A ONDA

Nazaré tinha um sonho recorrente com uma onda. Inicialmente, a onda enorme se formava no horizonte, e ela, nadando na praia, tentava, sem sucesso, sair da água, que a puxava para o fundo com força proporcional ao tamanho da onda que estava se formando. A onda se aproximava, e o tempo parecia desacelerar enquanto seu coração batia loucamente. A enorme parede de água salgada se erguia, imponente, como uma muralha. Não dava tempo para fugir. Quando a onda a atingia, a enorme força fazia Nazaré rolar como se estivesse num redemoinho. A água entrava pelas narinas, pela boca e pelos ouvidos. Seus pulmões sufocavam e tudo virava escuridão. Então, Nazaré acordava, suada e nervosa.
Na terapia, que fazia há alguns anos, ela comentou do sonho recorrente, e a psicóloga fez uma analogia da onda com os seus medos, que precisavam ser superados. Sugeriu que, no próximo sonho, ela nadasse em direção à onda, em vez de tentar fugir, para poder passar por ela antes de quebrar, evitando, assim, tomar o “caldo” gigante que sempre a sufocava.
O próximo sonho surgiu logo em seguida. Eles estavam cada vez mais frequentes. Nazaré, então, resolveu agir como a psicóloga sugeriu e, forçando a mente para intervir no roteiro do sonho, nadou em direção à onda com a intenção de encará-la e vencê-la. A onda se aproximou, alta e ameaçadora. Seus músculos sentiram, mas ela continuou nadando. Cada braçada exigia muito mais. Seu topo já começava a curvar e espumar. Era tudo ou nada. Nazaré se deixou ser tragada pela força que a puxou para cima, e, de repente, ela estava na crista da onda gigante. Seu coração explodiu, com uma mistura de medo e prazer por ter conseguido desafiar o seu maior medo. Por um instante, ela sentiu que fazia parte daquela força. Então, Nazaré acordou suada, mas com a sensação de dever cumprido. Após ter vencido a onda, Nazaré nunca mais sonhou com ela, como se realmente tivesse superado aquele obstáculo.
Um dia, Mariza, sua amiga do trabalho, comentou que precisava viajar para Portugal para resolver uns problemas com a herança de sua mãe portuguesa. O inventário da tia falecida havia terminado, e sua mãe era muito idosa e não podia viajar para assinar os documentos. O marido, que inicialmente iria acompanhá-la, estava com problemas no trabalho e não poderia mais viajar com ela. Ela estava muito triste e temerosa, pois nunca havia feito uma viagem internacional sozinha. Nazaré, que já estava na época de tirar férias, se dispôs a acompanhá-la, pois sempre desejou conhecer Portugal. Mariza ficou muito feliz com a companhia, e Nazaré estava muito animada com a oportunidade.
Correu tudo bem na viagem e, em Lisboa, Nazaré pesquisou por passeios e escolheu um que passava por Óbidos, Nazaré e Fátima, cidades que ela queria muito conhecer. Ela era muito devota de Nossa Senhora de Fátima e de Nossa Senhora de Nazaré. Inclusive, seu nome foi dado em sua homenagem. Em Óbidos, se encantaram com a arquitetura medieval bem preservada e com a atmosfera encantadora da cidade, cercada por muralhas, vistas panorâmicas e suas lindas ruas estreitas e sinuosas. Em Fátima, puderam rezar e agradecer por tudo o que conquistaram, inclusive aquela maravilhosa viagem. Na cidade de Nazaré, se emocionaram muito na gruta de Nossa Senhora de Nazaré, que é o local original onde a imagem da Virgem era venerada, antes da construção da Ermida da Memória.
Estava na temporada de ondas gigantes, que podem atingir mais de trinta metros de altura e que só a cidade de Nazaré possui, devido à existência de um cânion submarino. A cidade estava apinhada de surfistas audaciosos e turistas ansiosos por testemunhar aquela enorme força da natureza. O passeio nem estava nos seus planos, mas acabaram indo visitar o Forte de São Miguel Arcanjo, que fica entre o Sítio da Nazaré e a Praia do Norte, permitindo uma vista panorâmica da praia e das ondas. Elas duas, juntamente de vários turistas, estavam maravilhadas com a força das ondas, quando Mariza percebeu que Nazaré havia parado de falar. Ela olhava fixamente para as ondas que se formavam e quebravam, num mágico balé de água e espuma.
