Cotidiano

Cotidiano

Os pés deixaram o conforto das cobertas quentes e tocaram piso gélido, o choque dissipou sono e sonho.
Desviando dos móveis e atravancos conhecidos por anos de escuridão, chegou ao limiar. A porta aberta deixou apenas uma sombra sem vida esvair-se pelo vão e nenhuma existência adentrar.
Poucos passos e mais passagem rompida. Com a barreira afastada, o frio entrou e usufruiu do parco conforto que o casebre ofertava – o calafrio se acomodou – ela não.
Vestindo a camisola de saco alvejado, arrastando tamancos de solas carcomidas, enrolada em um xale de crochê herdado da mãe, começou a lida.
Quebrando a geada adormecida, dirigiu-se ao poço. A roldana enferrujada cantou sua triste melodia e presenteou a ouvinte com um balde carregado de lágrimas frescas.
Colheu ramalhetes de lenha.
Com os braços entorpecidos pelo frio e pelo peso da desconfortável do fardo, a mulher arqueada pela lida retornou ao artificial aconchego.
O espectro da noite ainda vagava pelos ambientes.
Alimentou o fogão com pedaços de madeira que em breve se tornariam carvão e aqueceriam o ar. Colocou uma chaleira com água para esquentar na chapa e ali mesmo depositou nacos de batata doce arrancados na véspera.
Com a função principiada, enfim permitiu-se um tempo para si. Com dedos pesados pelos calos, organizou os longos fios da cabeleira grisalha como quem trama uma coroa de louros. A trança feita e retorcida em coque singelo, encerrou seu frugal momento de vaidade.
Agora coberta por um surrado vestido de flanela, ainda abraçada à herança, retornou ao quintal. Jogou lavagem aos porcos, atirou milho às galinhas, tratou das vacas. Prendeu, alimentou e tocou levemente o pelo dos cães, era deles a única demonstração de brandura que a mulher conhecia. Caminhou equilibrando os ovos catados e o leite recém ordenhado.
Com o sol já a meio céu alimentou-se das batatas doces assadas e bebeu o café feito horas antes. Não estava mais só, o marido levantara-se e estava a aquecer-se à beira do fogão.
O galo aquietara-se e o silêncio retumbava. Seguiram para a lavoura. O único som entre o casal surgia quando, rápida e acidentalmente, os corpos se atritavam no ato mecânico do arrancamento das raízes da terra. Passaram horas na mudez da labuta de onde só retornaram quando já assombrados pelos primeiros espectros da noite.
Parte da colheita do dia descansava sobre a mesa em pratos trincados pela lembrança das refeições de outrora.
O homem saciado seguiu para o quarto.
A mulher lavou-se com a delicadeza de uma jovem noiva em pleno devaneio e seguiu, deslizando pela escuridão já conhecida, até adentrar no gélido quarto de amante.

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Inspiração

A vida das mulheres da geração das minhas avós.
As mulheres nascidas no início do século passado viveram experiências pesadas e impensáveis. Aliás, meus textos adultos refletem muito do mundo da mulher de hoje e de ontem, mulheres que construíram o mundo que habito. Hoje, se tenho voz no mundo, é resultado da luta silenciosa de muitas mulheres.

Sobre a obra

É um pequeno conto.
O espaço restringe-se à casa da mulher e seu quintal, ambiente de extrema riqueza literária.
A narrativa apresenta apenas dois personagens, a mulher e seu cotidiano de servidão, e o homem e seu cotidiano de ser servido.
Apresento termos comuns ao início do século passado, fonte de inspiração da história.

Sobre o autor

Trabalhei quase trinta anos na Caixa e escondida, por timidez e vergonha, escrevi muitas histórias. Ao me aposentar, resolvi escancarar para o mundo a minha vida literária, foi quando comecei a participar do Talentos FENAE. Hoje a escrita faz parte do meu cotidiano de mulher idosa que ama bichos. Meu sonho é ganhar um Jabuti e um Talentos Nacional.

Autor(a): LILIAN DEISE DE ANDRADE GUINSKI (Lilian Guinski)

APCEF/PR