RIVALIDADES


Rivalidades

Os dias normais eram os dias agitados. Quanto mais agitado, mais normal. Mas aquele, começava relativamente calmo, fugindo da rotina. Helena fez alguns apontamentos no prontuário dos seus pacientes e em seguida dirigiu-se para o quarto 401. Quando ela transitava pelos corredores do hospital instintivamente sabia que muitos olhares a seguiam. Médicos, enfermeiros e funcionários sequer podiam manter a naturalidade diante daquela musa que, ao vestir o jaleco branco, parecia cobrir seu corpo com uma pele de anjo. A enfermeira era alta e, os cabelos ao deslizar pelos seus ombros, lembravam uma cachoeira quando passavam rente aos seus olhos azuis. Ela entrou no quarto do SUS que, apesar de ser coletivo, havia apenas um paciente:
- Bom dia Seu Antenor! – Cantarolou Helena ao mesmo tempo que tomou o braço do paciente para verificação dos sinais vitais.
Ficou triste pois percebia que apesar da pressão e temperatura estarem normais, ele não estava muito animado. Nem a beleza divina daquela enfermeira conseguia arrancar uma emoção sequer daquele ser inerte.
Naquele instante, uma camareira entrou no quarto completamente calada e arrumou o leito ao lado do seu Antenor. Assim que ela se retirou, dois enfermeiros entraram com uma cama articulada trazendo um novo paciente. A pneumonia estava agravada no novo integrante do quarto, mostrando um quadro desfavorável. Uma máscara de oxigênio cobria seu rosto e Helena via as gotinhas do soro deslizarem suavemente pelo manguito, como soldados a defender um território. Lentamente removeu a máscara do paciente, e falou o seu nome em voz alta para confrontar com prontuário que estava pendurado por um clipe na parte metálica da cama.
- Seu Valdir Fagundes! Bom dia, tudo bem?
- Bom dia – respondeu pausadamente, com voz rouca e cansada e com os olhos semicerrados pelo cansaço e pela doença que lhe acometia.
- Filho da puta! – Resmungou Antenor ao lado.
A enfermeira considerou ser alguma alucinação de Antenor considerando seu estado de saúde e questão emocional. Sendo assim, retirou-se. Voltaria dentro de uma hora.
Na sala dos enfermeiros, aos poucos iniciava a movimentação e a troca de plantão. O café, mesmo na pressa, era como gozar de umas férias de 10 minutos, um revigorante e um motivador para alguns assuntos rápidos entre os agentes de saúde. Porém, um sinal sonoro acompanhado da indicação do quarto, acionado pelos pacientes, faziam que, de tempos em tempos, a enfermagem se deslocasse para alguma emergência ou procedimento necessário, interrompendo assim, a tão merecida pausa. A luzinha, acompanhada do ruído da campainha, piscava insistentemente no número 401, chamando a atenção de Helena, mas ela considerou não ir imediatamente, já que havia saído de lá há poucos instantes, seus internados apresentavam um quadro estável e obviamente não queria abandonar seu cafezinho.
Mas os gritos se intensificaram e fizeram com que a enfermeira esquecesse os prontuários e o revigorante e se dirigisse rapidamente até o quarto. Seu Antenor gritava com a força dos pulmões de uma pessoa normal.
- Ele se mijou, tirem esse porco daqui!
- Seu Antenor Figueiredo, o que está acontecendo? – Falou a enfermeira em voz bem alta.
Ao ouvir o nome ”Antenor Figueiredo” o paciente ao lado abriu os olhos e removeu bruscamente a máscara que lhe fornecia o ar tão necessário e enérgico como um rapaz de dezoito anos, gritou:
- Prefiro morrer! Me tirem daqui. Não quero ficar ao lado desse animal!
Ambos se movimentavam e gritavam afervorados, sob os olhares curiosos dos enfermeiros. Não tardou para que algazarra proporcionasse um ajuntamento de outros funcionários do hospital.
O motivo do bate-boca foi prontamente elucidado pelo Seu Alfredo, porteiro há mais de vinte anos na instituição, afinal ele conhecia Deus e todo mundo:
- Minha Nossa Senhora dos Pagos do Rio Grande! Vocês não sabiam que o Seu Antenor e o Seu Valdir Fagundes eram inimigos mortais? Eram dois vizinhos e a peleia foi grande por causa da demarcação dos terrenos. Para piorar, um era ximango e o outro era maragato, um era colorado e outro gremista.
O alarido se intensificava e a providência imediata foi transferir seu Valdir para outro quarto, ou melhor, para outra ala. Quanto mais distantes, melhor, concluíram os funcionários. Enquanto a camareira preparava a mudança, a guerra verbal continuava.