O mundo de Nazaré parou. Lá estava ela: a onda que invadia seus sonhos. A onda a encarava como se a reconhecesse. Seus olhos marejaram, pois dessa vez ela não sentia medo, sentia pertencimento. Agora, frente a frente com ela na vida real, entendeu que o que vivia antes não era um sonho, mas um chamado. Enquanto Mariza observava, maravilhada, a grandeza das ondas, não reparou que Nazaré saiu de fininho. Quando percebeu a ausência da amiga, procurou nos banheiros e lanchonetes que cercavam o local e não a localizou. Foi quando escutou as vozes alteradas de vários turistas, exclamando diversas frases, algumas em idiomas que Mariza não conhecia. Ela se aproximou da murada, de onde era possível observar as fascinantes ondas quando avistou uma mulher, trajando uma roupa comum e sem prancha de surf, na garupa de um jet-ski, bem próximo do lugar onde as ondas se formam. Todos os turistas estavam comentando sobre o perigo que aquela mulher estava correndo e sobre a loucura que ela estava cometendo. Mariza demorou alguns segundos para perceber que aquela mulher era Nazaré, a amiga que estava procurando há algum tempo, sem sucesso.
— O que essa louca está fazendo, pelo amor de Deus! — disse Mariza, apavorada.
Para piorar a situação, Mariza pôde ver o momento em que Nazaré pulou do jet-ski e nadou em direção a uma onda gigantesca. Ela mal conseguia olhar para aquela cena. A onda engoliu Nazaré sem cerimônia, e Mariza percebeu que uma grande confusão havia se formado entre os surfistas e os pilotos de jet-ski, responsáveis por levar os surfistas até as ondas e também por eventual resgate. A Polícia Marítima foi acionada e, após várias horas sem localizar Nazaré na água, já com o sol se pondo, deram a busca por finalizada naquele dia, para que fosse retomada na manhã do dia seguinte. O piloto que levou Nazaré na garupa respondia, apavorado, aos inúmeros questionamentos que todos faziam, inclusive a imprensa:
— Como ela o convenceu a levá-la até tão perto das ondas? O senhor tem noção do absurdo que fez? — perguntavam todos, indignados.
— Ela me ofereceu dinheiro e disse que era uma promessa. Prometeu segurar firme. Eu não imaginava que ela fosse pular — respondia o piloto, em pânico.
Após Mariza ser identificada como a acompanhante da vítima, foi escoltada até o seu hotel e, na recepção, foi interrogada por uma policial:
— Vejo aqui que as senhoras são brasileiras. Qual o motivo da visita a Portugal? — perguntou a policial, que parecia estar bastante irritada com toda aquela situação, agindo como se Mariza tivesse alguma culpa pelo acontecido.
— Eu vim para resolver uns problemas com a herança da minha mãe, que é portuguesa e está muito idosa para viajar.
Ao ouvir que Mariza era filha de uma portuguesa, a policial aliviou o semblante e se tornou mais cortês:
— E a outra senhora? Qual o motivo da visita dela a Portugal?
— Ela veio apenas para me acompanhar — respondeu Mariza, chorando, inconformada.
— Amanhã a Polícia Marítima vai continuar as buscas, mas é melhor a senhora ir avisando a família e providenciando os trâmites, pois as possibilidades de ela estar viva são ínfimas — disse a policial, agora com brandura, mas a realidade era dura e precisava ser dita.
Mariza pegou o celular e começou a ligar para a casa de Nazaré. Ela vivia apenas com sua irmã, Nádia, e nenhuma das duas havia se casado, nem tinha filhos. Quando Nádia atendeu o telefone, estava feliz e descontraída, imaginando se tratar de um telefonema para falar sobre as belezas da viagem.
— Alô, Mariza. Como estão as coisas por aí? Nazaré está se divertindo bastante? — perguntou Nádia, alegremente.
Mariza não sabia como dar aquela notícia para Nádia. As irmãs eram muito ligadas. Titubeou por alguns segundos e, quando resolveu falar, um vulto familiar adentrou a recepção do hotel. Estava molhada e com o cabelo desgrenhado, mas Mariza reconheceu Nazaré. Aparentemente estava bem e bastante sorridente, como se nada tivesse acontecido. Mariza largou o telefone e correu em direção à Nazaré:
