O LIVRO

Aline pertencia a uma família simples. Era filha única e cresceu muito sozinha. Seu único amigo era o Francisco, filho do melhor amigo de seu pai, que estava sempre ao seu lado quando ela mais precisava. Seu pai morreu quando ela tinha dezesseis anos, deixando Aline e a mãe em situação precária. Por sorte, um professor arrumou emprego para ela em seu escritório de contabilidade.
Ela logo se destacou no trabalho, mas não era valorizada. Após terminar a faculdade, foi contratada por uma grande empresa de consultoria contábil, mas os problemas eram os mesmos: ela era explorada, não era chamada para as reuniões e nunca era convidada para os eventos. Quando o gerente da maior conta do escritório, aquela em que Aline trabalhava duro, foi convidado para trabalhar numa empresa maior, ela sequer foi chamada para a festa de despedida.
Aline se dedicou ainda mais àquela conta e ninguém sentiu falta do antigo gerente. Estava confiante que seria promovida a gerente da conta, mas não foi isso o que aconteceu: uma tal de Bárbara foi contratada para o cargo.
Aline saiu do escritório inconformada. No ponto de ônibus, as lágrimas desciam por seu rosto. A tristeza tomou conta do seu coração de uma forma que nunca havia acontecido antes. Foi quando notou, ao seu lado no banco, um livro muito bonito de capa dura, vermelha com detalhes em dourado, e um título muito sugestivo: Como Prosperar Rapidamente. Aline não conhecia o autor: M. Erhaatz. Ela sempre foi fascinada por livros, olhou para os lados e, como não havia ninguém por perto, colocou o livro dentro da mochila.
Chegou em casa e sentou-se para relaxar. Esticou o braço para pegar o controle remoto e percebeu que o livro estava ao seu lado no sofá. Não se lembrava de tê-lo tirado da mochila. Seu cérebro estava pregando peças. Folheou o livro e viu a dedicatória: “Para todos aqueles que não possuem o que merecem”. Logo no primeiro capítulo, percebeu que tinha muito a aprender:
“Capítulo 1 - A Aparência:
A aparência deve ser uma ferramenta para criar a percepção de como você quer que as pessoas a vejam. Quando você entra em um ambiente, a primeira coisa que as pessoas notam é o que você está vestindo. Dicas preciosas:
1. Coloque o seu guarda-roupa à altura da posição que almeja. Como você se veste revela quem você quer ser no mundo.
2. Detalhes são essenciais: nada impressiona mais do que um relógio de marca, sapatos caros, bolsas de grife e um cabelo perfeitamente arrumado. Até o perfume é fundamental”.
No dia seguinte, Aline acordou cedo, foi ao shopping e gastou uma quantia indecente no cartão de crédito comprando roupas e acessórios de marcas famosas. Depois foi ao salão de beleza. Gastou em um único dia mais do que havia gastado a vida inteira. A chegada dela no escritório foi digna de cinema, com todos virando a cabeça à sua passagem.
Ela sabia que tinha ganhado pontos, mas aquela era apenas a jogada inicial. Infelizmente, não teve tempo para comemorar. Recebeu um telefonema que a deixou arrasada. Sua mãe tinha sido diagnosticada com um câncer muito agressivo. Tomou um calmante e foi dormir.
“Capítulo 2 - A Atitude:
Depois que as portas estiverem abertas, você será analisado pela sua atitude. Se você souber usar a imagem a seu favor, poderá enganar até a si mesmo. Dicas preciosas:
1. Seu olhar e seu sorriso devem refletir sua autoconfiança. Acredite tanto em sua própria imagem que os outros vão acreditar também. A atitude de sucesso atrai o real sucesso.
2. Nunca mostre suas cartas. Mantenha seus verdadeiros planos em segredo e revele-os apenas nos momentos-chave.
3. Faça aliados poderosos. Não gaste seu tempo com quem não interfere nas decisões. Frequente os ambientes da chefia.
4. Nunca mostre vulnerabilidade. Esconda qualquer fraqueza emocional ou profissional, criando uma fachada imbatível.
5. Dê presentes e faça favores como forma de criar dívidas emocionais ou materiais. Nunca se sabe quando você vai precisar de uma barganha.
