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Badaró e Cavalcanti
Badaró e Cavalcanti
Silvestre Matuto
O velho calvo, de bermuda, chinelos e camiseta abre uma das folhas da porta e vê, no portão de ferro, uma figura conhecida. Era o Badaró, que tinha tocado a campainha. O velho fez uma expressão aborrecida, enquanto torcia a chave na fechadura. E percorreu o corredor do pequeno jardim como que indiferente.
Ao invés de abrir a fechadura do portão de um metro e meio de altura, parou a dois passos, e foi logo dizendo:
- O que é que é, Badaró? Já te falei pra, quando quiser alguma coisa, ir ao meu escritório.
O escritório era ali perto, três quadras. Na verdade, era um conjunto de duas salas, uma saleta de entrada e um banheiro, tudo puído e descascado, compartilhado com outros três parceiros, despachantes, corretores e quetais, como ele, Cavalcanti. Era quase meio-dia, e o homem iria pra lá por volta das duas da tarde, como geralmente fazia.
- Bom dia, doutor! Tem um bagulho aqui! – E apontou uma pasta azul de plástico que tinha embaixo de braço direito.
Cavalcanti pensou que Badaró talvez quisesse que ele lhe pagasse o almoço no bar ali perto, como já tinha acontecido mais de uma vez. Mas não estava com paciência. Estava ficando um velho cada vez mais turrão. Nem mesmo queria saber o que era aquele bagulho. Parar de vez de rolos e só ficar em casa regando as plantas, era o que ele cada vez mais queria.
Badaró era sem eira nem beira. Fumava crack e dormia na rua. Já estava magro como uma lombriga e não cheirava bem. Cavalcanti nem sabia como tinha dado trela praquele indivíduo, que tinha uns trinta anos, mas o rosto já vincado. O velho lidava com golpistas, gigolôs e ladrões, gente com mais apresentação que aquele noiado. Claro que também resolvia problemas de gente honesta, ou nem tanto, mediante paga e consideração. Era despachante.
Olhando com mais atenção, Cavalcanti percebeu que o “amigo” estava agitado, na fissura. Ao invés de comida, talvez quisesse algum dinheiro pra comprar pedra. Desta vez, então, nem iria abrir o portão e sair com ele, como já fizera mais de uma vez. Resolveu despachar o assunto:
- Vê se te apruma e passa no escritório lá pelas três. E não me apareça mais no portão.
Badaró mexeu as mãos com nervosismo e revirou um pouco os olhos. Esperava ser atendido de pronto.
- Coisa de responsa, doutor! É sério! Vai renegar? Tem gente na fissura atrás disso aqui – disse apontando a pasta.
O velho ficou com a curiosidade açulada. Mas conteve-se pensando que tinha que tratar os assuntos com as boas e elegantes maneiras. E não ficava bem aquele maluco ficar parado no pé do seu portão.
- Lá no meu escritório, Badaró! Às três! Fora disso, não sei de nada! – E já foi virando as costas.
Badaró fez mais umas expressões de nervosismo e protestou.
- Vacilo, doutor! Não sei se às três ainda tem coisa!
E o velho entrou em casa.
Por volta das duas, Badaró chegou ao escritório. Três senhores conversavam na saleta de entrada. Um deles era o Cavalcanti. Este não o apresentou aos outros e, a rigor, não o cumprimentou. Apenas disse: “Ei, Badaró, espere aí!”, indicando o banco de napa puído logo na saída do vão da escada daquele primeiro andar.
Badaró obedeceu. Sem dizer palavra, meneando a cabeça em assentimento, com os beiços entreabertos e o olhar meio esbugalhado, sentou-se permanecendo com a pasta debaixo do braço, como se fosse algo precioso.
Depois da ida à casa do velho, tinha vagado ali por perto, decidindo sobre o que fazer. Estava na fissura, tinha pensado em ir pra a Luz, mas não tinha um puto no bolso. Então, lá não iria resolver nada. E, depois, teria que voltar aqui, pra arrumar essa parada com o velho. Percorreu os arredores da estação Armênia, sempre ligado no movimento. Mas estava difícil achar jeito de arrochar alguém no vacilo. Podia pedir, porém. Não gostava, mas sempre fazia. Chegava de repente na pessoa distraída, de preferência mulher: aí-dá-um-trocado-tia. Na maioria das vezes a pessoa ignorava e apertava o passo. De vez em quando alguém dava um trocado.
