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O Poço sem fundo
O POÇO SEM FUNDO
Carla Gomes Kruger
Se essa rua fosse minha,
eu fechava para investigar.
Impedia o tráfego
de tudo que veio estragar.
Interditava o progresso
pra ver se ainda dava
tempo de achar.
Onde foi que se perdeu
a pureza do brincar?
Em que esquina foi vendida,
em qual vitrine foi parar?
Será que só eu era ingênua?
Ou já era treinamento
pra aprender, desde cedo,
a fingir que não tá vendo?
Roubar bandeira
sem estratégia de guerra,
sem lucro, sem meta,
sem alguém ficando pra trás.
Hoje até brincar
tem planilha, tem ranking,
tem pressa demais.
Jogar queimada
sem poluir o ar ...
agora a gente respira
a fuligem
e o pesar.
Competição até cansar.
Brincar de polícia e ladrão
sem crime pra justificar?
Já não é faz de conta,
tem lado certo,
tem bala pronta.
E passar o anel
sem trocar de par?
Hoje se passa vantagem,
porque vínculo agora
é só se der pra usar.
Cair no poço
era bônus.
A recompensa?
Beijar.
Hoje ninguém quer cair
porque ninguém
vai se dar ao trabalho
de ajudar.
Não é medo do escuro,
mas lá embaixo
não existe futuro.
Esconde-esconde:
ninguém procura.
Cada um se esconde
na própria clausura.
Se essa rua fosse minha,
não mandava ladrilhar —
congelava no cascalho
a infância a farfalhar.
Congelava no cascalho
os joelhos ralados,
porque hoje só sangramos
por motivos calculados.
Se essa rua fosse minha,
eu não deixava asfaltar,
o progresso passa por cima
só pra ninguém mais lembrar.
Onde foi que o sentido
foi perdendo o sentido?
Ou será que nunca houve
e a gente só foi
bem distraído?
No fundo do poço
tem beijo.
De morte
e de sentido.
Inspiração
A canção "Se essa rua fosse minha" sempre foi uma das minhas preferidas desde a infância, e recordando das brincadeiras que fez parte da minha geração, me dei conta de que o progresso produziu tantas coisas vazias de sentido, que até o brincar atualmente tem competição. Muitas pessoas no "fundo do poço" a espera de um beijo, mas a vida é real.
Sobre a obra
Na poesia “O Poço Sem Fundo”, utilizo a intertextualidade e a metáfora para analisar o contemporâneo a partir de cantigas e brincadeiras preservadas na memória afetiva de uma geração, ressignificando a nostalgia como crítica social.
Sobre o autor
Sou escritora e poeta por necessidade de olhar mais demoradamente para aquilo que a vida costuma fazer passar despercebido. Encontro poesia nas coisas simples, nas memórias, nas relações e nas pequenas contradições do cotidiano.
Autor(a): CARLA GOMES KRUGER (Carla Gomes Kruger )
APCEF/RO
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