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Doutor Giovanni
DOUTOR GIOVANNI
Silvestre Matuto
Naquele dia de sol de 1980, o ônibus lotado subia a Avenida Brasil, em São José dos Catolés, interior do país. Um rádio de pilha mais chiava que tocava Secos & Molhados, enquanto noutro canto se falava de Lula e do ABC. Um vigilante de farda, em pé, olhava com ferocidade um artesão sentado com a sua tábua de brincos, pulseiras, anéis e mandalas de arame.
O veículo parou num ponto e algumas pessoas chegaram ao seu destino.
O imenso retrato do general-presidente, com a faixa verde-amarela cruzando o peito, pendia na parede oposta aos dois bancos estofados de napa preta, já puídos, rasgados em algumas partes, deixando à mostra a espuma de nylon. Num deles estavam sentados Dona Conceição e seu filho João Kennedy. Era a sala de espera de quem fosse ter com o Doutor Giovanni, delegado regional de trânsito. Do lado da escada que conduzia àquele primeiro andar, havia outros dois bancos, ocupados por outras três pessoas com o mesmo mister. Debaixo do general-presidente sentava-se a secretária em sua mesa, com a máquina de escrever virada na vertical e uns papéis logo à frente, nos quais a mulher parecia compenetrada, com seus óculos de corrente. Do seu lado direito ficava o telefone, que tocava com certa regularidade. Numa das ocasiões ouviu-se um “Sim, Doutor” e, logo em seguida, a mulher apontou para a outra que estava sentada junto à parede à sua frente, indicando a porta à esquerda e dizendo, com certa secura: “Podem entrar. É só abrir”.
Dona Conceição levantou-se tímida, fazendo um ligeiro aceno ao filho, que a acompanhou até a porta de madeira envernizada na qual estava afixada a placa “Bel Paulo Giovanni – Delegado Regional de Trânsito”. Como parou indecisa diante da maçaneta, a secretária repetiu: “Podem entrar”. Assim que ela entreabriu a porta, o delegado ordenou: “Dona Conceição, entre!”. Ainda, fez um gesto para que se aproximasse, aquela mulher toda acabrunhada, o filho quase se escondendo atrás dela.
“Boa tarde, Dona Conceição!” disse, estendendo o braço para um aperto de mão, sem se levantar. O que fez a mulher adiantar-se rapidamente em meio às duas cadeiras em frente à imensa mesa. “Boa tarde, Doutor!” devolveu, estendendo o braço e inclinando o corpo para alcançá-lo. “Sentem-se, por favor”, disse o outro, indicando com uma nitidez brusca as cadeiras envernizadas.
A sala acarpetada tinha ar-condicionado. A grande mesa cor de café, com entalhes, era coberta por veludo verde e um vidro por cima deste. Estava toda cheia de objetos, porta-lápis, porta-retratos, porta-papéis, três miniaturas pretas em metal de automóveis antigos, um relógio de mesa, dois troféus, porta-bandeirolas, e outros itens. Na parede logo atrás, pendia um retrato do governador, logo acima de um armário de madeira. No ângulo direito desta parede via-se encostada uma espingarda, ou algo parecido. O delegado usava camisa branca de mangas abotoadas nos pulsos, gravata preta com listas vermelhas, bem apertada no pescoço grosso, prendedor dourado, suspensórios pretos, imenso relógio prateado, óculos com aros dourados. Também tinha um e outro dente dourado que se mostravam, aliança dourada num dos dedos peludos e anel largo com pedra vermelha noutro. O paletó preto cobria o espaldar alto da cadeira estofada, na qual o homem reclinou-se, cruzando os dedos dos braços postos sobre a mesa.
“Como vão as coisas, Dona Conceição, como vai a família?”.
“Tudo bem, Doutor, tirando os problemas, tudo bem”.
“É uma honra a senhora vir me visitar. Isso ia acontecer mais dia menos dia. O seu marido é um bom empregado. E eu já tinha perguntado pro Teixeira: ‘quando eu vou conhecer a senhora sua esposa?’ Já teve a festa de final de ano aqui na repartição e nem ele nem a família, ou seja, a senhora e os filhos, apareceram. Que bicho do mato, Dona Conceição! Bom empregado, gente de confiança, mas bicho do mato!”.
“Ah. O senhor desculpe, Doutor. É coisa de gente pobre, humilde. Mas ele fala muito bem do senhor. Que o senhor é um muito bom patrão.”