Mas, ao invés de pedir, resolveu entrar no pátio da igreja, na fila da sopa. Preferiria uns trocos para a pedra, mas a situação não estava muito conforme ele gostava. Na maciota, ia encher um pouco o bucho e esperar a hora de resolver a parada com o velho. Foi o que fez. A sopa estava boa e deu uma acalmada na fissura.
Às duas e pouco, alimentado, lá estava sentado no escritório do Cavalcanti. Os três homens, falando de assuntos gerais e negócios difusos, não despertavam a curiosidade de Badaró. E nem mesmo podiam ser compreendidos por algum outro espectador estranho mais aprumado na cidadania, se fosse o caso. Da parte deles, pareciam ignorar o visitante.
E Badaró, sem tirar a “sua” pasta de debaixo do braço direito, esperava.
Então, a porta de uma das salas se abre e dela saem dois homens. Eles se têm com os três da saleta por uns instantes. E logo um deles sai pelo vão da escada, enquanto o outro senta-se na mesinha de ferro, falante com os parceiros. Logo Cavalcanti, dirigindo-se à sala de porta aberta, chama Badaró: vem-cá-cidadão!
- Qual é o negócio, amigo? - Perguntou logo que o outro tinha se sentado na cadeira à sua frente na mesa. Cavalcanti era mais formal no escritório, diferentemente de quando era procurado em casa ou achado na rua.
- Tem essa pasta aqui, doutor. Tem uns papel interessante aqui. E muitos cheques – Disse, estendendo um pouco o braço direito para a frente.
Cavalcanti fez menção de estender o braço, mas recuou. O outro não fez nenhuma menção de lhe entregar.
- Fala logo, homem! Qual é a parada?
- É pasta de uma dona, coisa de escola ou coisa assim. Tem uns papel e tem dez cheques nominal, cruzado, tipo assim.
- E ela te deu a pasta?- Cavalcanti deu um sorrisinho irônico.
- Eu consegui isso aqui lá no Bixiga, perto dum restaurante, ontem à noite. Tava lá no banco do carro. Eu queria achar algum outro bagulho, pra trocar logo, mas só tinha isso aqui.
- E como é que você pegou?
- Eu dou minhas correria, doutor. Quer ver se isso aqui dá negócio? -Badaró afetou uma pequena autoestima, enquanto fazia uma ligeira menção de entregar a pasta ao homem.
- Como é que você pegou isso aí, Badaró? – Cavalcanti perguntou quase soletrando, jogando um pouco o corpo pra frente e botando ambas as mãos na borda do tampo da mesa.
- Eu tava doido da pedra, doutor. O carro era um desses fiatinhos. Foi só enfiar os dedo em cima da porta e puxar. E enfiar o braço até a trava.
- Você abriu a porta com as mãos? – Cavalcanti esbugalhou os olhos, mas logo ponderou: - Quase que eu acredito! Você usou um pedaço de ferro ou pau ou sei o que lá.
- É, doutor. Enguiçou um pouco, mas deu.
- A porta do passageiro?
- É.
- E essa pasta estava no banco da frente ou de trás?
- De trás.
- Deixa eu ver isso aí! – Ordenou Cavalcanti.
Badaró entregou-lhe o objeto. Cavalcanti abriu e conferiu logo os papéis, tomando as suas primeiras deduções. Logo deteve-se nos cheques, dentro de uma folha plástica à parte. Conferiu-os um a um. Eram dez, pré-datados, nominais e cruzados, do Banco X. Todos do mesmo valor. O total deles perfazia uma quantia que dava pra comprar um carro popular zero. Cada um deles levava duas assinaturas. Uma dessas assinaturas era a da mulher roubada, com certeza. Pareciam querer pagar obra civil em escola.
Sim, era escola. E a vítima do roubo era diretora. O homem devolveu os cheques à sua folha plástica, ordenados e presos com clips, e voltou a analisar os outros papéis. Encontrou a informação que mais relevava então: além do nome, contato, principalmente via telefone.
- É coisa de escola. E essa madame deve ser diretora.
- É coisa de diretoria. Logo vi – Emendou Badaró.
- Você tem que arranjar um jeito de devolver isso, Badaró. Pra você não serve pra nada. E essa dona deve estar muito preocupada - Disse Cavalcanti, olhando firmemente para o sujeito.
- Como é que dá pra fazer, doutor? Pode rolar uma gorjeta?
