Odisseia Tucuju

Toda viagem deveria ter um destino, mas há viagens em que o destino é a própria viagem, mesmo quando se quer muito voltar para casa.
Foi assim com Raimundo, embora ele só tenha compreendido isso muitos anos depois, quando já não sabia dizer quantas luas haviam passado desde a última vez em que vira a mulher, o filho e o velho jambeiro plantado diante de sua casa, lá pras bandas do Igarapé das Pedrinhas. Naquele tempo, ainda era homem de passos ligeiros, braços queimados pelo sol e olhos acostumados a procurar no movimento das águas aquilo que outros procuravam nos mapas. Conhecia o Amazonas como quem conhece uma pessoa: sabia quando estava manso, quando estava irritado e, sobretudo, quando fingia estar manso. Dizia que água parada demais era igual a gente calada: nunca se sabia o que estava acontecendo por dentro.

Nascido e criado entre o cheiro da chuva, o verde da floresta e o ronco irregular das pequenas embarcações, Raimundo aprendera cedo que, naquelas bandas, o rio não era apenas estrada. Era alimento, mercado, fronteira, relógio, sustento e, algumas vezes, sentença.

Naquela manhã, porém, o Amazonas parecia dormir. Uma neblina fina boiava sobre a água e escondia as margens mais distantes. A rabeta seguia devagar. Dentro dela estavam Raimundo e Zé Peba, seu companheiro de viagem, homem magro, falador e dono da convicção de que entendia mais de navegação do que qualquer outro.

— Tu conversas com esse rio como se ele fosse gente — disse Zé Peba.

Raimundo ajeitou o boné.
— E tu conversas com ele como se fosse burro.
— E ele responde?
Raimundo olhou para o horizonte.
— Às vezes, maninho.
Foi quando percebeu que as aves haviam desaparecido.
O primeiro sinal de que alguma coisa estava errada foi o silêncio. O vento diminuiu até quase desaparecer, enquanto as águas continuavam se movimentando numa espécie de respiração pesada. No horizonte, nuvens escuras começaram a se juntar.
— Vai chover? — perguntou Zé Peba.
— Vai.
— Muito?
Raimundo demorou a responder.
— O suficiente.
O vento veio de repente. As árvores das margens se dobraram e pequenas ondas começaram a bater contra a rabeta. Raimundo tentou ligar o motor, mas uma rajada quase os derrubou.
— Desliga! — gritou.
— Mas se a gente parar—
— Desliga!
Zé Peba obedeceu.
Durante alguns segundos, a rabeta ficou à mercê do rio.
Então veio a onda.
Uma parede de água levantou a embarcação. Raimundo agarrou-se à borda. Zé Peba gritou.

O mundo virou água.
Quando Raimundo abriu os olhos, havia apenas céu, rio e dor. A rabeta desaparecera. Zé Peba também. Ele agarrou um pedaço de madeira e deixou-se levar pela correnteza.

Passou horas sendo carregado.
À noite, olhou para as estrelas e pensou na mulher, no filho, na casa e no jambeiro. Pensou que talvez aquela fosse a última vez que veria o mundo.

No segundo dia, encontrou uma ilha.
Chegou à margem quase sem forças e encontrou uma pequena comunidade escondida entre a floresta e o rio. As pessoas o receberam sem perguntas. Uma velha o levou para uma casa de madeira, colocou-o numa rede e trouxe comida.
Deram-lhe caldo de tamuatá, farinha d’água e açaí. Raimundo comeu devagar no início, depois com a urgência de quem havia descoberto que a fome podia doer. O caldo quente devolveu força ao corpo, enquanto o açaí, espesso e escuro, trazia seu sabor intenso e frutado, familiar e reconfortante.
— Mais? — perguntou a velha.
Raimundo fez que sim.
Ela sorriu.
— Então talvez ainda não seja tua hora.

Naquela noite, Raimundo ouviu tambores, vozes e palmas. Havia uma festa acontecendo na comunidade.
— Podes ficar — disse a velha.
— Eu tenho família.
— Talvez tenham esquecido de ti.
Raimundo sentiu um aperto no peito.
— Tenho mulher. Tenho filho. Tenho uma casa em Macapá.
— Então fica.
Naquela noite, ele quase ficou. Havia comida, música, descanso e uma paz que não experimentava desde antes da tempestade. Mas, quando fechou os olhos, lembrou do filho correndo pelo quintal e do velho jambeiro.
No dia seguinte, pediu uma rabeta.
Ninguém quis lhe dar.
Foi então que percebeu algo estranho: ninguém naquela comunidade sabia dizer de onde tinha vindo. Uns diziam estar ali havia cinco anos; outros dez. Ninguém conseguia explicar.