— Você está viva! — gritava Mariza enquanto a abraçava fortemente.
A policial se aproximou e começou a fazer várias perguntas para Nazaré, que parecia um pouco atordoada, e pediu licença para subir para o seu quarto, tomar um banho e descansar. Todos concordaram, afinal, não é todo dia que alguém mergulha numa onda gigante e sai ilesa. A viagem de volta para o Brasil foi praticamente em silêncio, e Mariza respeitou o recolhimento de Nazaré, mas ela própria também tinha muita curiosidade de saber como Nazaré conseguiu sobreviver àquela montanha de água que testemunhou cair em cima dela. Nádia foi buscá-las no aeroporto e, alertada por Mariza, também respeitou o silêncio de Nazaré. Ela agia como se nada tivesse acontecido, e Nádia achou melhor não fazer perguntas. Ela falaria quando estivesse pronta.
As férias terminaram, e Nazaré e Mariza voltaram a trabalhar. No trabalho, também houve muita curiosidade, e Nazaré tratou as perguntas da mesma forma que os interrogatórios, com evasivas e sem dar muito valor ao acontecido. Com o tempo, as perguntas no trabalho foram rareando. A vida cotidiana voltou ao normal e o acontecimento caiu no esquecimento, como tudo na vida.
Cerca de três meses após a viagem, Nazaré e Mariza estavam num churrasco, comemorando o aniversário de um colega de trabalho, quando Nazaré mergulhou na piscina e teve uma visão: o prédio onde trabalhavam pegava fogo. O incêndio era de grandes proporções e todos do seu trabalho estavam sem rota de fuga. Ela podia sentir o ar quente sufocando seus pulmões e saiu rapidamente da piscina, atordoada. Contou aos presentes o que havia visto e, como era de se esperar, a maioria não deu atenção. Na segunda-feira seguinte, nem Nazaré, nem Mariza foram trabalhar, ainda assustadas com a visão de Nazaré. Alguns poucos colegas que estavam no churrasco também acharam melhor não pagar para ver e faltaram ao serviço. Todos os que compareceram ao trabalho naquele dia morreram no enorme incêndio, que foi considerado o maior ocorrido na cidade em todos os tempos.
Dois meses depois, ocorreu a segunda visão. Nazaré e Nádia estavam na praia, em um balneário conhecido, acompanhadas de dois casais de amigos. Quando Nazaré mergulhou no mar, teve a visão: a ponte, que ligava duas cidades no caminho de volta para casa, rachava ao meio, e todos os carros que circulavam na ponte caíam no rio, que era muito fundo e de forte correnteza, e todos eram tragados para o fundo do rio, sem chance de salvamento. Nazaré sentiu seus pulmões se enchendo de água e a força dos braços sumindo entre as braçadas. Ela saiu rapidamente do mar, atordoada. Contou aos seus amigos o que viu, mas apenas um dos casais confiou no que ela disse. No dia seguinte, o casal descrente iniciou viagem de volta, mas não chegou ao destino, pois a ponte que ficava no caminho desmoronou, juntamente do carro que seu amigo dirigia.
O terceiro caso aconteceu numa viagem a um centro turístico, famoso por seus rios de águas cristalinas e transparentes. Nazaré, Nádia e Mariza se hospedaram num hotel belíssimo, mas notaram um clima pesado, com todos, desde o recepcionista até o garçom do bar, parecendo estar bastante tensos. Não demorou para que entendessem o motivo: no dia anterior à chegada delas, uma hóspede havia sido encontrada morta na mata que contornava o hotel. A polícia havia iniciado a investigação e todos, hóspedes e funcionários, estavam sob suspeita.
Como as três haviam chegado depois do fato, não eram suspeitas e podiam desfrutar do hotel sem serem incomodadas. Nazaré, então, optou por fazer um mergulho no rio que passava próximo ao hotel, com máscara, snorkel e nadadeiras, para poder ver os peixes e plantas do rio. Ao mergulhar, teve a visão: na beira daquele mesmo rio, numa região de mata densa, um homem segurava uma mulher pelo pescoço, erguendo-a do chão. A mulher se debatia e chutava o ar, tentando, em vão, afastar os dedos que apertavam sua garganta. O rosto começou a assumir um tom arroxeado e os olhos arregalados perderam a vida. Nazaré, dessa vez, não fazia parte da cena, como nos casos anteriores, mas apenas assistia, paralisada. O homem tinha o olhar impassível, como quem esmaga algo sem valor, soltou o corpo sem vida com frieza e fugiu, correndo pela mata. Nazaré rapidamente emergiu do rio e retirou a máscara, em busca das pessoas que estavam próximas, mas, naquele trecho do rio, não havia ninguém além dela.