- Você estraga a porta do carro da mulher, rouba documentos de que ela precisa no trabalho e ainda quer gorjeta? Você é muito folgado, Badaró! Ela vai é te botar a polícia nas costas!
Badaró percebeu o homem, comparsa eventual, um pouco mais agressivo que o de costume. Será que ele não queria negócio, dar um jeito na situação e dividir uma gorja com ele? Resolveu jogar duro. A humildade se dissipou. Fez menção de querer a pasta de volta.
- É. Então eu vou ver o que faço com esse bagulho aí. O rio é aqui perto.
Cavalcanti deu um sorriso cínico. Teve vontade de dizer: isso-não-te-pertence-mais, aliás, nunca pertenceu. Quando este molambo na sua frente trazia mercadoria roubada, ele passava pra um comprador e lhe dava uma parte do pagamento. Tudo no anonimato. Tudo na surdina. A vítima não havia de saber quem a roubou – geralmente não. E nunca, nunca sabia quem havia comprado a coisa e quem havia intermediado a transação.
Mas o “despachante” já estava maquinando o que fazer. Precisava pensar mais e, por ora, dispensar o Badaró. Mudou o tom.
- Badaró, vamos fazer o seguinte, meu caro! Vamos pensar num jeito de conseguir um mingau dessa dona sem risco. Se você jogar no rio, vai ter arranhado essas unhas de gatuno à toa. E a dona vai ter aborrecimento. Todo mundo no prejuízo. Deixa isso aqui e volta... depois de amanhã, neste horário- Cavalcanti fez um gesto como que o despedindo.
Badaró concordava com esse encaminhamento. Com um leve aceno de cabeça, se levantou e saiu, com um olhar demorado e meio esbugalhado no velho, tipo assim: estou-lhe-vendo-bem.
A mulher já devia ter dado queixa na polícia, pensava Cavalcanti. Talvez ontem mesmo à noite. E é claro que isso não resolvia nada, do ponto de vista de recuperar o pertence roubado. Mas talvez resolvesse no sentido de eximir-se de responsabilidades administrativas, em ela encaminhando uma cópia do BO obtido pras instâncias devidas. Era preciso, então, agir com rapidez, pois tão logo as coisas fossem eventualmente apaziguadas do ponto de vista funcional, ela poderia se desinteressar da perspectiva de recuperar a pasta.
-Alô?
-Alô! Gostaria de falar com Maria Conceição!
-É ela.
- Dona Maria Conceição, aqui quem fala é o despachante Antônio Cavalcanti. Boa tarde!
- Boa Tarde. Sim?
- Dona Maria Conceição, tenho um pertence da senhora. Alguém que o achou na rua me passou pra que eu tomasse as providências.
- Não estou entendendo. Que pertence? Do que o senhor está falando?
- Uma pasta azul com documentos.
- O quê? Como assim? Eu fui roubada! O senhor está falando de uma pasta com documentos de escola?
- Exatamente. Uma pasta com documentos de escola.
- Mas, como? O que é que o senhor tem a ver com isso? Por que está com ela?
- Já lhe disse que alguém conhecido a achou na rua, na calçada. Viu mais ou menos o que era e achou por bem trazê-la até mim. Eu entro em contato com as pessoas, despacho coisas, sou despachante, conhecido. Então, é isso. Eu liguei pra ver como posso devolvê-la para a senhora.
- Ah, sim! Entendi. O ladrão jogou fora. Ele abriu meu carro, pegou a pasta, que era só o que tinha. E depois jogou fora porque não tinha nada de interesse pra ele.
- Lamento pelo ocorrido, dona Maria. Mas, pelo menos, a senhora tem aqui a pasta.
- Obrigada, senhor. Senhor...?
- Cavalcanti. Antônio Cavalcanti.
- Muito obrigada, seu Cavalcanti. Obrigada mesmo! É claro que vou querer de volta. Me faz muita falta. Estava muito preocupada. Que alívio! Que bom!
- Fico feliz, minha senhora. Fico feliz em ajudar, dona Maria. Marque um dia pra vir no meu escritório e eu lhe entrego a pasta.
- Sim, senhor. Pode ser amanhã à tarde?
- Sim, a partir das duas, estarei no meu escritório. Pode anotar o endereço?
- Um momento...
...
- Sim, pode falar.