Raimundo entendeu que aquela ilha não prendia as pessoas com cordas.
Prendia com esquecimento.
Na madrugada, encontrou uma pequena rabeta, soltou a corda e partiu.
— Tu vais voltar! — gritou a velha.
— Só se eu esquecer o caminho de casa! — respondeu.
A floresta o recebeu durante semanas.
Raimundo navegava por igarapés onde as árvores formavam túneis verdes sobre a água. À noite, dormia em praias pequenas, protegido pela rede e pelos ruídos da mata. Havia coaxar de sapos, gritos de aves, estalos de galhos e sons que ele não conseguia identificar.

Foi numa dessas noites que encontrou o Mapinguari.
Primeiro veio o cheiro.
Depois, um estalo.
Entre as árvores surgiu uma figura enorme, coberta de pelos, com braços compridos e uma boca que parecia grande demais para o rosto.
Raimundo ficou imóvel.
A criatura também.
Então o Mapinguari avançou.
Raimundo correu.
Galhos bateram em seu rosto, raízes quase o derrubaram e espinhos rasgaram sua camisa. Atrás dele vinham passos pesados.
Até perceber algo estranho.
O Mapinguari também parecia estar fugindo.
Raimundo parou.
A criatura parou.
— Tu estás com medo de mim?
O Mapinguari inclinou a cabeça.
— Eu estou com medo de ti.
A criatura recuou.
Raimundo deu um passo à frente.
Durante alguns segundos, ficaram frente a frente.
Depois o Mapinguari desapareceu entre as árvores.
Raimundo voltou para sua rede.
Naquela noite, dormiu pouco.
E decidiu que nunca contaria aquela história a ninguém.
Contou, porém, muitas vezes.
Depois do encontro com o Mapinguari, Raimundo passou a desconfiar do silêncio das águas.

Certa tarde, enquanto atravessava um trecho largo do rio, ouviu uma voz feminina.

— Raimundo…
Virou-se.
Não havia ninguém.
A voz voltou.
— Raimundo…
Foi então que a viu.
Uma mulher estava sentada sobre uma pedra próxima à margem. Seus longos cabelos caíam sobre os ombros e tocavam quase a água. A pele parecia brilhar sob a luz do entardecer.

Raimundo conhecia aquela história.
Era a Iara.
A voz dela parecia trazer consigo a promessa de tudo aquilo que ele mais desejava: descanso, segurança, o fim da procura.
— Sei para onde queres ir — disse ela.
— Para casa.
— Posso te levar.
Ela estendeu a mão.
Raimundo quase acreditou.
— E qual é o preço?
A Iara sorriu.
— Nenhum.
Raimundo desconfiou.
— Todo caminho fácil cobra alguma coisa.
— Então não queres voltar?
Ele apertou o remo.
— Quero chegar em casa sendo eu mesmo.
A Iara desapareceu nas águas.
Raimundo ficou sozinho.
Depois do encontro com a Iara, Raimundo remou durante horas sem olhar para trás. Já era noite quando percebeu que a rabeta não avançava.
Tentou acelerar.
Nada.

Era como se alguma coisa enorme estivesse segurando a embarcação por baixo.
A água começou a formar círculos.
Então surgiu uma cabeça gigantesca.
Raimundo sentiu o sangue gelar.
Era a Cobra Sofia.
Seu corpo era tão grande que parecia se confundir com o próprio rio. As escamas refletiam a lua e seus olhos brilhavam na escuridão.
Raimundo levantou o remo.
— Sofia…
A serpente se aproximou.
— Olha, eu não tenho nada contra ti.
A cobra não respondeu.
— Também não quero teu território.
A água se agitou.
Raimundo tentou recuar, mas o corpo da serpente cercou a rabeta. Um redemoinho começou a se formar.
A embarcação girou.
Raimundo caiu de joelhos.
A rabeta foi puxada para trás, depois para frente.
Foi então que percebeu uma abertura entre as árvores da margem.
Esperou.
A rabeta girou novamente.
Quando a passagem apareceu, Raimundo remou com toda a força que ainda possuía.

Uma remada.
Outra.

Outra.

— Hoje não, Sofia!
A proa tocou a margem.
Raimundo saltou para a terra. Atrás dele, a cabeça da Cobra Sofia surgiu novamente.

Os dois se olharam.
Não havia mais medo nos olhos de Raimundo.
Apenas respeito.
— Eu só quero voltar para casa — disse.
A cobra mergulhou.
O rio voltou ao silêncio.
Raimundo respirou fundo.
— Até tu, Sofia?
E seguiu viagem.
O tempo passou de maneira diferente.
Raimundo envelheceu. A barba cresceu, os cabelos embranqueceram e as mãos ficaram marcadas pelo remo, pelas cordas e pelo sol.
Em uma noite, chegou a uma comunidade onde ouviu o Marabaixo.
Os tambores ecoavam pela escuridão.
Raimundo ficou parado.
Havia naquele ritmo algo que não era apenas música. Era memória. Era resistência. Era gente carregando o passado no corpo e transformando sofrimento em movimento.