Ela voltou para o hotel pensando em quem deveria alertar sobre o que viu, pois era a primeira vez que tinha uma visão estando sozinha. Seria ela a própria vítima? Ela ainda estava imersa em seus pensamentos quando se deparou com Nádia e Mariza, lendo o jornal local. Na manchete de capa, havia uma reportagem sobre o assassinato: MULHER ENCONTRADA MORTA FOI ESTRANGULADA. A foto publicada da vítima deixou Nazaré sem fôlego: era a mulher da sua visão. No dia seguinte, no bar da piscina, ela identificou o homem que a enforcou, agindo normalmente, como se nada tivesse acontecido. Seria necessário arranjar um jeito de informar à polícia, sem citar as suas visões, pois certamente ninguém acreditaria. Deu trabalho e foi preciso envolver Nádia e Mariza numa trama complexa para expor o culpado, mas deu resultado e o assassino foi preso no terceiro dia.
Depois desses episódios, Nazaré teve a certeza de que qualquer superfície de água se tornava uma janela para o passado ou para o futuro. Ao imergir na água, ela via eventos passados ou futuros, ligados ao lugar ou às pessoas próximas. Desde a compreensão de que o dom que ganhara não era um presente, mas uma missão dada pelas águas, Nazaré tentava ajudar ao próximo como podia. Ao perceber que alguém precisava de algum tipo de aconselhamento, ela tentava criar uma oportunidade, envolvendo um local com piscina, praia, rio ou qualquer outro com água onde ela pudesse ficar imersa, juntamente da pessoa a ser ajudada.
Era interessante perceber como todos que, por um motivo ou por outro, foram ajudados por Nazaré mantinham segredo sobre suas visões, numa corrente de cumplicidade própria dos que foram salvos e eram gratos. Gratos a ponto de guardar em segredo uma notícia que seria muito bem-vinda pelo público e pela grande mídia, mas se tornaria um grande problema para Nazaré, que teria sua vida totalmente transformada.
Com o passar do tempo, Nazaré percebeu que, sempre que ficava longe da onda por muito tempo, sentia o corpo enfraquecer e os sentidos adormecerem, como se estivesse perdendo a energia. Então, de tempos em tempos, ela visitava a cidade de Nazaré, em Portugal, e, durante a noite, esgueirava-se do hotel sem ser vista e entrava no mar, em direção à onda gigante. No turbilhão de água, sal e espuma, sentia a energia recarregar. Ela não sabia por quanto tempo teria que continuar esse ciclo. Apenas sabia que, enquanto estivesse viva e houvesse onda naquele mar, ela voltaria.

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Inspiração

O conto “A ONDA” veio de um sonho recorrente, no qual eu realmente me livrei quando consegui enfrentar a onda, em vez de fugir. Quando vejo as fotos e vídeos das ondas de Nazaré, eu sempre imagino que uma onda daquele tamanho não faça parte do mundo em vão. Deve haver algum significado por trás daquela força da natureza.

Sobre a obra

“A ONDA” combina fantasia, suspense e elementos psicológicos. Nazaré enfrenta, em sonhos, uma onda gigante e, após vencê-la, encontra-a na vida real. Sobrevivendo ao seu encontro, ela adquire o poder de enxergar passado e futuro através da água, descobrindo que seu dom não é um presente, mas uma missão.

Sobre o autor

Sou bacharel em Ciências Estatísticas e pós-graduada em Gestão Estratégica. Atuei na Caixa por 34 anos e atualmente me dedico integralmente à paixão pela escrita, explorando diferentes gêneros literários. Sou autora de um livro de poesias, um livro de contos e dois livros infantis. Meu primeiro romance será lançado na Bienal do Livro SP 2026.

Autor(a): MARIA PAULA CARDOSO GUIMARAES DOS REIS (Paula Reis)

APCEF/RJ