Entregador de aplicativo

Entregador de aplicativo
Um apaixonado por motos, apesar de achar um veículo inseguro e ver a cada dia, principalmente a partir dos últimos dez anos do século passado, essa insegurança aumentar, com um número crescente dessas máquinas a circularem nas ruas das grandes cidades, além dos desastres em que estavam envolvidas se tornarem corriqueiros. Tirar um fininho dos carros, como se costumava dizer, virou hábito e os cuidados, quando elas estavam por perto, precisaram ser redobrados.
Quando o acidente ocorreu, no início da tarde, eu já havia cumprido cinquenta por cento da minha meta. Planejara estar pronto no máximo até às dezoito horas, para dar tempo de passar em casa tomar um banho, vestir minha melhor roupa e não me atrasar para o encontro com Laura. Embora, a partir desse horário, o movimento da loja aumentasse e mesmo sabendo que perderia dinheiro, queria esquecer por um instante os números que havia muito rodopiavam sem cessar na minha cabeça. Depois de longo tempo, era a primeira vez que me sentia feliz.
Na hora do almoço, comi qualquer coisa em pouco mais de dez minutos, sentado na própria moto que estacionara sob um florido flambloyant, numa rua tranquila. Eufórico pela expectativa da noite, dei partida para o segundo turno. No exato momento em que ia avançar o semáforo para entrar na avenida, outra moto cruzou em alta velocidade diante de meus olhos incrédulos. Travei de repente, mas não consegui controlar o veículo que caiu sobre um dos meus pés amassando-o como papel velho. Fiquei ali estirado no chão, a pensar apenas em Laura e sentir seu delicado perfume a me envolver e acalmar. Em instantes, um mar de motoqueiros se formou ao meu redor, fato que me comoveu como raras vezes me acontecera. O socorro veio logo e fui levado ao hospital.

Não pensei duas vezes ao optar pela engenharia civil. Ainda estudante fui ser estagiário em uma construtora de renome e ali comecei a fazer uma carreira bem-sucedida. Uma época de grandes obras e a empresa quase não dava conta dos negócios que fluíam como cascata. Adquiri meu primeiro imóvel na planta e o customizei ao meu melhor estilo. Tinha um bom carro e fazia as viagens mais incríveis que se possa imaginar. Tudo isso antes de completar trinta anos. Convidei Amanda para morar comigo e ela aceitou sem pestanejar. Podíamos sair para jantar fora sempre que quiséssemos ou pedir nosso prato favorito via fone, substituído pelos atuais aplicativos, para facilitar a rotina de quem queria comer uma comidinha diferente e curtir a própria a casa.
Era a vida dos sonhos de qualquer um, até a crise econômica de dois mil e oito que atingiu o mundo inteiro em ondas sucessivas e em diferentes momentos para os países, com grave impacto no ramo imobiliário. As filiais da empresa em que trabalhava foram sumindo quase magicamente. Em um período de pouco mais de cinco anos, tudo havia mudado. A matriz, na qual eu prestava serviços, encolhia a olhos vistos e os cortes de pessoal tornaram-se constantes. Os colegas se olhavam a cada novo dia à espera de ver quem seria o próximo. Minha vez chegou numa sexta-feira de agosto. Chovia tanto que, apesar dela ou talvez por sua causa, caminhei pelas ruas a esmo, a sentir a água fria misturar-se com o calor que se derramava sem cessar em minhas faces e traduzia a impotência frente àquilo que me aguardava.
Amanda foi minha primeira perda, a que se seguiram a casa, a qual precisei vender e mudar para um imóvel simples na periferia. Logo depois foi a vez de desfazer-me do carro, o qual sem nenhuma perspetiva de emprego na minha área, não tinha como sustentar. Até experimentei ser um motorista de aplicativo, atividade que cedo percebi não era para mim, dirigir nunca havia sido meu forte.
Os recursos que amealhara diminuíam dia a dia e eu me via cada vez mais encurralado. Após algumas tentativas infrutíferas como vendedor, não tive outra alternativa a não ser comprar uma moto e me transformar num entregador de aplicativo, decisão para a qual fui sendo empurrado gradativamente.
Os votos de um 2020 próspero e feliz não se concretizaram para a maioria da população mundial. Junto com o brilho dos fogos e o tilintar das taças de espumante, um terrível fantasma espreitava silencioso. A angustiante pandemia de Covid-19, que afetou o planeta e deixou a todos confinados dentro de casa, fez com que os pedidos para atenderem as mais diversas necessidades das pessoas tivessem um aumento exponencial, por meio dos aplicativos. A nova crise econômica provocada pela pandemia causou desemprego em massa e muitos dos milhares que ficaram sem trabalho migraram para o setor. Um verdadeiro ET, era assim que me sentia desde que ingressara nesse mundo, não tinha nenhuma afinidade com os colegas, que me julgavam esnobe e com os quais não trocava mais do que algumas palavras indispensáveis para o exercício da função. Não participava de suas reuniões reivindicatórias por melhores condições de trabalho, das greves propostas, nem mesmo virtualmente. Um marginalizado em todos os sentidos.

O dia do acidente foi um marco para mim, quando várias barreiras se quebraram. A solidariedade dos colegas de profissão com meu infortúnio foi apenas uma delas, nada menos do que um divisor de águas, que faço questão de lembrar todos os dias.
Laura foi me apanhar no hospital. O estrago, além de alguns arranhões, tinha sido o tornozelo e dois dedos fraturados. Em casa, cuidou de mim, preparou nosso jantar e, logo após, acomodados no sofá, tomou minhas mãos e com um sorriso largo a iluminar seu rosto, deu-me a melhor notícia que poderia receber. Ser pai, um sonho antigo, vinha sendo adiado, mas a realidade ali estava e era boa demais, embora ainda não soubesse como iria enfrentá-la. Sem seguro saúde e ciente de que se não trabalhasse não entraria dinheiro, apesar das quase insuportáveis dores camufladas por fortes analgésicos, em menos de uma semana eu estava pronto para voltar à rotina de mais de doze horas diárias. Minha mulher fez o impossível para me demover da ideia, inutilmente. Não podia correr o risco de ser dispensado, sabia muito bem do batalhão de gente ávido por pegar minha vaga. Valia qualquer sacrifício para segurá-la. Além do que, agora tudo havia mudado, o maior desafio de minha vida estava a caminho e nesse eu não podia falhar.

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Inspiração

A obra foi inspirada na realidade atual e fomentada pelas crises econômicas e sociais dos últimos vinte anos. Tanto a crise de 2008 como a própria Covid19, que mudaram radicalmente a vida de muita gente.

Sobre a obra

É um trabalho que buscou refletir sobre as mudanças do mundo que afetam a vida de todos nós. Com minha experiência em Oficinas Literárias, utilizei das técnicas ali ensinadas para criar uma obra realista sem perder a poesia. Creio que o resultado atingiu seu objetivo com equilíbrio.

Sobre o autor

Escrever é vital para mim. Por meio da escrita reflito sobre o espaço em que vivemos e, ao mesmo tempo, sobre minha própria vida, fazendo uma conexão sobre os dois mundos. É uma atividade prazerosa e que me permite contribuir para que aqueles que lerem, façam o mesmo.

Autor(a): ROSA AMELIA FAGUNDES UBAL (Rosa Ubal)

APCEF/RS


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