Meio Século

Meio Século
Quando eu era criança, imaginava como seria minha vida com a chegada do ano 2000. Estaria prestes a completar meio século de existência. Naquela época, uma velhinha sentada em uma cadeira de balanço, envolta em um xale preto, a fazer tricô e a contar histórias aos netos.
Pois bem, eis que o tempo seguiu seu rumo, o que incluiu um casamento, três filhas, um bom emprego, uma separação e um assumir a vida por conta própria. Nada a reclamar, era grata pelos acontecimentos, podia finalmente decidir por mim mesma o que fazer ou não fazer.
Os donos do mundo também tomavam suas decisões, esquecidos de que milhões de pessoas dependiam delas. Eu não tinha condições de relacionar os fatos entre si, ou seus efeitos na minha vida. Eram tantas questões a decidir que, ingenuamente, pensava que fazia escolhas, sem desconfiar que outras escolhas, além de minha compreensão, se sobrepunham às minhas e me faziam caminhar por estradas, às vezes, bem íngremes.
Não pensava mais sobre a chegada dos anos dois mil da mesma forma como no tempo em que era criança. Afinal, vivia os acontecimentos e incorporava-os ao viver de cada dia. Até que, prestes a completar cinquenta anos, o mundo se viu perplexo pela queda das Torres Gêmeas nos Estados Unidos, no atentado que ficou conhecido como o Onze de Setembro. Uma explosão que sacudiu o mundo e o fez transformar-se no antes e depois dele. Um ato com uma simbologia impossível de ignorar, atingindo a vida de todos no planeta, .
Ao mesmo tempo, de forma inconsciente, essa mesma explosão se manifestava dentro de mim. Nove dias depois eu completaria meio século de existência e, embora não alcançasse o significado profundo de tudo aquilo, estava sendo afetada de modo irreversível. São os fatos a atropelarem nossa vidinha comum e sem graça, fazendo-nos refletir, mesmo que de modo incipiente, sobre o que acontecia ao redor, e pensar nos passos que deveríamos trilhar a partir de então.
Estava no quarto ano do curso de História e podia, portanto, ter uma maior noção do que aquilo representava para a humanidade como um todo. No entanto, as faíscas internas continuavam a piscar cada vez com mais frequência e me cutucavam para mudanças. Deixei meu coração tomar muitas das decisões daquele momento e não estava errada. Ele sempre sabe o que quer. Foram os melhores anos da minha vida.
A chegada do século XXI foi, sem dúvida nenhuma, nada parecida com minhas expectativas infantis. Superou em muito, tanto pelo fator tecnológico, com avanços nunca antes imaginados, como pela abertura de uma cortina a me mostrar a vida como ela é, com seus altos e baixos, sua beleza e crueza. A tomada de consciência de mim mesma e do próprio mundo me pegou, em alguma medida, de surpresa, mas também de braços abertos e me fez encarar novos caminhos que enriqueceram muito meu interior. Não me vi, como até hoje não me vejo, como uma velhinha sentada na cadeira de balanço a fazer tricô, mantido apenas o privilégio de contar histórias aos meus lindos netos.
O mundo muda a todo instante e isso é mais do que necessário, é vital para o crescimento do ser humano. No entanto, o que importa é cada um saber encontrar seu porto seguro, aquele lugar que traz estabilidade, independente do que esteja acontecendo ao redor. Sonhos? Tenho-os e muitos, e é isto que me faz acordar cada dia com vontade de viver e contribuir, de alguma forma, para tornar o espaço em que vivo mais acolhedor.

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Inspiração

A inspiração veio de minha própria vivência e das mudanças ocorridas no mundo, que afetam a vida de todos nós. Relacionei a passagem de meus 50 anos com o novo século, marcado pela queda das Torres Gêmeas, no que ficou conhecido como O Onze de Setembro.

Sobre a obra

Sou uma observadora contumaz da realidade e sua relação com nossa própria vida comum. Como frequentadora de Oficinas Literárias, aprendi diversas técnicas, que permitem um texto enxuto, mas que entrega um resultado claro, oportunizando uma reflexão profunda sobre si mesma e o espaço ao redor.

Sobre o autor

A escrita faz parte de minha vida desde longa data. Escrever me realinha com a realidade sem grande sofrimento, pois permite uma compreensão maior dela e como me adequar ao meio. É uma arte saudável que me proporciona muito prazer.

Autor(a): ROSA AMELIA FAGUNDES UBAL (Rosa Ubal)

APCEF/RS


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