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UMA NOITE QUASE PERFEITA
UMA NOITE QUASE PERFEITA
Uma noite fria. O casal de empresários bem-sucedido parecia deslizar pelo saguão. O cenário era amplamente iluminado e as velas nos castiçais conferiam maior pomposidade à cena. As paredes eram revestidas de cores claras, o porcelanato refletia as imagens caminhantes, e o teto alto suspendia enormes e magníficos lustres numa tentativa de transformar uma noite simples de lua e estrelas em dia claro.
O casaco que ela vestia era de pele de vison e fazia movimentos próprios no intuito de exibi-lo aos demais. O cabelo, de cor clara e encaixado, foi resultado de uma tarde inteira no salão de beleza. Os sapatos de salto agulha eram de couro legítimo.
Ele, por sua vez, mostrava impecáveis sapatos, terno e gravata, juntamente com um semblante sério, mas que por vezes, exibia um sorriso incontido, afinal, este era um momento especial.
A cadeira para a formosa dama sentar foi movimentada pelo garçom, isentando-a de qualquer esforço adicional. À medida que os demais convidados chegavam para o jantar aumentava o burburinho e na mesma intensidade, a satisfação de tão nobre casal e protagonistas do encontro.
O vinho servido era de uma safra especial. A vinícola Bodeguita exibia com orgulho sua bandeira de dispor para uma pequena elite, o vinho mais fino e caro do país. Como o mesmo orgulho, o par brindava em seus cristais o precioso líquido. O carpaccio foi levado à mesa logo em seguida e o foie gras, que era o prato principal. Apesar deste último item não ser muito bem-vindo pelo paladar da mulher, tratava-se da opção mais onerosa e extravagante, afinal, momentos como esse, sempre são intensos e inevitavelmente levam à extravagância.
A noite, por sua vez, evoluía e na sequência um quarteto de cordas coroava o evento. Os olhares e as conversas eram direcionados para aqueles que eram o centro das atenções, deixando o momento sublime. Uma noite perfeita.
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A fêmea de vison era retirada à força de sua minúscula gaiola. Os olhares curiosos e úmidos de seus filhotes ao lado pareciam adivinhar que sua genitora não voltaria mais. Debatiam-se em protestos inúteis até que o cansaço e a tristeza os venceram. De fato, em breve, a pele da fêmea revestiria os mais belos casacos das mais belas mulheres da alta sociedade.
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O empregado da Bodeguita circulava livremente pelos espaços na sombra dos parreirais. As melhores safras dependiam de seu cuidado extremo junto à plantação. O olhar paralisado de um gambá o fez tomar uma rápida providência. A paulada foi seca e certeira em sua cabeça. Os filhotes que carregava no dorso se desprenderam e estes, sem entender o que estava acontecendo, rodeavam a genitora e a viam se contorcer de dor, convulsionar e agonizar. A segunda pancada tirou sua vida definitivamente. Alguns filhotes que insistiam em ficar ao lado da mãe também foram vítimas do ataque. De qualquer forma a parreira estava a salvo e proporcionaria uma safra magnífica naquele ano e a empresa serviria nas mesas mais requintadas o melhor e mais fino tinto cabernet sauvignon.
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O jovem ganso batia suas asas pedindo espaço para voar e nadar, mas as grades o impediam. Havia algo errado. Sua natureza suplicava por uma área maior. Num movimento brusco um homem abriu sua jaula e o agarrou pelo pescoço. Os gritos pararam quando o agressor introduziu uma sonda de metal em seu bico e a deslizou pelo pescoço. O animal sentiu uma dor lancinante, mas sequer pôde gritar para amenizá-la. Mas o sofrimento não foi apenas naquele momento. O depósito de alimento forçado em seu sistema digestivo fez com que seu fígado aumentasse absurdamente de tamanho. Também, quem suportaria comer 10 kg a mais durante um único dia? De qualquer forma a indústria produzia o melhor e mais procurado foier gras do mercado que serviria as mesas da mais fina elite da sociedade.
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Assim que acabou de mamar o bezerro foi separado de sua mãe. Sentiu imediatamente a falta em esfregar seu corpo junto ao dela. Via os campos verdes e outros animais correndo livremente, mas o confinamento o impedia de compartilhar tal ato. Aos poucos, suas patas que deveriam ser fortes, definhavam. Engordava a cada dia numa progressão geométrica. Desistiu de debater-se junto às grades. Era inútil. Pouco tempo depois foi retirado à força do cubículo sob o olhar triste e úmido da mãe. Ela sabia. Ele sentiu a primeira martelada na cabeça e depois tudo escureceu. Ainda sentiu a faca penetrar no vão de suas costelas e, à medida que o sangue escorria, tudo se apagava. Em seguida sua carne foi destinada para servir os melhores e mais macios carpaccios para os mais requintados restaurantes.
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O casal empanturrou-se. Mesmo o estômago suplicando que o suprimento estancasse, a boca e a língua continuavam a enviar o bolo alimentar. Duas garrafas do tinto não pareciam suprir a satisfação alcoólica.
O quarteto de cordas tocou Mozart como Grand Finale, sinalizando o fim do evento. Os demais despediam-se dos protagonistas do evento, mostrando uma imensa satisfação pelo encontro.
Uma noite perfeita, se a mulher não tivesse vomitado, emporcalhando os bancos e tapetes da nova BMW. O homem, por sua vez, justificado pelo torpor alcóolico, agredia física e psicologicamente sua companheira. Seus movimentos intensos e abruptos não eram favoráveis para a sua digestão. Em seguida ele sentiu um embrulho no abdômen, não contendo a tempo a diarreia que veio como uma cascata deslizando por suas pernas e a parte interna do carro. Enfim, uma noite quase perfeita.
Inspiração
VER O SOFRIMENTO ANIMAL ME TOMA DE COMPAIXÃO. TALVEZ ESSAS PALAVRAS SIRVAM DE ALENTO PARA O SER HUMANO SABER E PENSAR A RESPEITO.
Sobre a obra
ATRAVÉS DE UM RELATO TENTO SENSIBILIZAR E MOBILIZAR AS PESSOAS SOBRE OO SOFRIMENTO ANIMAL.
Sobre o autor
MÚSICO, COMMPOSITOR, ESCRITOR. GOSTO DA ARTE DA ESCRITA. ELA RENOVA NOSSAS VIDAS, DÁ ESPERANÇA E FÉ.
Autor(a): ILBERTO LUIS TRENTIN (ilberto trentin)
APCEF/RS