- Página inicial
- Detalhe obra
Odisseia
Odisseia
Arrisco dizer que no início as pinturas rupestres não guardavam preocupações estéticas, somente a de gerar identificação com a realidade, limitada à forma. Atrevo-me a crer que na gênese desta expressão, a única preocupação era com a correlação de quantidade, que talvez nem seja estética.
Naquele período de infância artística, a intenção era experimentar, e não convencer. Era ter posse da realidade, e não comunicar a sua solicitude. É preciso resgatar este hábito: o de simular a experimentação do que se quer. A busca não define o homem. O que define um homem é o saldo final. A busca é o método, e é preciso vontade ativa diária para ter olhar sereno no fim da vida.
Esse é o tipo de coisa que eu penso. Tá vendo? Pensar isso é uma delícia, mas escrever não me parece ter o mesmo efeito. Quem vai gostar disso? Quem vai entender? Para gostar tem que entender, cara! Por que você não disse “os homens das cavernas não queriam desenhar bonito, só queriam registrar o que viam. Não dava pra querer desenhar bonito. Testa com molho de tomate no teto da sua casa. Se errar fodeu. A mancha do teto da casa vai virar assunto de todas as reuniões de família. Lascou. Assim eles talvez esqueçam do pedro, pedro, paulo, paulo”. Parece que você acha que é o novo Zaratustra. E você nem leu o livro ainda. Isso é outra coisa. Será que você escreve assim para convencer que é um homem culto? Outro dia desses você limpou sua pequena estante de livros e percebeu que da maioria deles não leu nem a metade das páginas. É preciso demonstrar interesse em entrar no jogo, camarada. A vida se oferece. Ela é toda oferecida. É vida o que há entre a espera e a saudade. Não é o que você pagou para bordarem na sua jaqueta? Pois então, fique atento e vigilante. A nossa relação com o tempo não é a mesma que temos com o espaço. No espaço a gente mergulha. O tempo a gente margeia.
Você sempre acha que o texto tá concluído quando escreve algo que julga poético e original. Duvido que já disse tudo que queria dizer. Você pensou em várias coisas interessantes. Essa preocupação excessiva com o que as pessoas vão achar te paralisa. Lembra da ideia inicial para este texto? “Escrever tudo o que vier na cabeça, para defender a ideia de que para ser é preciso exercício amador diário”. Jesus, amado! É sério isso? Ajuda o leitor. Ele tá se esforçando, mas você só tá piorando as coisas. Custa dizer que você quer escrever um livro e tá preocupado com o fato de que não pratica a escrita. Ufa! Verdade, é difícil dizer. Confessar que sabe que ainda é incapaz. Você às vezes escreve como quem quisesse disfarçar marcas de traças com um bom bordado. Nossa! Escrever isso também é uma delícia. Mas, então, como faremos? Vamos explicar tudo o que escrevemos, ou mandar às favas, os leitores? Eles que se esforcem. Que leiam. E que escrevam, também. Afinal, quem escreve lê, e quem lê, escreve.
Então, temos um acordo tácito. Nada de escrever explicações. De agora em diante, escreveremos apenas pensamentos. Reflexões projetadas. Como se quiséssemos apenas dominar o contorno das ideias. Refletir para entender o limite entre o desconhecido e a iluminação. Por mim, tudo bem.
Inspiração
O pouco que li de Sexo Invisível e de Assim Falou Zaratustra. Tudo que li até hoje me inspirou. Tudo o que experimentei até agora me inspirou. Tudo que colhi e bati numa deliciosa vitamina na minha língua interna.
Sobre a obra
No texto apresento uma reflexão sobre o processo de escrita e sobre a pretenção de ser lido e aprovado. Iniciei com uma típica e leviana reflexão filosófica e depois deixei "minha solitária conversa" correr solta. O fim foi uma mistura de ambas as práticas.
Sobre o autor
Meu nome é Luiz Eduardo Barros, sou casado e tenho dois filhos. Sou de Duque de Caxias RJ e trabalho na CAIXA há 13 anos. O meu talento é fazer sorrir com o que escrevo.
Autor(a): LUIZ EDUARDO BARROS DOS SANTOS (Luiz Eduardo Barros)
APCEF/RJ