BOAS FESTAS

BOAS FESTAS
Solana Bandeira
Izaura repetia aquele ritual todos os anos. Dona Glória, nesse período, autorizava o expurgo da tralha acumulada pela família no decorrer do ano, e ainda dizia, “se quiseres Izaura, pode escolher o que tiver de melhor e guardar pra ti.” Sacolas de supermercado, papéis de presentes, caixas de pizzas, eletrodomésticos quebrados, pilha de livros de palavras cruzadas, cabos de celulares e um arsenal de bagulhos que lhe faziam companhia no seu minúsculo quarto. “Como podiam juntar tanto cacareco? Se fosse guardado no quarto deles, aposto que seria diferente!”, pensou.
- Izaura? Terminada essa faxina, que parece não acabar nunca, adianta o almoço de amanhã, que iremos fazer a feira do Natal logo cedo.
- Tá certo Dona Glória... eu queria até falar com a senhora sobre o Natal, é que tou querendo esse ano ir passar...
- Ah criatura, tu vens com mais uma novidade pra me aborrecer? Já basta tanta coisa na minha cabeça. Tu não estás vendo o que acontece aqui? Não temos segredos contigo, és quase uma pessoa da família. A Lucille, não virá para o Natal, fica lá pela França, por causa do tal doutorado. Leandrinho, encrencado nesse negócio das bets, tudo indica que irá até depor! A compra do meu carro adaptado, demorando uma eternidade pra ser aprovada. E tu me vem com problemas menores, mulher! Me poupa!
- É que não vejo mãe e os meninos desde março, e tenho que...
- Mulher! Vás fazer o que naquele sertão esturricado? Naquela miséria! Aqui tu tens comida farta. Deixa pra ir no mês de São José, pelo menos, milho, tu podes trazer pra nós.
- Mas é por isso que eu quero ir Dona Glória, eles devem estar passando necessidade, e mãe não tá bem de saúde.
- Pois então, pega o dinheiro que seria da passagem e manda um pix pra comprar remédios. Num instante ela melhora. Ou... Tu vás..., mas... sabe como é, né? Tanta gente desempregada Izaura... Posso até ver... É, a faxineira da Ormina disse que tem uma amiga dela querendo trabalhar. Quem sabe... Eu podia até...
Dona Glória tinha essa mania, não terminava as frases. E saia sempre com uma ameaça velada, depois virava as costas e mudava de assunto.
- Já tiraste as toalhas e guardanapos da noite do Natal para passar uma água, Izaura?
- Já, sim senhora.
À noite, em sua rede, Izaura matutou: “Só com a bolsa família não dá pra mãe cuidar dos dois meninos. Minhas irmãs desempregadas há tempos. É. Melhor ficar e garantir esse pouco minguado, atrasado, mas que ajuda.”
Dona Glória ganhava sempre! Não se falou mais na viagem de Izaura.
Dia seguinte seguiram as duas para as compras. Conversas amenas.
- Tomara que já tenha peru nos supermercados. Agora deram com essa presepada, só tem peru já em cima do Natal. Estou com vontade de comprar logo dois, né Izaura? Assim garanto o do aniversário de Leandro em janeiro. Ele adora peru! Falar em Leandro, olha lá a propaganda da empresa dele. Tá bonita.
Izaura pensou: “Se ela estava com dinheiro pra comprar dois perus, bem que já podia pagar o décimo terceiro”. E arriscou.
- A senhora acha que dá pra me pagar meu décimo, Dona Glória? Quero mandar amanhã uma coisinha a mais pros remédios de mãe, e pra comprar umas roupinhas pros meninos, eles estão carecidos de vestes.
- Ihhh, logo agora que estamos em dificuldades por conta dessa perseguição das bets, Izaura! Tu não estás acompanhando, mulher? Tem paciência e compreensão criatura! Só quando sair minha pensão de janeiro é que eu posso acertar tudo contigo.
Izaura murchou e tentou entender, qual a relação das bets com seu décimo terceiro? Acompanhou a patroa na feira em monossílabos. Empurrava o carrinho de compras, cabisbaixa, vestida de tristeza. Seu olhar vagando pelas prateleiras. E Dona Glória sem fechar a matraca!
- Talvez seja melhor levar um pouco mais de bacalhau, né Izaura? É o primeiro prato que acaba. Este ano é melhor fazer dois, um aos quatro queijos, e o outro, à Gomes de Sá, que Eduarda ama! Vamos levar logo os queijos, né?
- Humrum.
- Nooossa! Como o queijo do reino aumentou de preço! Melhor levar só um mesmo. Sorteio outra coisa no bingo do RO (resto de ontem). E este pernil, tá de bom tamanho, Izaura? O do ano passado foi grande demais, né? Lembras que sobrou bastante? Fatiamos, congelamos, e até distribuímos para as meninas, não foi?
- Humrum.
- Vamos para o corredor das frutas secas agora. Não podemos esquecer dos ingredientes da torta natalina, deixa eu ver, anotei aqui: ameixa, avelã, damasco, tâmara, manteiga ghee, chocolate cem por cento, ... O que mais? Ah! Já ia esquecendo, quero que faças aquela farofa dos miúdos do peru, com ameixa. Tua especialidade! Então um quilo de ameixa é pouco, né?
- Humrum.
