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Enquanto a gente fala o mundo acontece
Crônica: Enquanto a gente fala, o mundo acontece
Antonio Aparecido de Carvalho
Como professor universitário, sou frequentemente convidado para palestrar em feiras de profissões em colégios da região, com a missão de incentivar os jovens que estão prestes a cruzar a ponte para o ensino superior.
Nessas ocasiões, costumo chegar sempre uns minutos antes. Gosto de observar o ambiente antes que ele comece a me engolir. As salas abafadas, cadeiras desalinhadas, janelas quebradas, caixas de som chiando como se também estivessem cansadas.
Lá fora, o sol entra sem pedir licença, iluminando paredes descascadas e murais com avisos antigos. É curioso como as escolas carregam o cheiro de promessas, algumas cumpridas, outras esquecidas pelo caminho.
Quando os alunos entram, não percebem nada disso. Eles vêm em manada, levantando poeira, arrastando mochilas, mastigando um pedaço do futuro que ainda não sabem que terão. Uns se debruçam na carteira como quem descansa de uma longa viagem até ali. Outros ficam de costas para o palco, conversando como se a vida estivesse mais interessante na piada do colega do que no que está prestes a acontecer. Há também os que mergulham no celular, esse portal paralelo onde tudo parece mais urgente do que a própria vida real.
E ali estou eu, com meus slides sobre profissões do futuro, sobre soft skills, hard skills, propósito, educação. Palavras bonitas, afiadas, necessárias. Mas às vezes sinto que elas ricocheteiam no ar, como bolhas de sabão que estouram antes de chegar ao destino.
Há uma cena que sempre me inquieta: enquanto falo sobre a importância da educação, reparo que alguns professores mexem no celular, talvez respondendo um pai, talvez fugindo do tédio, talvez tentando sobreviver a mais um dia. E eu entendo. Eles estão cansados. Exaustos. São como velas que iluminam tantos outros, mas que já queimaram rápido demais.
Nessas horas, penso: em que momento o estudo deixou de ser caminho e virou castigo?
Quando foi que aprender se tornou peso, obrigação, pena?
Porque aprender, no fundo, é fascinante. É descobrir que o mundo é maior do que o nosso bairro, maior do que a nossa rotina, maior do que as nossas dores. É ter a chance de ampliar horizontes, de reinventar a própria história. Mas como convencer uma geração acostumada a likes instantâneos de que o conhecimento é uma maratona, não uma corrida de cem metros?
O problema é que muitos adolescentes acreditam que o futuro é um sorteio, não um projeto. Que o sucesso depende de viralizar um vídeo, de ser descoberto, de “dar certo” por acaso. É a fantasia do influencer, do jogador de futebol, da fama espontânea. Uma geração que sonha alto, mas às vezes sem chão para continuar em pé.
E eu, lá na frente, tento devolver esse chão.
Tento mostrar que as profissões mudam, mas a curiosidade não.
Que as habilidades exigidas pelo mercado evoluem, mas o brilho nos olhos continua sendo diferencial.
Que o mundo é duro, sim, mas também é generoso com quem insiste, com quem busca, com quem tenta.
Às vezes um aluno me surpreende. Levanta a mão tímida e pergunta algo que vale a manhã inteira. Às vezes, ao final, um deles chega perto e diz: “Professor, nunca tinha pensado no meu futuro desse jeito.” E é nesse instante, nesse minúsculo instante, que tudo faz sentido. Porque cada semente lançada pode germinar em silêncio, escondida, longe dos meus olhos.
Escrever esta crônica é a minha forma de lembrar que a educação sempre foi um ato de fé. Fé no aluno que ainda não despertou. Fé no professor que resiste. Fé na escola que sobrevive. Fé no país que insiste em seguir adiante, mesmo quando parece andar para trás.
E talvez a resposta esteja aí:
transformar o estudo em prazer é devolver sentido ao que se aprende.
É conectar matemática à vida real.
É transformar literatura em espelho.
É mostrar que geografia é sobre pessoas e que biologia é sobre nós.
É lembrar à geração distraída que o mundo é maior do que a tela do celular e que eles fazem parte dele.
Porque, no fim das contas, a grande verdade é esta: enquanto a gente fala, o mundo acontece. E cabe a cada um decidir de que lado da História quer estar: observando de longe, de cabeça baixa, ou de frente, erguido, pronto para construir.
Inspiração
Participo com frequência, de feiras de profissões. Embora a captação seja um objetivo legítimo, meu propósito vai além: contribuir para a escolha de carreira dos jovens e reforçar a ideia de que a educação é, de fato, um instrumento transformador. Entretanto, tenho me deparado com comportamentos e situações que me causam frustações.
Sobre a obra
Durante uma das palestras um episódio de maneira especial. Esse acontecimento despertou uma inquietação que já vinha se acumulando e me motivou a escrever esta crônica como forma de desabafo e reflexão. A falta de vontade em ouvir, aprender dos jovens e aproveitar oportunidades. O que aconteceu com a Educação? Essa é a minha inquietação.
Sobre o autor
Trabalhei 35 anos no setor bancário, atualmente sou coordenador e professor do ensino superior. Ainda acredito na Educação, mas creio que precisamos valoriza-la.
Autor(a): ANTONIO APARECIDO DE CARVALHO (Antonio Carvalho)
APCEF/SP
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