relógio parece ter acelerado, transformando nossa percepção do tempo. Nesse cenário, a inteligência emocional deve ser nossa companheira, fortalecendo-nos diante das transformações
Sobre a obra
Esta obra nasce do desejo de traduzir visualmente o atrito entre o avanço aceleração das novas tecnologias e a permanente necessidade do fator humano. Busquei criar uma composição que não apenas retratasse a transformação do mundo do trabalho, mas que provocasse uma reflexão profunda sobre o tempo, a maturidade e a capacidade de reinvenção.
Sobre o autor
Trabalhei 35 anos como bancário, 23 deles na Caixa Econômica Federal. Desde 2005, atuo como professor e coordenador de curso superior. Procuro mostrar aos jovens a importância de nos reinventarmos sempre. Sou um eterno aprendiz, movido pelo desejo de saber e aprender mais, sem me curvar diante das dificuldades.
Autor(a): ANTONIO APARECIDO DE CARVALHO (Antonio Carvalho)
APCEF/SP
Essa obra já recebeu votos de 0 pessoas
Essa obra já recebeu 0 votos (com peso)