Sobre verdades daninhas e mentiras frutíferas

Sobre verdades daninhas e mentiras frutíferas

A terra, fria terra, enquanto a vida brota acima dela, o verde, flores, sons, bichos. Abaixo dela a vida também ferve, menos colorida, menos iluminada, menos fervente.

A terra, mexida terra, amolece com a água, transforma-se numa linha com poucas curvas enquanto o tempo passa. Até que a pá e a enxada a tocam, machucam, mas ela não sangra. Corta, mas ela não grita. Tiram um pedaço, mas ela não reage.

E tudo isso já passou. Dias, após a nova chuva, até a terra ser novamente cortada. Dessa vez, de dentro pra fora por uma... uma mão. Dedos sujos de terra, unhas que já se alimentaram dela. A mão de quem achou que morreu, mas não morreu, a mão de quem luta por uma escolha que agora não está mais com ele. A mão de um “vivo-morto”.

Enquanto a mão rasga a terra, um corpo surge daquele cemitério. Restam apenas algumas covas até uma grande árvore ser derrubada, mas parece que, naquele momento, uma nova vaga foi aberta e a contagem para sua morte, foi reiniciada. Grão após grão, punhado após punhado, um corpo todo sai e apenas uma palavra sai de sua boca:

- Água! – Ele balbucia

E assim, fincando os dedos na terra e buscando impulso, esfregando os joelhos no chão buscando forças, aquele corpo ainda adormecido foi em busca de um local em plena noite fria. Seus corpos ainda estavam grudados com uma terra escura, pegajosa e cheia de nutrientes. Toda vida virou nutriente e no fim, aquele corpo havia sido recusado a seguir o ciclo da vida.

Uma trilha de terra, areia, grama e um grande buraco foram deixados para trás lentamente, como se uma lesma-humana buscasse novamente ser humano e não lesma enquanto aquele corpo procurava um local:

- Solano, Solano – Foi apenas o que conseguia se lembrar

Aquela era uma casa simples, pintada por um cal branco, e moldada para parecer simples por fora e por dentro. As sombras que lá saíam indicavam um homem de hábitos noturnos e leitura voraz. Na entrada, uma pequena placa: Médico Solano Fritz. Não era a primeira vez, e claramente não parecia a última que aquele corpo revivido visitaria aquele lugar.

Os dedos imundos de terra se fecharam em torno do punho e abriram apoiando o chão, os joelhos arranhados pelo atrito com a terra juntaram-se enquanto ele reaprendera como se manter em pé novamente. O corpo subiu pelo tronco, juntando os joelhos, depois o pé esquerdo apoiado no chão e o joelho fez o último impulso. Tupo por uma única e forte batida na porta.

Logo aquele esforço, sua visão escureceu e ele apenas lembra de ter visto a luz uma última vez. Ele agora era humano novamente, porém ainda parecia mais morto que vivo.

- Nunca imaginaria que você morreria me devendo. - Fala Solano, enquanto forçava um sotaque

O corpo começa a tossir, recobra uma mínima consciência, sente o frio daquela cama, apenas uma grande chapa de aço.

- Água. - O corpo repete.

- Sabia que os zumbis são histórias dos haitianos? - Fala Solano sem se importar com o que aquele corpo falava.

Enquanto aquele corpo ainda estava deitado, Solano limpava toda aquela terra impregnada. Levemente, fingindo não sentir nojo de tudo aquilo. Duas luvas em cada mão, um pano úmido e a terra saía pouco a pouco, dando lugar às já conhecidas inúmeras cicatrizes.

- De acordo com o vudu, o zumbi é uma pessoa que teve sua alma roubada e não pode mais controlar o seu corpo - Fala Solano enquanto termina de limpar todo aquele corpo.

- Água! - Repete aquele corpo.

- Se eu te der um copo de água agora, diante de sua desidratação, você vai morrer. Queria saber o que aconteceu como você e onde ficou a sua carteira para que pague por essa consulta.

- Vá à me… - Fala aquele corpo

- Bem, não roubaram sua alma então. - Solano pega um pano limpo, molha numa preparação de água, açúcar e sal e começa a pingar na boca daquele homem.

- Mais, mais água - Geme e suplica aquele corpo.

- Sabe, meu pai gostava de contar uma história - A água pinga bem devagar na boca daquele homem.