Pela primeira vez em muitos anos, Raimundo teve certeza de que ainda pertencia a algum lugar.
Foi muito tempo depois que encontrou novamente a velha.
Ela estava sentada à margem de um igarapé.
— Ainda estás tentando voltar?
— Não, que não.
Ela apontou para a água.
— Tu não estás tentando voltar para casa. Estás tentando voltar para o homem que eras antes de partir.
Raimundo olhou o reflexo.

Era o rosto de um homem marcado pelo sol, pela água e pelo tempo.
— A casa para onde queres voltar não existe mais — disse a velha.
Raimundo sentiu o peito apertar.
— Então por que continuo?
— Porque algumas viagens não existem para nos levar de volta.
Ela fez uma pausa.
— Existem para nos ensinar quem somos quando finalmente chegamos.
Quando Raimundo avistou Macapá, o sol estava nascendo.
Primeiro viu a linha escura da terra. Depois os telhados, os barcos e, finalmente, a cidade.
A Fortaleza de São José surgiu diante dele como uma lembrança construída em pedra.

Tudo parecia familiar.
E estranho.
A cidade havia crescido. As ruas eram diferentes. As casas haviam mudado.
Mas o cheiro do rio era o mesmo.
Raimundo atracou.
Perguntou pela antiga casa.
Ninguém conhecia.
Perguntou pela mulher.
Uma senhora apontou uma direção.
— Ela ainda mora por ali.
Raimundo caminhou.
Cada passo parecia pesar mais que o anterior.
Depois de tantos anos enfrentando tempestades, monstros, a Iara e a Cobra Sofia, descobriu que a coisa mais assustadora de toda aquela viagem era bater na porta da própria casa.
Bateu.

Uma vez.
Duas.

A porta abriu.
Uma mulher idosa apareceu.
Raimundo não conseguiu falar.
Ela também não.
Os dois ficaram olhando um para o outro.
Até que ela levou a mão à boca.
— Raimundo?
Ele abaixou a cabeça.
— Sou eu.
Ela chorou.
Depois riu.
Depois chorou novamente.
— Tu demoraste.
Raimundo sorriu.
— O rio não deixou.
Ela respondeu:
— O rio nunca deixa ninguém.
O filho já era homem.
Quando Raimundo o viu, sentiu uma dor diferente: a dor de perceber que havia perdido anos que nenhum rio poderia devolver.
Naquela noite, os dois ficaram sentados na varanda.
O silêncio entre pai e filho era cheio de coisas que nenhum dos dois sabia dizer.

Até que o filho perguntou:
— Pai, por onde o senhor andou?
Raimundo pensou no Mapinguari, na Iara, na Cobra Sofia, na ilha, na floresta e nas noites em que acreditou que morreria.

Mas respondeu apenas:
— Andei pelo mundo.
O filho sorriu.
— E encontrou o caminho?
Raimundo olhou para o rio.
— Não.
— Então como voltou?
Raimundo sorriu.
— O caminho me encontrou.
Mais tarde, Raimundo caminhou sozinho até a margem do Amazonas.
A lua estava alta.
O rio seguia seu curso, indiferente à passagem dos homens.
Durante anos, acreditara que precisava vencê-lo.
Agora entendia que o rio nunca fora seu inimigo.
Era apenas maior que ele.
Maior que sua força.
Maior que sua pressa.
Maior até que sua saudade.
O Amazonas não o havia impedido de voltar. Apenas lhe mostrara que voltar não significava encontrar a mesma casa, a mesma cidade ou o mesmo homem que partira.

Voltar significava reconhecer aquilo que permanecera dentro dele durante todo o caminho.

Raimundo molhou os pés na água.
Ao longe, ouviu o som de tambores.
Talvez fosse uma festa.
Talvez fosse apenas sua memória.
Ele sorriu.
Naquela noite, o Amazonas continuou correndo para o mar.
E Raimundo, depois de atravessar tempestades, ilhas, florestas, o Mapinguari, a Iara, a Cobra Sofia e tantos anos de solidão, finalmente compreendeu aquilo que o rio tentara lhe ensinar desde o primeiro dia:
Há viagens que não servem para encontrar o caminho de volta.
Servem para descobrir por que vale a pena voltar.

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Inspiração

Minha inspiração veio da obra épica "Odisseia", de Homero, especialmente da ideia de uma longa jornada de retorno para casa, marcada por desafios, encontros e transformações. A partir dessa inspiração, quis trazer essa estrutura clássica para uma realidade amazônica, criando uma história que tivesse o Amapá como parte essencial da narrativa.

Sobre a obra

"Odisseia Tucuju" é uma narrativa que procura unir a estrutura de uma epopeia clássica à identidade cultural e ao imaginário amapaense. Para construir a narrativa, utilizei como principal técnica a intertextualidade, estabelecendo um diálogo com a Odisseia, de Homero. Utilizei a descrição sensorial para aproximar o leitor do ambiente amazônico.

Sobre o autor

Sou uma pessoa movida pela curiosidade, pela imaginação e pela vontade de transformar ideias em histórias.

Autor(a): GERIO COELHO BRAGA (Gério Braga)

APCEF/AP