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Ladrilhos Andaluzes
Como é que ainda me lembro de tanta coisa? Eu devia ter não mais de quatro anos na época. O jardim do tio Toninho era cheio de perfumes e plantas exóticas: maracujás, flores roxas, folhagens em cores vivas. Estávamos no auge daquele verão fatídico; não fazia sentido a piscina redonda vazia, com folhas secas no fundo. Havia também um trampolim. Minha mãe me alertava para não chegar perto. Eu sonhava acordada na varanda descoberta, deitada no chão, olhando o céu noturno. A casa ficava perto do mar. Lembro-me do cheiro, mas não de ter visto a água. Os ladrilhos frios, com desenhos em tons de marrom, azul e branco, revestiam a mureta e uma parte do piso. Ladrilhos andaluzes, alguém disse. Até hoje, as duas palavras me transportam para aqueles últimos dias felizes ao lado de minha mãe, antes de ela morrer em consequência de uma queda, caminhando pela mata atlântica nas imediações da casa. Uma tragédia. Outra palavra que ouvi dos adultos, sem compreender, e que ainda assombra as noites silenciosas, quando adentro sozinha o território dos pesadelos.
Tio Toninho me contava histórias. Quais? Essa é uma das memórias que se perderam. Ninguém jamais me disse que ele era meu padrinho. Descobri anos depois, por causa de um cartão de Natal recebido pelos correios, ainda guardado na pasta junto a outros documentos. Um bosque de pinheiros, com flocos de neve prateados caindo de um céu anil: para minha afilhada, com amor. Ele desapareceu. Naquela época, não me ocorreu perguntar a ninguém sobre o seu paradeiro. No envelope, constava um endereço de Chicago. Nenhuma fotografia. Até onde sei, nunca voltaram a mencionar seu nome.
As lembranças do que aconteceu depois, quando eu tinha dezesseis anos, são mais nítidas. A casa era outra, escura e solene, com móveis respeitáveis em madeira maciça, e sinistras janelas altas que davam para uma rua cinzenta e sem árvores. E meu pai. Um aparador antigo, imóvel na sala congelada. Falava comigo só o necessário, e nunca me olhava diretamente. Nilza, sua segunda esposa, nunca foi uma mãe para mim. Era dez anos mais velha que eu, dezoito anos mais nova que ele. Tinha cabelos curtos e um curso de enfermagem incompleto. Eu entendia por que meu pai se casara com ela. Queria alguém para cuidar da casa e de mim. Mas nunca entendi por que ela se casara com ele.
A discussão entre Nilza e meu pai começou por nada. Um copo fora do lugar, um comentário atravessado. Mas cresceu rápido, como se estivesse represada há anos, por baixo do silêncio opressivo. Me escondi no quarto. As frases chegavam a mim entrecortadas, atravessando o corredor, se perdendo nas paredes. Eu não queria saber. Até que ouvi o nome de minha mãe na voz de Nilza, agora cristalina: me respeite, eu não sou a Marta! E a resposta dele, abafada, quase adivinhada: você nunca vai ser a Marta. Depois, o silêncio pavoroso, a porta se fechando com cuidado, os passos discretos descendo os degraus. Nós duas já sabíamos: quando meu pai saía para caminhar sem rumo, não voltava tão cedo.
E Nilza me falou de uma casa perto do mar onde meu pai, minha mãe e o melhor amigo dele passavam os verões. Enquanto eu ouvia, quase podia ver o corredor da casa de tio Toninho. Num relance, o quarto dele, a cama enorme e toda branca, a parede de vidro com a vista para o jardim. Me ocorreu que eu não tinha nenhuma lembrança do cômodo onde eu dormia. Havia cochilado lá fora numa noite quente, com as costas nos ladrilhos frescos, olhando as estrelas. Tenho a impressão de que minha mãe estava ao meu lado. Conversando com quem? Um homem? De acordo com Nilza, minha mãe voltou grávida de uma dessas viagens. Meus pais não tiveram outros filhos além de mim. Nem antes, nem depois. O rosto angelical de minha mãe, seus longos cabelos escuros, a voz suave e firme... de onde vinha essa imagem? Formava um contraste com os adjetivos que os parentes atribuíam a ela. Mundana. Inteligente. Desbocada. Uma vadia com formação superior. Eu podia jurar que tinha ouvido meu pai gritando com ela antes do acidente.
Hoje vivo numa casa simples e moderna, banhada de sol, com janelas amplas e cortinas floridas. Diogo, meu companheiro, é tranquilo e jovial. Está sempre em movimento. Seus olhos brilhantes, cor de mel, refletem com precisão seu estado de ânimo. Viver com ele é fácil.
Quase nunca vejo a Nilza. Soube que ela trabalha como cuidadora de idosos. Meu pai não nos deixou nada. A voz dela ainda me persegue: eles não tiveram outros filhos. Nem antes, nem depois. Mandei várias cartas para o endereço de Chicago, e nunca tive resposta.
Mas no início do outono passado, sonhei que estava de volta à casa da praia. Eu era a mulher que esperava na cama de lençóis brancos, diante da parede envidraçada que dava para a piscina e para a mureta de ladrilhos andaluzes. Mais tarde, no fim do quarteirão, a trilha que adentrava a floresta. Meu pai me perseguia; não era minha mãe, era eu. Pela mata atlântica, barrancos de terra úmida, cascalho, folhas marrons caídas, o chão escorregadio das chuvas recentes. Caindo, caindo. Acordo tremendo, o suor frio grudando a camisola no meu corpo. Diogo me abraça. Escondo o rosto no peito dele, e inspiro seu cheiro reconfortante. Foi só um pesadelo.
Nada daquilo é real. Tudo que existe é o quarto banhado pela luz da manhã, a cama aconchegante com o edredom colorido, Diogo cantando enquanto se arruma para trabalhar. Estou atrasada. O casal idoso que mora ao lado acorda cedo. Quando eu aparecer na porta, vão me oferecer café, e eu vou sorrir. Não gosto da noite. O sol sempre devolve tudo à normalidade.
Mas a dúvida permanece, como uma cicatriz que repuxa quando o tempo esfria. Nem ao menos sei o nome da cidade, perdida entre tantas do litoral brasileiro. Ainda assim, toda vez que viajamos para a praia, me afasto de Diogo e faço longas caminhadas pela costa. Meu olhar percorre os muros das casas antigas e as varandas voltadas para o mar, as paredes de vidro e os canteiros com flores roxas, na esperança de reencontrar os ladrilhos andaluzes.
Inspiração
Como boa parte do que escrevo, a inspiração surgiu a partir de um sonho estranho, ao redor do qual criei todo o ambiente e a história.
Sobre a obra
Trata-se de um conto no qual utilizo imagens sensoriais, discurso indireto livre e fluxo de consciência. Estas técnicas são úteis para narrativas que confundem realidade com imaginação.
Sobre o autor
Atualmente, tenho oito livros publicados e cerca de sessenta prêmios literários. Minha escrita aborda temas como gênero, violência e traumas, desigualdade social, maternidade, política e relações humanas no Brasil contemporâneo.
Autor(a): JENNY ALEXANDRA RUGERONI (Jenny Rugeroni)
APCEF/SP