- Ele falava que a erva daninha precisa de menos água e cresce independente da hora, local e estação – Ele fala enquanto a água continua pingando.

- É estranho, meu amigo, que quando eu li no jornal sobre a sua morte eu pensei que nem uma grama cresceria sob seu caixão e aqui está você: Nascido da cova.

- Pense que estou te gotejando para que você nasça de novo. Assim como meu pai me ensinou. - Falava Solano enquanto sorria.

Esquecendo toda dor e cansaço, aquele homem também sorriu e abriu mais a boca para receber os pingos de água, açúcar e sal.

Solano percebeu que aquela história animou o seu amigo e decidiu continuar a contar.

- Meu pai também contava como belas orquídeas, mesmo que belas e lindas podem ser apenas invasoras em alguns locais. Minha irmã sempre chorava quando ele puxava as plantas pelas raízes e tocava fogo em tudo. Mas ele sempre dizia que para cuidarmos da vida temos que priorizar o que importa. Por isso, se eu lhe desse água daria uma orquídea invasora pro seu organismo. E continuou a contar:

- Por isso, decidi estudar medicina, li tantos livros, sei de tanta coisa, mas se a minha biblioteca queimasse, eu conseguiria reescrever metade de tudo.

- Seu pai era legal, você é apenas um louco por dinheiro - Balbuciou aquele homem, dando um sorriso irônico de quem aceitou que retornou do mundo dos mortos.

Solano riu, mas aceitou o golpe, continuou pingando aquele soro na boca do seu paciente enquanto esfregou uma espécie de sanativo naqueles joelhos estremamentos machucados e praticamente em carne-viva.

- Isso dói - Reclamou enquanto desmaiava naquela cama gelada

Durante dois dias Solano cuidou do corpo de seu paciente. Ele lavou o corpo um esponja molhada, colocou curativos em seus joelhos, cortou suas unhas e até soprou uma fumaça de rapé em seu corpo. Solano que era um médico autodidata, mesmo usando o sobrenome de outro médico famoso na região, não ficava preso a tratamentos convencionais. Seja tratamentos físicos, seja engôdos mentais.

- Bem-vindo ao mundo dos vivos, Josias. - Falou Solano enquanto Josias levantava da cama, um pouco tonto, mas agora mais no mundo dos vivos que os mortos.

- Tudo graças àquela história do seu pai. Nem sei como ele investiu tanto na criação de um filho que se tornou um médico sovina. - Riu Josias, voltando a espetar o ego de Solano.

- Muito engraçado. Aqui está o custo de tudo. - Solano entregou a conta pra Josias que não se assustou e apenas fez um sim com a cabeça.

Com algum esforço, Josias vai em direção à porta. Respira fundo e se abre para o novo mundo. As marcas no chão, a terra mexida e todo aquele caos não mais existe. Uma grande chuva atingiu a cidade nos últimos dois dias, tudo é apenas memória. Ainda assim, as manchetes de sua morte continuam e ele não sabe como reagir a isso.

Ele então olha pra Solano, que está ajeitando os seus óculos redondos, seu jaleco branco com uma sujeito no colarinho. Panos molhados são vistos pelo local. Um copo com soro, curativos soltos e muito lixo que ele se prepara para colocar pra fora. Por fim, ele desarma o coração e diz:

- Mande um abraço pro seu pai.

Solano olha fixamente para ele, dá um sorriso, ajeita os óculos e diz:

- Sou órfão, quem me contou aquelas histórias foi o jardineiro do orfanato. – Fala enquanto retira as luvas e continua:

- Um médico faz tudo para não perder seu paciente - E fecha a porta na cara de Josias.

- Mais que grande... - Reclama Josias enquanto a porta bate em seu nariz.

E assim Josias retorna ao mundo que ele de fato nem havia saído. Mal sabe ele que tudo tem um motivo e os fantasmas que ele adquiriu logo iriam atrás dele.


Compartilhe essa obra

Inspiração

A continuação de um conto

Sobre a obra

A história foca na ideia dos fins justificarem os meios, porém por um caminho diferente.

Sobre o autor

Escritor por insistência e autor de alguns livros.

Autor(a): THULIO PHELIPE ANDRADE DE SOUZA (Thulio)

APCEF/PB