O GRITO

O GRITO
Solana Bandeira
Miguel não entendia como havia entrado naquele braço do Curupati. Sempre soube dos perigos da correnteza nas vazantes daquele rio. Ainda tentava, com o auxílio do remo, diminuir a velocidade da sua canoa, que avançava numa fúria incontrolável, mas a força das águas lhe impulsionava cada vez mais. Como viera parar ali sozinho? Era o que se perguntava. Jamais ousara atravessar a nado, sequer, um igarapé, e se meter numa aventura daquelas? Sentiu a mesma frustação, de quando aporfiava com a molecada da redondeza, e voltava da metade do percurso, por medo. Ouvia nitidamente as vozes lhe atormentando:” medroso, medroso, medroso!”
Lianas e cipós lhe atravancavam a passagem. Bem queria segurar neles para dar impulso e chegar ao outro lado da ribanceira, mas medroso que era, temia que a canoa deslizasse sobre as águas, e ele ficasse pendurado e exposto ao perigo. Olhava para o céu assustado, diante da tormenta que se anunciava. Tinha que chegar na Lagoa dos Turus antes do anoitecer. Precisava catar as minhocas para a janta. E a imagem da mulher lhe aparecia gritando, exigindo pressa. Não tinha outra opção, o jeito era seguir o curso da vazante. Lá esperaria a maré secar, e exploraria as dezenas de árvores podres, caídas às margens da lagoa. Como viera parar ali sozinho? Por que os pescadores da vila não estavam na mesma rota? Cadê seu Candinho, seu Fifi, e os moleques do mangue? Estariam lhe pregando uma peça? Ansiou que aparecessem para que juntos, em comboio, desembocassem na Lagoa dos Turus. De repente, sentiu um baque surdo no fundo da canoa. Algum tronco atravessara seu caminho. Uma pequena fenda se abriu no casco da proa e começou a verter água. Procurou a cuia para retirar a água. A cuia sumira. A fenda se abria cada vez mais. Diacho! Como foi se meter naquela enrascada? Tentou encostar a canoa prendendo o remo nas raízes do igapó, juntou as mãos em concha e se pôs a secar a água. Em vão. Seus pés já estavam cobertos. Resolveu tirar a camisa e calafetar a brecha. Faltava algum instrumento que o ajudasse. A tempestade com raios e trovões não tardou a chegar. Lembrou que a vó Lulu dizia: “Com a natureza não se brinca. Temos que respeitá-la!” Ela tinha razão. Aquilo não era hora de sair pra catar turu. Não entendia porque fizera aquilo. Podia ter esperado a maré vazar. A imagem da vó lhe invocava a oração de Santa Bárbara, ou seria de Iansã? Não sabia, e não havia tempo de parafusar ideias. Sua vida estava em perigo. Precisava da santa protetora dos navegantes, contra raios, trovões e tormentas. Não sabia como começar a reza. Era burro, bem que o pai dizia. Ouvia os brados do pai. “Burro, burro!” Veio à sua mente o desespero da vó durante as tempestades. Ajoelhada em frente do oratório rezava, esperando o marido e o filho chegarem das pescarias. “Levai essa tempestade para os montes malignos...” Mas ali não tinha montes, só tinha muita água. Bom, era assim que ela dizia, e não havia tempo pra discutir a natureza da reza. “... onde não haja galo que cante, nem boi que muge...” Boi? Que boi? Ali naquelas paragens tinha, no máximo, umas galinhas e uns patos pra vender na cidade, e trazer o feijão e a farinha do sustento. Ora bolas, que oração mais besta! E estranho era nunca ter se dado conta dela. Agora, na hora do desespero, ela lhe assobiava no juízo. “...nem criança que chore, nem mulher de parto.” Ah! Criança chorona e mulher de parto era o que não faltava nas redondezas. Parecia até que escutava o choro de uma criança naquele momento. Só que não dava tempo de pensar nisso. Queria era se salvar. Vazante, tormenta, canoa rachada, cipós, os bichos do quintal, a fome, a vó, a reza, o pai, a mulher gritando, os turus pra catar, o menino chorando... e ainda tinha a aproximação da Lagoa dos Jacarés. Como assim? Dos Jacarés? Mas primeiro não era a Lagoa dos Turus? Não entendia porque tudo se embaralhava na sua mente. Era o seu fim. E não aparecia ninguém pra lhe ajudar. Cadê o comboio? Um relâmpago alumiou a frente da canoa. Viu os jacarés, com as bocas escancaradas, mostrando os dentes, prontos pra lhe abocanhar. Ainda deu tempo de dar o grito: “Santa Bárbara”!
A mulher, puta da vida, balançou sua rede com os pés.
- Era só o que me faltava Miguel, tu com teus pesadelos. E gritar mesmo na hora que eu consegui fazer o bruguelo parar de chorar. Tu toma tuas cachaça, e eu é que aguento!

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Inspiração

Integro o Clube do Conto da Paraíba. Semanalmente escolhermos um tema e elaboramos um conto. O tema eleito naquela semana foi "O Grito". Coincidentemente, na semana anterior, eu tive um sonho inquietante e acordei gritando. O sonho ficou reverberando na minha mente por muitos dias. No momento da escolha do tema, imediatamente me reportei ao sonho.

Sobre a obra

O conflito desse conto é uma aventura que se passa na mente de um personagem enfrentando uma situação caótica. O local onde se passa a ação é um rio. Alguns flashs da vida cotidiana do personagem simulam uma sucessão de imagens angustiantes, que fazem o leitor imaginar um desfecho totalmente diferente do que ocorre no final.

Sobre o autor

Sou aposentada, atriz, ceramista, contista e ativista cultural. Adoro ler, assistir filmes, escrever, cuidar de plantas, cozinhar, e sempre aprender algo novo. Amo viajar e fazer amizades. Sempre estou buscando preencher meu tempo com atividades que satisfaçam meu corpo e minha mente, fugindo das "categorias" impostas aos velhos pela sociedade.

Autor(a): ANA DA COSTA BANDEIRA (Solana Bandeira)

APCEF/PB