“Patrão, não, Dona Conceição. Eu também sou empregado. E apontou o dedo para trás, sem se virar, como que a indicar o governador. “Eu aqui sou chefe, mas gosto de pensar que todo mundo aqui está numa família. Que esta repartição é uma família.”
“O senhor está certo, Doutor. Mas é que ele entrou aqui na delegacia pela mão do senhor. Eu, ele, a gente fica muito agradecida. O João é doente, tem problema no coração. Emprego é difícil, principalmente nessa condição. Se não fosse o senhor, eu não sei o que ia ser.” E a voz da mulher ia ficando chorosa e os olhos molhados.
“O seu marido tem amigos. Que me falaram dele. Então eu o chamei aqui, conversei e decidi. Não me arrependi de ter colocado ele. Mas fique à vontade, Dona Conceição. Fique à vontade, não precisa de vergonha. E os filhos, como vão? E esse rapagão aí? Grande, hein? É o mais velho?”
“Ah, vão bem. Esse o João, o mais velho. Já tem 16. Precisa trabalhar. Tenho mais um homem e uma menina. Todos bem de saúde, graças a Deus.” O rapaz estava rijo como uma estátua, o olhar desfocado. A mãe tinha feito um gesto quase imperceptível, como que a pedir pra que ele cumprimentasse o homem. Ele então meneou de leve a cabeça, indeciso. Ao que o delegado correspondeu quase imperceptivelmente.
“Graças a Deus, Dona Conceição. Graças a Deus. E as idades dos outros?”
“O do meio tem 14 e está numa oficina. A menina já vai pra doze e me ajuda.”
“Oficina?”
“É. De carro. Está aprendendo bem, parece.”
O delegado já sabia da demanda da mulher. Pelo próprio marido dela, que solicitara a audiência. E pela secretária, que agendou a tal. Enfim, já sabia do que se tratava. Tirou e recolocou os óculos, gesto característico seu, e perguntou:
“Bem, Dona Conceição. O que posso fazer pela senhora?”
“É que, Doutor, sabe. Ele está sem emprego. Está difícil arrumar. Ele faz ficha em um monte de lugar. E ninguém chama. Gasta muita sola de sapato e não arruma nada. Um rapaz bom, honesto, pronto pra pegar firme no trabalho.”
“E a senhora quer que eu arrume emprego pra ele? Bem, aqui na delegacia não tem jeito mesmo. Ele é menor. Não está nem tendo lugar para maior aqui. E pra menor não tem mesmo, de jeito nenhum.”
A voz da mulher ficou mais embargada e seus olhos ficaram mais chorosos.
“Eu sei que aqui não pode. Se o Doutor, com o conhecimento, com o respeito que tem, pudesse indicar ele pra uma empresa. Ele não enjeita nada. Precisa trabalhar pra ajudar a família.”
“É difícil, Dona Conceição. Mas eu vou ver o que posso fazer. O desemprego está muito grande e eu, e não só eu, a gente tem que ficar arrumando o lado de muita gente. Muita gente pobre como a senhora. Pobre e honrada. Vou ver o que dá pra arranjar. Se tiver notícia, mando recado pelo seu marido.”
“Olha, Doutor, eu agradeço muito a atenção. Se o senhor puder fazer este favor. A gente já fica muito agradecida pela sua atenção. E se o senhor puder arranjar um trabalho pro João, vai ser uma benção!”
O delegado deu um ligeiro sorriso de satisfação. E de alívio. A coisa já tinha chegado ao fim. Ou quase.
Seguiu-se um silêncio. A mulher já respirava aliviada. Os olhos iam secando. Ligeiro embaraço. O que falar agora?
“Dona Conceição, a gente está perto das eleições, a senhora sabe?” – disparou o delegado.
“Sei sim, senhor”. E uma ligeira curiosidade acendeu-se na mulher.
“A gente, todos nós, vivemos devendo favores. Eu tenho dois amigos...” O homem foi falando isso já se virando para um lado e puxando uma das gavetas “...dois amigos eu tenho. Então eu não posso fazer campanha só pra um...” Afetava despreocupação e uma postura despachada, enquanto apanhava dois maços de panfletos, um de cada vez, e os punha em cima da mesa. “...um é candidato, o outro também é. Candidatos a deputado estadual. Um de um partido, outro de outro, mas isso, pra mim, é o de menos...” Ajeitava os dois maços de centenas de panfletos em cima da mesa, enquanto falava, mais ou menos de cambulhada. “...eu faço campanha pros dois. Homens honestos, honrados. Gente que tem o apoio e a confiança do Dr. Giovanni. Posso dizer desse modo...eu, Dr. Giovanni, posso dizer assim...” Por fim, recostou-se no espaldar, olhou a mulher e concluiu:
“Dona Conceição, a senhora e os seus vão me fazer esse favor, distribuir estes panfletos, não?”
