Odisseia Tucuju - Entre Rios, Lendas e Saudade

Toda viagem tem rumo,
tem partida e tem chegada,
mas há caminho que ensina
mais que a estrada planejada.
E há destino que se encontra
quando a volta é desejada.

Foi assim com Raimundo,
caboclo forte do Curiaú,
que um dia deixou sua terra
sob o céu de um azul anil,
levando no peito a saudade
e o cheiro doce do Brasil.

Deixou mulher, deixou filho,
deixou o velho jambeiro,
testemunha de tantas tardes,
companheiro verdadeiro.
E partiu pelas águas grandes,
feito um bravo canoeiro.

Navegou pelo Amazonas,
por igarapé e maré,
enfrentando chuva e vento,
com coragem e muita fé.
Pois quem nasce tucuju
não recua quando quer.

Macapá ficou distante,
mas guardada no coração;
a Fortaleza, o rio, as ruas,
cada canto, cada chão.
E a saudade, silenciosa,
virou sua embarcação.

Passou por ilhas e várzeas,
por palmeiras e açaizais,
ouvindo histórias antigas
de encantados e ancestrais.
Cada curva do caminho
lhe mostrava um pouco mais.

Numa noite sem lua cheia,
quando o silêncio era total,
ouviu ao longe um assobio
por detrás do matagal.
Era a velha Matinta Perera,
senhora do sobrenatural.

“Quem ouvir meu assobio,
não responda, por favor!”
Mas Raimundo, curioso,
não conteve seu temor.
Seguiu firme rio abaixo,
pedindo proteção ao Senhor.

E quando o sol apareceu
por entre a mata fechada,
uma cobra enorme surgiu
na correnteza encantada.
Era a Cobra Sofia,
serpente lendária e respeitada.

Raimundo remou depressa,
o coração quase a saltar;
mas a cobra, majestosa,
não queria lhe atacar.
Parecia dizer baixinho:
“Teu destino é navegar.”

Vieram noites, vieram dias,
vieram chuva, vento e sol.
Vieram fome, vieram medo,
vieram estrelas no arrebol.
E Raimundo foi entendendo
que ninguém viaja só.

Provou açaí bem grosso,
do jeito daqui, de verdade,
sem invenção, sem frescura,
com sabor de identidade.
E percebeu que naquela fruta
morava a própria saudade.

Encontrou gente ribeirinha,
quilombola e pescador,
cada qual com sua história,
seu trabalho e seu valor.
E aprendeu que uma terra
se conhece pelo seu povo e seu labor.

Passou pelo Bailique,
onde o rio encontra o mar,
e contemplou no horizonte
o infinito se espalhar.
Ali percebeu que o mundo
também pode ser o lar.

Mas quanto mais longe ia,
mais queria regressar;
pois há saudade que cresce
quanto mais se tenta andar.
E nenhuma grande aventura
faz a casa se apagar.

Até que um dia Raimundo
viu a margem se aproximar.
Reconheceu suas árvores,
sentiu o vento familiar.
Era o velho Curiaú
chamando-o para voltar.

Avistou o velho jambeiro,
ainda firme no quintal;
e seu peito, naquele instante,
bateu forte e desigual.
Depois de tantas marés,
voltava ao seu lugar natal.

A mulher estava à porta,
o filho já não era menino;
e Raimundo, emocionado,
chorou diante do destino.
Percebeu que a longa viagem
também mudara seu caminho.

Pois quem parte nunca volta
exatamente como foi;
cada rio deixa uma marca,
cada perda algo constrói.
E a saudade que machuca
também é aquilo que nos dói.

Raimundo então compreendeu,
diante do rio a brilhar:
que a viagem não era apenas
uma vontade de chegar.
Era o próprio caminho dizendo
quem ele deveria se tornar.

E assim termina a jornada,
mas começa outra, afinal:
a de guardar na memória
cada rio, cada sinal,
cada lenda, cada povo,
cada encanto ancestral.

Porque o Amapá não é somente
um lugar para se morar;
é cheiro de chuva na mata,
é rio querendo abraçar,
é batuque, é açaí, é história,
é um jeito de conversar.

É Curiaú ao fim da tarde,
é Bailique a navegar,
é Fortaleza de São José
vendo o Amazonas passar.
É Macapá de braços abertos
para quem quiser chegar.

E Raimundo, já de volta,
olhou o céu devagar.
Entendeu que toda partida
carrega um jeito de voltar.
E que algumas viagens começam
quando a gente pensa em chegar.


Esta é a Odisseia Tucuju,
de um homem, de um rio e de um lugar;
uma viagem pelo Amapá,
onde a lenda aprende a cantar,
e onde quem parte pelo mundo
descobre que seu destino
sempre foi voltar.

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Inspiração

A poesia nasceu da vontade de unir a grandiosidade da Odisseia, de Homero, à riqueza cultural, histórica e natural do Amapá.

Sobre a obra

A obra fala sobre uma viagem que é, ao mesmo tempo, geográfica e interior. Porque, às vezes, precisamos ir muito longe para compreender o valor do lugar de onde viemos.

Sobre o autor

Desde criança sempre gostei de brincar com versos e rimas. Minha poesia nasce do olhar atento das pessoas, para a natureza e para acultura que nos cerca. Gosto de transformar o cotidiano em narrativa, misturar a realidade e imaginação e buscar nas palavras uma forma de valorizar as raízes e minha identidade.

Autor(a): GERIO COELHO BRAGA (Gério Braga)

APCEF/AP