Antes que eu me partisse

Cresci em meio a estilhaços.
Aprendi a me esquivar dos cacos que não eram meus, a pisar leve para não me cortar.
Havia muitas — vozes, vultos, versões.
Ora o riso fácil, ora o silêncio cortante. Ora alguém conhecido, ora ninguém.
E a menina cresceu com medo de também se partir.

Quando me tornei mulher, e depois mãe, fiz uma promessa:
Que não me ausentaria de mim. Que não sumiria em vozes que não fossem minhas.
Que meus filhos teriam paz, mesmo que precisasse escalar montanhas internas todos os dias.

Teve noites de escuridão. Teve dias em que a tristeza parecia intransponível.
Mas me lembrava das mãozinhas pequenas segurando meu dedo,
e do futuro que queria construir.

E eu orava.
Tratava da alma como quem trata de uma planta frágil: com luz, paciência, presença.
E toda vez que sentia o eco da dor antiga, respondia com um novo gesto de amor.
Com uma ida à praça. Um jantar quentinho. Um “você é tudo pra mim”.

E quem veio de destroços, tornou-se abrigo.
Quem temia ruir, aprendeu a não se partir.
E assim, um dia após o outro, vou cumprindo a promessa.
Escolhendo, todos os dias, permanecer inteira.

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Inspiração

A inspiração para a obra foi meu livro "Feridos pelos Estilhaços", onde relato o desmoronamento por transtornos mentais e múltiplas personalidades da minha mãe.

Sobre a obra

O conto é baseado no meu livro "Feridos pelos Estilhaços". Um testemunho de que é possível romper ciclos, acolher feridas e escolher, todos os dias, permanecer inteira.

Sobre o autor

Na escrita encontrei abrigo para memórias que não cabiam no silêncio. Escrevo para que o amor nunca se perca.

Autor(a): CAROLINA HIRT BEGNINI HEIMANN (Carolina Heimann)

APCEF/RR