- Vamos pegar o azeite. Tomara tenha aquele grego. Nossa senhora! Tá os olhos da cara, mas gosto é dele! Tá vendo Izaura, como a situação tá difícil?
- Humrum.
Izaura nem ousou imaginar o valor da feira. Voltaram pra casa em silêncio absoluto. Nos próximos dias, Dona Glória é que falava, falava e falava, e assim impedia Izaura de fazer pedidos inoportunos. A serviçal usava o silêncio como seu principal aliado, enquanto arquitetava seu roteiro natalino. Mergulhou na labuta a semana inteira, praticamente não falava, só trabalhava. Dona Glória, nada boba, percebia o clima tenso, mas o importante é que tudo estava sendo feito a contento. Passou a casa em revista. A árvore de natal, armada. Os pisca-piscas, montados. A guirlanda na porta de entrada, pendurada. E Papai Noel, de todos os tamanhos e poses, distribuídos pela sala. Perfeito! “Onde já se viu, Izaura querer viajar logo na época do Natal?”
Com o mesmo capricho dos últimos dez anos, Izaura organizou tudo. Na noite de natal silenciou mais ainda. Vestiu o uniforme azul marinho, regalo de dona Glória para aquela noite. “Teu presente de Natal, Izaura. Uma roupa decente, pra não ficares circulando com aquele vestido curto e apertado!” A etiqueta lhe coçava o pescoço, a saia de tergal, abaixo do joelho, fazia pregas desnecessárias, e a manga, nos cotovelos, lhe prendia os movimentos com as bandejas. “Diacho! Não podia escolher sua própria roupa!”
A família alvoroçada chegando e botando os presentes incontáveis sob a árvore de natal gigante. A criançada curiosa, indagando se suas cartinhas iam ser atendidas pelo bom velhinho. “Disso não sei, mas por certo vai!”, respondia Izaura. Leandro servindo as bebidas e cochichando na área gourmet com os familiares, “sobre as bets, com certeza!”, e dona Glória circulando, absoluta e impecável, pela sala, colhendo os louros, como se tudo ali fosse obra dela.
Izaura pôs as tábuas de frios, salgados e patês sobre a mesa, e recolheu-se para a cozinha. Fechou a porta. Dona Glória, dizia sempre, “a cozinha deve ser um lugar inviolável, as visitas não devem circular”. Para isso, tinha um controle remoto na sala, que bastava apertar, e um trimmm alertava quando levar a próxima iguaria. Pelo andar da carruagem a Ceia Natalina iria demorar umas duas horas, pois o Amigo Secreto acabara de começar. E exaltar as virtudes de cada um da família, levava tempo! Pegou duas sacolas térmicas. Foi agasalhando com cuidado, o peru, a farofa, e o pirex com o bacalhau aos quatro queijos, deixou o ao Gomes de Sá, preferência de Eduarda. Arroz não precisava, pesava demais e era barato. A torta, o queijo do reino, e as frutas secas, dividiu pela metade, que ela não era uma má pessoa. Olhou as garrafas de champanhe que Leandro guardou na geladeira. Dom Perignon! Dona Glória havia dito, “é o melhor!... e custa os olhos da cara!”. Mas... as manas também tinham bom gosto e iam adorar a novidade. Uma, bastava.
Culpa nenhuma lhe bateu na consciência. Tinha certeza, que seu salário do mês, o décimo terceiro, as horas extras de dez anos, e muitas férias acumuladas pagariam aquela conta. Com sobra! Um zap para a irmã. “Chego no ônibus da madrugada. Tou levando nosso almoço do Natal.” Tirou a farda. Vestiu seu vestido vermelho, curto e apertado. Pegou as sacolas e saiu pelo portão de serviço. Era seu dia de sorte, o ônibus estava chegando na parada. Apressou o passo. O som daquela música chata, sonoplastia do amigo secreto dos natais da família, ainda lhe chegou aos ouvidos. “Anoiteceu, o sino gemeu, e a gente ficou, feliz a rezar...".

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Inspiração

Sou integrante do Clube do Conto da Paraíba. Semanalmente elegemos um tema para elaboração de um conto. O tema eleito foi "Boas Festas". Às vésperas do fim de ano presenciei uma cena em um supermercado que me tocou bastante. Imaginei a partir dali uma história fictícia, mas de algo que reflete a realidade de muitas pessoas na nossa sociedade.

Sobre a obra

O conto tem o tema como estímulo inicial da obra. Depois imagino o conflito que guiará a história, inspirada em notícias, leituras, filmes, ou observações cotidianas. Utilizo diálogos onde as personagens e suas vidas são reveladas através deles. O enredo é guiado por uma situação realista, de exploração, que ao final tem uma solução inesperada.

Sobre o autor

Sou aposentada, atriz, ceramista, contista e ativista cultural. Adoro ler, assistir filmes, escrever, cuidar de plantas, cozinhar, e sempre aprender algo novo. Amo viajar e fazer amizades. Sempre estou buscando preencher meu tempo com atividades que satisfaçam meu corpo e minha mente, fugindo das "categorias" impostas aos velhos pela sociedade.

Autor(a): ANA DA COSTA BANDEIRA (Solana Bandeira)

APCEF/PB