Pátio da Delegacia Regional de Trânsito. O mato baixo despontava por todo lado, por entre a brita pequena que cobria, em camada fina e irregular, aquele grande terreno. Carros amontoavam-se estacionados desordenadamente, cheios de poeira e ferrugem, quase todos danificados, outros de todo imprestáveis. Apreendidos. Por entre eles, João viu despontar seu pai, ao qual ia levar a marmita do almoço. E logo este falava ao filho para ir ter com o delegado, ali no prédio, no dia seguinte. Já viesse preparado, no aprumo, quando trouxesse o almoço, para que, pouco antes das duas horas, subisse lá no prédio e fosse ter com o homem.
João Kennedy esperava na sala, no mesmo banco onde tinha se sentado com a mãe na outra ocasião. A secretária tinha falado em voz baixa ao telefone e em seguida, tinha-o mandado esperar. Faz já meia hora. Estão mais três pessoas na sala. Subiu, então, um sujeito pela escada, que foi ter com a secretária e que olhou algumas vezes para João. A mulher telefonou, depois voltou às tratativas com o sujeito, em voz baixa. Por fim, este se dirigiu para o rapaz. “João, não é? Filho do Teixeira. Vem comigo.” Ao olhar confuso de João, completou: “É da parte do Dr. Giovanni.” E a secretária confirmou: “Pode ir”.
O sujeito meteu-se num Fusca oficial da delegacia de trânsito com o rapaz. Perguntou a este se estava com os documentos. Sim, estava. Do estacionamento em frente ao prédio, o carro zarpou. O motorista, quando não falava ao microfone do rádio no painel, entre chiados e falas quase incompreensíveis, assobiava. Enquanto guiava rápido, rumo ao centro da cidade. Uma pequena flâmula de um time da cidade pendia do retrovisor. Um crucifixo pequeno de metal fixava-se no painel. Por fim, chegaram a uma área de estacionamento, em frente ao Banco X. O homem, então, disse a João: “Espere aqui.” E saiu. Fazia calor. E João não sabia o que pensar. E, cerca de uns trinta minutos depois, o sujeito voltou, entrou, e tirou um maço de notas de dinheiro de dentro da bolsa de couro que portava. E jogou o dinheiro no porta-luvas. Depois disse: “Vou ter que sair de novo. Espere aqui”. E saiu com a bolsa.
O calor esturricava. João só agora cogitou abrir a janela e também o quebra-vento do seu lado. Mas achou melhor não mexer em nada. A área de estacionamento, de paralelepípedos, onde os carros se punham de frente à entrada do banco, estava lotada. Muita gente circulando naquela parte do centro.
Meia hora depois, reaparece o homem. Fala alguma coisa incompreensível, abre o porta-luvas, olha pro rapaz, pega o maço de notas e o devolve à bolsa de couro. E o carro põe-se novamente em movimento. E, de novo, os chiados e vozes no microfone. E os assobios. “Vamos pra Loja Calil, você vai fazer ficha lá. Se der certo, você já está contratado.” Disse, por fim, ao rapaz.
Pois foi.
Inspiração
A curiosidade e o interesse pelas questões políticas e sociais sempre me levaram a questionar acontecimentos e fatos que presenciei e vivenciei. Particularmente este conto, senti como uma necessidade escrevê-lo, para evidenciar uma das dimensões da opressão da pobreza. Esta subjugada pelos mais - em diferentes graus - poderosos
Sobre a obra
Pensei em contar, de maneira - vamos dizer - bem concreta, um fato miúdo do clientelismo político. Baseado em elementos autobiográficos, livremente reinventados. E conectados com a realidade política e social de determinado período da história do Brasil - a saber, os anos quase finais da ditadura.
Sobre o autor
Sou nascido em São José do Rio Preto/SP, em 13/12/1964. Estudei Ciências Sociais na USP e trabalhei como professor. E desde 2007 vivo e trabalho na Bahia. Sou autor do livro "Assédio Moral: as urdiduras e infâmias no ambiente de trabalho bancário¨ de 2017, edição própria. E do livro "O velório do velho Mourão e outros contos", 2022, Ed. Viseu.
Autor(a): JOSE CARLOS DOS SANTOS (Silvestre Matuto)
APCEF/BA