A Travessia

A TRAVESSIA
Carla Gomes Kruger

Todas as noites, Dona Helena chegava alguns minutos antes das dez.
Cumprimentava o segurança pelo nome, ajeitava os cabelos diante do reflexo da porta de vidro e atravessava o saguão com a serenidade de estar em casa, ou de quem conhecia cada leito de internação, a UTI, o centro cirúrgico, a administração e a copa.
Nunca precisou perguntar onde ficava coisa alguma.
O elevador a esperava de portas abertas, como um velho colega de plantão. Entrava sozinha. Apertava sempre o último andar, embora raramente tivesse um motivo para começar por ele. Gostava de descer andando. Dizia que os corredores contavam melhor suas histórias quando percorridos devagar.
As portas se fechavam sem ruído.
Durante a subida, Dona Helena mantinha as mãos cruzadas sobre a bolsa de couro já gasta pelo tempo. Não consultava relógio, não carregava prancheta, não usava crachá. Ainda assim, havia nela uma postura que fazia qualquer desconhecido abrir passagem.
Ao sair do elevador, respirava fundo.
Gostava do cheiro do hospital.
Não do desinfetante, nem dos medicamentos. Gostava daquele aroma impossível de nomear, feito de café recém-passado, lençóis limpos, flores sobre aparadores e esperança. Era um cheiro que, para ela, sempre significara recomeço.
O corredor permanecia quase vazio naquela hora.
As lâmpadas espalhavam uma luz morna sobre o piso encerado, e os quadros pendurados nas paredes pareciam aguardar sua passagem.
Ela sempre parava diante da mulher loira.
O indicador delicadamente apoiado sobre os lábios permanecia imóvel havia tantos anos que Dona Helena já nem se lembrava de quando o quadro fora colocado ali.
— Boa noite — sussurrava.
Depois seguia alguns metros até encontrar o homem da ponte.
Ele caminhava sozinho sobre uma estrutura estreita de madeira suspensa sobre um rio de águas escuras. Nunca olhava para trás.
— Ainda não? — perguntava com um sorriso discreto.
Jamais esperava resposta.
Ou talvez esperasse.
Então continuava seu percurso, como fazia todas as noites.
Nenhum funcionário estranhava sua presença.
Alguns sorriam.
Outros apenas acenavam com a cabeça.
E ela retribuía cada cumprimento com a mesma delicadeza de quem acreditava que um hospital podia ser mantido de pé por gestos pequenos.
Naquela noite, porém, ao entrar novamente no elevador, teve a estranha impressão de que ele demorava mais do que o habitual entre um andar e outro.
Parecia que o prédio inteiro respirava antes de decidir onde deixá-la descer.
Finalmente o sétimo andar. As portas se abriram. Passou diante do quadro de avisos. As folhas haviam sido trocadas desde a noite anterior. Aproximou-se apenas o suficiente para confirmar que tudo estava em ordem. Nunca gostou de interferir na organização dos colegas.
Alguns passos adiante já estava exatamente diante daquela bela mulher loira e dava uma piscadinha antes de entrar no primeiro leito.
Antes de entrar em cada quarto, os olhos passavam automaticamente pela placa de isolamento. Luvas. Máscara. Avental. Fazia tantos anos que não precisava mais pensar na sequência. Apenas verificava se tudo estava em ordem. Depois seguia adiante.
Começava pelo leito 710. Parecia sempre vazio, como se o paciente tivesse recebido alta no plantão anterior e o quarto ainda aguardasse ser preparado para um novo recomeço.
Entre o 707 e o 706 havia o quadro do homem da ponte. Às vezes contava os esteios da ponte. Outras, imaginava quantos passos ainda faltavam para que ele alcançasse a outra margem. Nunca chegava à mesma conclusão.
Fitava a janela ao final do corredor. Sentia o ar fresco que entrava e circulava por todo o andar.
Ao adentrar o quarto 705, encontrou o paciente repousando tranquilamente. Conferiu a temperatura do ar-condicionado e ajeitou a cortina com delicadeza, para não produzir o menor ruído.
No café da manhã uma enfermeira comenta:
— Curioso... o senhor do 705 disse que uma senhora entrou de madrugada para ajeitar a cortina.
Outra responde sorrindo:
— Ainda bem.
Concluído o sétimo andar, descia ao sexto, quinto, quarto , até visitar todos os leitos.
Se dirigia à UTI, observava pelo vidro por alguns instantes e depois subia, degrau por degrau, até retornar ao posto de enfermagem do sétimo andar.
O lance que subia ao sétimo tinha nove degraus. Os que desciam eram diferentes: dez até o primeiro patamar, onze até o seguinte. Nunca confundia. Poderia transitar por eles mesmo em completo apagão. Nunca precisou contar os degraus. Os pés sabiam. Ainda assim, contava. Era uma maneira de confirmar que nada havia mudado durante o dia.
Ao retornar ao posto, perguntava pela copeira:
— a Jurema já passou por aqui? Senti o cheiro de café fresco.
Jurema pousou a xícara sobre o balcão. Ao lado dela, um pequeno comprimido branco. Dona Helena sorriu.
— Você nunca esquece.
— Faz parte do plantão.
Jurema permaneceu alguns instantes ao lado do balcão enquanto Dona Helena levava a xícara aos lábios.
— Muito movimento esta noite? — perguntou.
A copeira olhou rapidamente para o corredor antes de responder.
