LOGO EU

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Logo eu, que durante muito tempo afirmava não gostar de cães — e muito menos de gatos — de estimação, criados dentro de casa, livres, leves e soltos, hoje me vejo tutor, pai de quatro Shih Tzu, já tendo cuidado e entregue ao mundo mais de vinte filhotes da mesma linhagem, espalhando-os entre parentes, vizinhos e amigos, como quem reparte pequenas porções de alegria e doçura.

Era início do ano de 2020 quando um surto de pneumonia, descoberto na China no final de 2019, começou a atravessar fronteiras e países, até se espalhar pelo mundo inteiro sob o nome de COVID-19. Pouco depois, a Organização Mundial da Saúde classificaria a enfermidade como Emergência de Saúde Pública Internacional e, em seguida, como pandemia do coronavírus.

Sem vacina adequada e diante de milhares de pessoas adoecendo ou perecendo pelo vírus, o mundo começou a se recolher. Bancos, empresas, faculdades, igrejas e tantas outras instituições passaram a mudar suas formas de recepção e atendimento ao público, buscando diminuir o trânsito, as filas e as aglomerações em ambientes fechados. Era como se a vida, de repente, tivesse aprendido a falar mais baixo.

A escola onde meu filho, então com 8 anos, estudava, também seguiu esse mesmo caminho. Vieram orientações, suportes, adaptações. Professores e alunos passaram a ensinar e aprender de casa, respectivamente, em home office, sem o movimento dos corredores, sem o burburinho das salas, sem o encontro fácil dos recreios. E assim seguimos: cada um tentando aceitar e caber dentro de uma rotina nova.

Foi então que, entre o isolamento forçado, a solidão surgida e a necessidade de meu filho ter com quem brincar, o primeiro Shih Tzu surgiu em nossas vidas. Chegou com apenas 45 dias de idade, pequeno feito um sopro, uma bolinha de pelos, e recebeu o carinhoso nome de PAÇOCA, que não podia ter sido o mais adequado.

Enquanto o menino estudava num canto reservado e improvisado da casa, o pequeno companheiro permanecia debaixo da mesa, lambendo-lhe os pés e recusando qualquer distância. Era presença certa em todas as atividades. Dormia no quarto. Fazia suas necessidades fora de casa. Jogava bola. Caía na piscina sem querer. Brincava de esconde-esconde, de corrida e de tudo mais que a infância inventasse. Foram dois anos de parceria silenciosa e fiel, até que, no início de 2022, resolvemos arranjar uma companheira para o felizão Paçoca. E lá veio a Filomena — FILÓ, para os íntimos —, também da raça Shih Tzu.

Daquele dia em diante, a casa ganhou outro compasso. Os dois passaram a dormir no quarto, como se sempre tivessem pertencido àquele espaço. Todavia, movido por ciúmes, o Mister Paçoca, depois de alguns dias, passou a marcar território em vários lugares, especialmente em pés de camas, cadeiras e mesas, razão pela qual foi gentilmente convidado a morar fora de casa, na varanda coberta, com muretas baixas, cerâmica e ares de quintal próprio, juntamente com sua mais nova companhia favorita, Srta. FILÓ. E, ao que tudo indica, gostaram muito da ideia.

Aos poucos, meu filho voltou a frequentar fisicamente a escola, e os cachorros passaram a viver mais juntos, donos de seus próprios dias. Até que, em um belo momento, Paçoca e Filó se cruzaram e, dessa relação, nasceram sete novos Shih Tzu. Cuidamos de todos com ração, vermífugos, vacinas, carinho e uma dose de espanto diante da vida se multiplicando tão perto de nós. Passados sessenta dias, ficamos com dois deles — um casal — e promovemos a doação dos demais a conhecidos – próximos e distantes – alegrando suas moradas. Inclusive, recordo-me de uma vizinha que nos disse acreditar ter se livrado de uma depressão, em razão da convivência com sua recente amiga, a espevitada LUMA.

Assim como na piada, eu mesmo já tive que percorrer ruas perto de casa à caça do veloz e furioso Paçoca que, sorrateiramente, às vezes, aproveitava o portão aberto para fugir e correr atrás dos meninos de bicicleta. Logo eu, que nem gostando de praticar corridas estava mais.

E lá se vão cinco anos. Nesse tempo, ocorreram mais duas crias, cuidadas com o mesmo afago e afinco, e também doadas. Desses três nascimentos, vieram mais de vinte filhotes, cada qual carregando consigo um pouco da nossa rotina, do nosso cuidado e da nossa admiração. Na semana passada, realizamos o parto de mais um, a Shih Tzu caçula, NINA que, duma só vez, trouxe ao mundo seis novas bênçãos: três machos e três fêmeas. Hoje, completaram nove dias de nascidos, e cá estou eu, tutor/pai de agora dez cachorros, aprendendo que a vida tem dessas ironias cheias de graça. Logo comigo.

Desta feita, por derradeiro, estamos seriamente pensando – justamente eu – em vender todos os recém-nascidos e, com os recursos obtidos, castrar as fêmeas adultas, que já povoaram bastante a terra com sua raça, beleza e encanto. E talvez seja mesmo hora de encerrar esse ciclo de ninhadas. Mas não sem antes reconhecer que esses pequenos seres, quase sem pedir licença, mudaram a rotina da casa, ocuparam vazios que a gente nem sabia que existiam e ensinaram a este antigo resistente aos cães que o amor, às vezes, chega sem cerimônia: de patas curtas, olhos atentos, rabo em festa, muitos pelos e nomes engraçados. E quando chega, pronto: faz morada — até em quem jurava não abrir a porta. Logo eu.

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Inspiração

Minha intenção com a presente criação nasceu das lembranças de convivência familiar durante a pandemia, quando o isolamento, a infância do meu filho e a chegada repentina e assertiva dos cães transformaram a rotina da casa. A crônica surgiu desse sobressalto afetivo: perceber que até quem resiste ao amor pode ser alcançado por ele.

Sobre a obra

A obra é uma crônica leve, inédita, memorialista e afetiva sobre as mudanças silenciosas que a vida nos impõe. A partir da chegada de cachorros Shih Tzu em nossa família, procurei revelar no texto, com humor singelo e sensibilidade, como pequenos seres podem ocupar vazios, alterar rotinas e ensinar novas formas de cuidado e ternura.

Sobre o autor

Sou um curioso da natureza, que gosta de aprender e realizar coisas novas e múltiplas . Brincar, conversar e cuidar de pequenos cães, como os Shih Tzu, se transformou em uma delas, ainda que sem muito desejar.

Autor(a): LUIZ HENRIQUE TEODORO NEVES (Lùiz Neves)

APCEF/RO