- Rua Direita, 171, primeiro andar. A primeira travessa da Tiradentes depois da estação Armênia. O fone é 66666666.
- Certo, certo. Anotei. Amanhã às duas estarei lá. Antes, eu ligo pro senhor.
- Estarei lhe esperando.
- Olha, desde já, muito obrigada, seu Cavalcanti. Não imagina o quanto está me aliviando.
- É um prazer ajudar, dona Maria.
- Boa tarde!
- Boa tarde!
Cavalcanti percebeu que a maneira como abordou a questão não tinha dado margem para uma cobrança. Mas, era assim. Ele era principiante naquela situação pouco usual. Estava perdendo tempo com uma coisa um pouco aborrecida. Devolveria a pasta pra mulher, sem problema. Pra ele mesmo não iria pedir nada. Mas o molambo do Badaró iria querer alguma coisa. Ele estaria lá, mais ou menos no horário da chegada da mulher. Não sabia que iria encontrá-la. Cavalcanti decidiu não falar nada com ele. Resolveria tudo na hora.
Badaró chegou por volta de uma e meia, com os beiços abertos e o olhar esbugalhado, curioso por sabe o que é que havia de arranjo na questão. Cavalcanti, que estava na saleta conversando com parceiros, mandou-o esperar. O rapaz, sentado no banco de napa, mexia as mãos nervosamente. Nem tinha dado uma correria boa desde a ocasião do roubo no carro. Estava com fome e na fissura. E queria logo que aquela pasta, que agora não tinha debaixo do braço, resolvesse logo as coisas.
Ele vê uma mulher de uns quarenta e poucos anos, mais baixa que alta, vestindo roupas largas com discreta elegância tipo gerencial, acompanhada por um mulato alto, de uns trinta e tanto, que vinha logo atrás dela, entrar na saleta. Ela tira os óculos escuros e percorre todo o ambiente com uns olhos atentos, dando uma boa-tarde geral. O mulato não tira os seus e faz ligeiros acenos de cabeça.
Logo ela pergunta pelo senhor Cavalcanti. Que rápido se apresenta.
Foram feitas as apresentações e apertadas as mãos entre os presentes, com exceção de Badaró, que continuava sentado ali, ignorado. Cavalcanti convida então a mulher e seu acompanhante a entrarem numa das salas.
Cavalcanti correu a providenciar mais uma cadeira e fez as duas visitas se sentarem. E fechou a porta. Os parceiros que estavam na saleta, lá permaneceram, proseando. E Badaró continuava sentado no banco.
Cerca de meia hora se passou.
Então, a porta se abre. A mulher está com a pasta azul agarrada pelo braço junto ao peito. Com uma expressão visivelmente simpática e satisfeita. E o mulato também estava com um discreto sorriso, e agora sem os óculos escuros. Com acenos de cabeça aos que estavam na saleta, inclusive Badaró, e boa-tarde geral, o casal vai embora.
Cavalcanti trocou algumas palavras com os parceiros e, depois, chamou Badaró para a sala.
- Badaró, é o seguinte: a dona Maria deixou esses 50 reais aqui como agradecimento à pessoa que lhe achou a pasta, pra eu entregar. Ela não sabe que a pessoa que a roubou está aqui. Pegue. E não me dê mais esse tipo de trabalho.
Cavalcanti tinha enfiado outros 50 reais no bolso da calça.
Inspiração
A realidade pungente da metrópole, bem como o relato pungente de um fato realmente acontecido a mim relatado, me inspirou a escrever este conto. Criar situações e desenvolver os personagens envolvidos não diminui a violência, mas dá vida a quem escreve e a quem lê.
Sobre a obra
É uma ficção prosaica, baseada em fatos reais. E que busca captar de maneira realística o ser e o fazer dos personagens. Trata-se da relação "de negócios" entre um morador de rua viciado em crack Badaró e o "despachante" Cavalcanti, no contexto da metrópole
Sobre o autor
Sou nascido em São José do Rio Preto/SP, em 13/12/1964. Estudei Ciências Sociais na USP e trabalhei como professor. E desde 2007 vivo e trabalho na Bahia. Sou autor do livro "Assédio Moral: as urdiduras e infâmias no ambiente de trabalho bancário¨ de 2017, edição própria. E do livro "O velório do velho Mourão e outros contos", 2022, Ed. Viseu.
Autor(a): JOSE CARLOS DOS SANTOS (Silvestre Matuto)
APCEF/BA