6. Alimente desentendimentos, crie pontos de tensão na equipe e depois surja como conciliador, assim, você consegue se manter no controle e estará sempre no centro das atenções.
7. Sempre tenha um plano de contingência para, se algo der errado, você poder sair da linha de fogo”.
Nos dias que se seguiram, Aline colocou em prática as dicas do livro e logo passou a ser notada, elogiada e convidada para as reuniões. Começou, então, a planejar a próxima cartada: tomar de Bárbara a gerência da conta.
Foi decepcionante perceber a facilidade com que conseguiu expor a fragilidade de Bárbara, que era viciada em academia e sua meta era ficar com o corpo definido. Ela saía durante o horário do expediente para treinar e negligenciava horários e prazos. Bastou que Aline parasse de tomar a frente dos projetos, para que notassem a negligência de Bárbara, que acabou sendo afastada da gerência da conta.
O nome de Aline, dessa vez, surgiu com facilidade. A promoção foi confirmada e, para comemorar, ela resolveu chamar Francisco, seu velho amigo, que ela não via há muito tempo. Marcaram encontro na pizzaria preferida dos dois. Francisco havia mudado bastante: estava mais forte e deixou crescer um cavanhaque sensual, que valorizava a sua pele morena. Também parecia menos tímido e mais seguro de si, o que o deixava ainda mais atraente.
— Meu Deus do céu! O que é isso? Uma nova mulher?
— Eu tive que me adaptar à minha nova empresa. Você também está bem diferente!
O abraço que se seguiu também havia mudado. Ele sempre foi como seu irmão, mas agora Aline não poderia enquadrar o que sentia como algo fraterno. Assuntos não faltaram, pois tinham que atualizar quase dois anos de acontecimentos.
— Gerente de conta? Que maravilha!
— E você? Continua trabalhando no hospital?
— Não, agora estou no resgate de ambulância.
No fim da noite, estavam cansados de tanto falar. Na porta de casa, Aline se virou para o beijo de despedida, mas as bochechas se desencontraram e os lábios se tocaram. O beijo que se seguiu foi longo e sensual. Eles não precisavam de muitas palavras. Entraram no apartamento de Aline se beijando e tirando as roupas. Chegaram ao quarto tropeçando nas peças que ficavam pelo chão. O sexo que se seguiu foi magnífico. Uma orgia sensual que eles jamais esquecerão.
A manhã seguinte foi a mais feliz da vida de Aline. Tomaram café juntos e se amaram mais algumas vezes. Aline foi trabalhar sem vontade. Ao fim do dia, porém, teve a infeliz notícia de que a casa dos seus avós havia sido destruída em um incêndio. Precisou ir até lá para resolver as questões legais juntamente dos primos.
“Capítulo 3 - O Poder Sexual:
O mundo é feito de oportunidades. O poder sexual pode ser uma forma de se conectar com as pessoas certas. Se você souber quando e como usar o sexo como ferramenta, poderá alcançar mais rápido seus objetivos. Dicas preciosas:
1. Observe os gostos pessoais de quem realmente toma as decisões e veja em qual deles você se encaixa.
2. Alimente o ego do poderoso mais vulnerável e faça-o achar que você o admira e deseja. No mais, é só estar nos lugares certos e nas horas certas.
3. Os momentos íntimos são os melhores para “plantar" ideias que te favorecem e os melhores para descobrir ações que estão sendo planejadas nas esferas superiores da empresa”.
Aline não era nenhuma puritana, mas aquele capítulo despertou um alerta em sua mente. Decidiu pesquisar sobre a obra. A única coisa que encontrou foi uma referência a um livro cujo título era: A Origem de Merhaatz, e resolveu ir até a biblioteca verificar. Entre as prateleiras ao fundo da biblioteca, estava o livro com a capa de couro bastante desgastada. Suas páginas amareladas pareciam carregar o peso de histórias esquecidas ao longo dos séculos, e o texto era estarrecedor:
“Merhaatz nasceu da cobiça que brotou nos corações dos homens nos primórdios do mundo, quando as primeiras relações humanas foram formadas. Ele é uma entidade incorpórea que observa e descobre os pontos fracos de seus alvos, como desejos e ambições. Ele tem o poder de assumir a forma que mais atrai a sua presa e, então, ataca e se alimenta de sua ganância, como um parasita.