— Menos do que de costume.
Dona Helena concordou com um leve aceno. Também tinha essa impressão. O hospital parecia falar mais baixo naquela madrugada. Até o elevador demorava mais para chegar aos andares, como se carregasse um peso invisível entre um pavimento e outro.
Terminou o café em pequenos goles. Gostava de prolongar aquele momento. Era a única pausa que se permitia durante o plantão.
Antes de devolver a xícara, lançou um olhar para o quadro do homem da ponte. Teve a impressão de que a margem do outro lado parecia mais próxima.
— Curioso... A ponte já terminou. Quem demora é sempre quem atravessa.
Sorriu da própria ideia.
— Você também anda com pressa hoje?
Ninguém respondeu.
Mais adiante, seus olhos demoraram-se num quadro ao qual jamais dera verdadeira atenção.
A mulher loira e o homem da ponte eram os seus favoritos, mas os pequenos veleiros coloridos naquela noite lhe ressaltaram aos olhos.
Gostava deles porque nenhum parecia seguir a mesma direção. Ainda assim, permaneciam juntos.
Os veleiros estavam todos enfileirados sobre a pequena carreta, coloridos como brinquedos esperando uma criança. Do outro lado da água, a praça estava cheia de gente. Às vezes imaginava que todos aguardavam a largada de alguma regata. Outras vezes, tinha a impressão de que esperavam apenas alguém decidir empurrar os barcos até o rio.
— Ninguém navega em chão firme...
Continuou olhando o quadro por mais alguns instantes.
As velas permaneciam imóveis.
— Até o vento parece esperar sua vez.
Como já havia passado por todos os leitos, decidiu observar os demais quadros do corredor, mergulhado na meia-luz da madrugada.
Nunca soube por que haviam colocado aquela torre ali. Pensava que hospitais precisavam lembrar as pessoas da vida, não da distância.
Observou que as molduras dos vários quadros não guardavam simetria entre si. Apenas o formato quadrado, pequeno, de aproximadamente 40 centímetros se assemelhavam.
Uma enfermeira nova acompanhava a medicação da madrugada quando viu Dona Helena atravessar o corredor.
— Quem é aquela senhora?
A técnica mais antiga ergueu os olhos apenas por um instante.
— A Dona Helena.
E continuou apertando o êmbolo da seringa.
A enfermeira nova ainda acompanhou a senhora com o olhar.
Havia qualquer coisa naquela caminhada que não parecia pertencer ao cansaço de um plantão.
Naquela madrugada, Dona Helena resolveu percorrer o corredor mais devagar do que de costume.
Ao passar diante do quadro das duas meninas ao piano, estacou.
Juraria ter ouvido uma única nota.
Depois outra.
Um trecho breve, delicado, quase um ensaio interrompido.
Sorriu.
Sem perceber, respondeu baixinho.
— Dó... mi... sol...
A melodia parecia conhecê-la havia muitos anos.
Continuou caminhando enquanto ainda solfejava, tão baixo que nem ela saberia dizer se o som vinha do quadro ou de sua própria memória.
Quando alcançou novamente a ponte, estranhou.
O homem já não estava ali.
A estrutura permanecia vazia, estendida sobre as águas.
— Então você conseguiu...
Disse apenas.
Mais adiante lançou um último olhar para os pequenos veleiros.
Por um instante teve a impressão de que as velas haviam encontrado vento.
Não pareciam mais esperar.
Seguiam.
Chegou ao lugar onde sempre cumprimentava a mulher loira.
Mas encontrou apenas o reflexo discreto do vidro.
Pela primeira vez viu a si mesma.
Os cabelos completamente brancos.
As marcas delicadas do tempo.
Sorriu para aquela senhora como sempre sorrira para a outra.
— Boa noite.
Chamou o elevador.
Naquela madrugada, não teve vontade de usar as escadas.
As portas se abriram imediatamente.
Desceu em silêncio.
O vigilante levantou os olhos quando ela atravessou o saguão.
— Até amanhã, Dona Helena.
Ela ajeitou a bolsa no ombro e sorriu.
— Se Deus quiser.
As portas de vidro se fecharam lentamente.
Na manhã seguinte, ninguém soube explicar por que o corredor parecia diferente.
Talvez fosse a xícara vazia sobre o balcão. Talvez o cheiro do café ainda suspenso no ar. Talvez a luz entrando pelas janelas.
Durante a troca de plantão, alguém jurava ter ouvido, muito ao longe, um delicado solfejo atravessando o corredor.

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Inspiração

Estive acompanhando um familiar hospitalizado durante alguns dias e a mente inquieta e observadora, aliada a insônia pela situação, foram o cenário perfeito para me inspirar a escrever esse conto durante a espera.

Sobre a obra

Nesse conto, utilizo metáforas, simbolismo e antecipação para abordar a passagem entre a vida e a morte de maneira indireta. Pistas sutis, personificação e atmosfera de estranhamento conduzem gradualmente à revelação, preservando a ambiguidade e permitindo múltiplas interpretações.

Sobre o autor

Uma muher no outono da vida, buscando sentido nas experiências nas quais descobri que através da arte, sobretudo da literatura, posso fazer travessias mais seguras.

Autor(a): CARLA GOMES KRUGER (Carla Gomes Kruger)

APCEF/RO


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