- Tá olhando quê? A bunda da enfermeira? Não tem respeito? – Berrava Seu Valdir com vitalidade, onde os manguitos do soro se balançavam como tivessem vida própria. Referia-se obviamente aos olhares que seu adversário dirigia à enfermeira.
- Pelo menos eu gosto disso, mas tu, não sei não!
Agora eles já estavam se preparando para levantar, partindo para as vias de fato, ou seja, um confronto físico, mas a evento sequer iniciou pois foi imediatamente impedido pelos empregados. Em seguida Seu Valdir foi para outro leito. Interessante o fato do paciente ter chegado numa maca e de repente poderia estar se movimentando por conta própria, concluía Helena. A calmaria retornou aos poucos, tal qual deveria ser um ambiente hospitalar.
Quinze dias se passaram e o quadro dos dois pacientes rivais não apresentou evolução nem regressão. Helena observava com tristeza seu Antenor e mesmo com os sinais estáveis ele parecia não querer mais continuar sua luta pela melhora. Apesar do leito do outro paciente ficar noutro espaço, Helena fazia uma rápida visita. Coincidência ou não, o quadro era praticamente o mesmo. Saúde física estável, melhora nos pulmões, porém o desânimo estava enraizado naquele corpo.
Apesar das visitas de familiares serem escassas para os dois rivais, Helena não deixava de coletar informações sobre o entrave. Os pensamentos da enfermeira voltavam-se para o dia em que eles se encontraram no 401.
-Talvez se... – Pensou ela – Não, não... seria desumano... mas pensando bem... e se...
No dia seguinte, aproveitando a agitação do hospital a enfermeira transferiu seu Valdir para o mesmo quarto do seu Antenor, mesmo sob protestos de alguns de seus colegas. Assim que ambos se encontraram, como era de se esperar, recomeçou a agitação. Logo os dois se exaltaram e exibiam um vigor de dois gladiadores numa arena. Agora, sob os olhares curiosos dos colegas, Helena verificava a pressão, oxigenação e batidas cardíacas dos rivais registrando um quadro de normalidade. Sendo assim, separou-os novamente de quarto. Alguns dias se passaram e desânimo voltou a reinar sobre os rivais. Enquanto isso Helena prosseguia no seu plano. Todos os dias sussurrava no ouvido de seu Antenor e de seu Valdir as mesmas frases.
- Ele está disposto a fazer as pazes contigo. Gostaria de lhe perdoar por tudo que aconteceu. Gostaria que no horário das visitas as famílias se encontrasse e comemorassem uma reconciliação.
Percebia que ambos, gradativamente, concordavam e assim, algum tempo depois marcou o mesmo horário de visita com os integrantes de cada família e transferiu novamente seu Valdir para o quarto 401.
Aquele momento foi único e marcante. Os pacientes se abraçaram, seus familiares aplaudiam, um bolo para comemorar e muita palmas pela cena cinematográfica que se mostrava ali. Só faltou a imprensa local, mas o diretor do hospital assistia tudo com entusiasmo e emoção. Em pouco tempo os pacientes estavam restabelecidos e deram alta.
Uma semana depois o diretor da instituição convocou todos os funcionários para uma reunião e um comunicado importante. Suas palavras eram direcionadas à Helena, que naquele momento, estava sendo nomeada como a enfermeira chefe do hospital, ovacionada por sua atitude proativa, criatividade, capacidade de percepção e preocupação com a saúde física, mental e social dos pacientes. Enquanto isso, em meio aos aplausos, a enfermeira Rejane, mais antiga que Helena, engolia a seco, se remoía por dentro, espalhava fúria em cada poro de sua pele pela escolha injusta, já que era funcionária mais antiga, também prestava excelentes serviços à instituição, mas não tão bela quanto à futura chefe. Tecia a cada instante um plano diabólico para puxar seu tapete e a cada dia que saía do hospital, a rivalidade se espalhava tomando conta de seu corpo e espírito.














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Inspiração

Uma análise de comportamento humano. O que move um ser humano? O fim justifica os meios? O comportamento social é um estudo infindável.

Sobre a obra

Relacionamento humano e social sempre são temas que fico remoendo. A partir daí surgiu este relato.

Sobre o autor

Colega aposentado, com gosto pela literatura.

Autor(a): ILBERTO LUIS TRENTIN (ilberto trentin)

APCEF/RS