Através dos séculos, Merhaatz se infiltrou em momentos da história humana, induzindo homens e seduzindo reis. Entretanto, a vítima nota, com o tempo, que a cada conquista, segue-se uma perda de valor imensurável. Grandes riquezas são seguidas por um colapso familiar. Grandes potências políticas assumem o auge e são destruídas por grandes guerras.
O que torna Merhaatz uma entidade tão perigosa é a sua capacidade de se camuflar como algo necessário. Ele não se apresenta como algo maligno e faz com que as vítimas se sintam merecedoras do que estão ganhando. Porém, a presa fica ligada à Merhaatz até a morte, quando ele volta a habitar as sombras, esperando pela próxima vítima que, em seu momento mais vulnerável, será atraída pela promessa de riqueza ou poder.”
Aline tremia ao terminar de ler. Foi uma mistura de sentimentos: a vergonha por ter se rendido tão facilmente, a tristeza por ter embarcado nisso tudo sem pestanejar e a raiva por não ter percebido desde o início que era um golpe. Adotar o formato de um livro foi realmente perfeito, pois ela sempre adorou livros. E ela teve ganhos seguidos de perdas, assim como foi descrito. Fotografou as páginas e voltou para casa com a mente em turbilhão.
Assustada com o que havia lido, resolveu destruir o livro. Jogou-o na caçamba de um caminhão de lixo quando era acionado o triturador, e testemunhou a capa vermelha ser destruída. Porém, no dia seguinte, ao despertar, o livro estava na sua mesa de cabeceira, como Aline costumava deixar. Depois, colocou-o no banco de ônibus onde foi achado, na tentativa de passar a maldição adiante, mas, no dia seguinte, lá estava ele novamente.
Aline, então, decidiu que bastaria parar de seguir as dicas do livro. Tentou voltar a ser a Aline de antes, mas a sua nova imagem já estava consolidada nas mentes de todos, e ela própria já tinha assumido parte da nova personalidade. Não demorou a ser assediada pelo vice-presidente, que insinuou que ela poderia ser promovida a diretora, caso se conhecessem melhor. Ela se fez de desentendida, mas ele marcou uma viagem de trabalho com ela. No hotel, ele apareceu à noite com uma garrafa de vinho branco, e Aline cedeu. Ele era um homem interessante, foi uma noite sensual, e ela teve que admitir que gostou da experiência, mas, no dia seguinte, acordou envergonhada. Quando retornaram à empresa, ela foi promovida a diretora e se mudou para uma cobertura próxima ao trabalho. A alegria, porém, durou pouco: no fim daquele mês, recebeu a notícia do falecimento de sua mãe.
Uma noite, Francisco a aguardava na cobertura e viu pela janela quando ela chegou do trabalho acompanhada do vice-presidente, que a beijou, sem cerimônia. Francisco ficou profundamente decepcionado, foi embora e nunca mais a procurou. Perder Francisco foi a gota d’água. Aline decidiu ler o último capítulo do livro.
“Capítulo 10 - O Líder de Governo:
Um grande líder não precisa ser amado, e, sim, temido. Ao assumir um cargo de liderança, você deve governar com pulso firme e mostrar que sua palavra é a única que importa. Seus aliados não são leais por amor, mas pelo que podem ganhar. Todos têm um preço ou um ponto fraco. Dicas preciosas:
1. Unifique a nação por meio da ordem absoluta e concentre todo o poder em suas mãos. A liberdade induz o caos.
2. Invista em educação moralista, a partir da qual as crianças são educadas para respeitar cegamente as autoridades e denunciar pensamentos perigosos.
3. Promova a transparência seletiva, mostrando ao povo apenas o que ele precisa ver.
4. Crie heróis nacionais e símbolos de obediência ao regime, para que o povo possa se espelhar.
5. Eleja um inimigo externo, real ou fabricado, pois a guerra é um ótimo elemento de distração e reforço de poder”.
Desesperada, ela decidiu abrir-se com Francisco, a única pessoa em quem confiava. Ele demorou a acreditar na história, mas resolveu ajudá-la. Após ler as páginas fotografadas de A Origem de Merhaatz, concluiu que só havia uma forma de se livrar do livro: ela precisava morrer.
— Como assim morrer, Francisco?
— Nessa página fica claro que a presa permanece ligada a Merhaatz até a morte — disse ele, apontando para a foto da página.
— Eu li essa parte, mas eu não quero morrer — respondeu Aline, começando a chorar.
— Nem eu quero que você morra, mas, se é preciso morrer para se livrar disso, você vai ter que morrer.
Aline olhava incrédula para Francisco quando ele completou:
— Mas, depois que você morrer, eu vou te ressuscitar. Eu tenho toda a aparelhagem necessária na minha ambulância.
O plano era perigoso, mas Aline precisava tentar, pois não estava disposta a perder mais nada de importante em sua vida. Francisco injetaria um remédio que causaria uma parada cardíaca, destruiria o livro e, depois, usaria o desfibrilador para ressuscitá-la.
No dia marcado, foram para um local isolado, e seus olhares se encontraram, cheios de dúvidas:
— Vamos seguir com o plano. Eu confio em você e sei que vai conseguir me trazer de volta — disse Aline, tentando parecer tranquila.
Francisco injetou a substância em Aline. Após confirmar a parada cardíaca, queimou o livro. Voltou para a ambulância, pegou o desfibrilador e iniciou os procedimentos. A vida dela estava em suas mãos.
Primeiro choque. O corpo dela arqueou, mas o visor permaneceu inerte.
Segundo choque. Nada.
Terceiro choque. A esperança se esvaía dos seus olhos.
Quarto choque.
— Volta pra mim… por favor!
Então, no quinto choque, um bip. O monitor piscou. Um sinal, depois outro. Aline voltou à vida, e ele finalmente respirou.
No dia seguinte, logo cedo, Francisco entrou no quarto de Aline. Ela despertou e olhou para a mesa de cabeceira. O livro não estava ali.
— Nós conseguimos! — disse ela, emocionada.
— Seria bom se você se livrasse de tudo o que conseguiu com as dicas do livro.
— Sim. Preciso refazer a minha vida. Você, um dia, será capaz de me perdoar? — Aline segurou as mãos de Francisco, com os olhos marejados.
— Quando a verdadeira Aline voltar, creio que poderemos recomeçar.
Aline abraçou Francisco. Sempre haveria espaço para um recomeço, no qual ela poderia escrever a sua própria história, cujo primeiro capítulo ela ainda não sabia como iria começar.
Enquanto isso, num bairro próximo, Bárbara treinava na academia. Ela continuava viciada em treinar mas, após perder a gerência da conta, estava mais atenta aos horários e prazos. Porém, assim que conseguisse o corpo perfeito, pretendia investir na carreira de influencer fitness e largaria aquele emprego. Seu personal trainer estava ao seu lado com ar entediado e, por conta dessa displicência, ela andava pesquisando aplicativos fitness na internet.
Quando chegou em casa, um aplicativo chamou sua atenção. O nome era Foco Fitness, e o slogan dizia: “Como obter um corpo perfeito rapidamente”. Bárbara não conhecia a empresa desenvolvedora: Mer Haatz.

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Inspiração

O conto “O LIVRO” nasceu da minha inquietação como observadora de um mundo em que tanto se busca riqueza, poder e padrões de beleza inalcançáveis. Eu sempre imaginei como seria o desempenho de uma entidade que não precisa de armas para destruir, mas apenas do seu poder de persuasão.

Sobre a obra

“O LIVRO” combina fantasia sombria, suspense e crítica social. Uma mulher injustiçada encontra um livro que promete sucesso, mas descobre que está sob a influência de uma entidade que se alimenta da ambição humana. A narrativa explora a transformação da protagonista e reflete sobre até onde uma pessoa pode ir para obter o que deseja.

Sobre o autor

Sou bacharel em Ciências Estatísticas e pós-graduada em Gestão Estratégica. Atuei na Caixa por 34 anos e atualmente me dedico integralmente à paixão pela escrita, explorando diferentes gêneros literários. Sou autora de um livro de poesias, um livro de contos e dois livros infantis. Meu primeiro romance será lançado na Bienal do Livro SP 2026.

Autor(a): MARIA PAULA CARDOSO GUIMARAES DOS REIS (Paula Reis)

APCEF/RJ