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O castelo da bruxa
Exausta, desci da bicicleta no alto do morro. Vi o céu do lado oposto da baixada, variando entre lilás e alaranjado, as luzes da cidade se acendendo em alguns pontos. Sempre fui fascinada pelos crepúsculos de primavera; havia algo de misterioso nas nuvens que pareciam pegar fogo, no jogo de luz e sombra nas fachadas. Por que a vontade repentina de ir pedalar ali, no bairro onde havia passado a infância? Seria talvez uma intuição? Um desejo de recolher os fragmentos que fizeram de mim o que eu sou?
Já havia passado a casa onde morávamos, no meio do quarteirão. Estava oculta por um muro alto, que antes não existia. Da rua, só se via uma parte do telhado banhado de sol. Nenhum vestígio do meu querido quintal de terra. Será que ainda existia o salgueiro? Aos catorze anos, deitada no sofá da sala, eu vislumbrava pela janela seus ramos melancólicos, ouvindo as músicas que meu pai colocava na vitrola e tentando entender o mundo dos adultos: por que lamentar a sorte de um homem que matava uma mulher “por amor”? E por que meu pai não ouvia alguma coisa mais alegre? Eu chorava pela vida perdida da mulher, sem assimilar ainda que a cultura popular replicava os dramas dos telejornais sensacionalistas. Chorava também pelo Davi. Ele terminara o namoro comigo sem nenhuma explicação, depois de dançar com outra menina numa festa da escola. Quando vinham me perguntar, eu disfarçava: é só uma coceira no olho. Já sabia que me achavam jovem demais para sofrer por amor. Hoje percebo que nunca chorei tanto por um amor perdido como naquele verão. Talvez por ser o primeiro. Bem mais do que as músicas que meu pai ouvia, o vento no salgueiro evocava a dor da ausência.
Atravessei a rua, tentando mudar o ângulo. Além do telhado, apareceu o topo da janela. O salgueiro continuava lá, alquebrado e triste, um velho amigo guardando o segredo de minhas angústias adolescentes.
Desci a ladeira com cautela, apertando os freios da bicicleta. Senti o vento nos cabelos. Quando criança, pedalava com meu irmão em alta velocidade, apostando corrida, aterrorizando os cachorros da vizinhança. Queimávamos os pés descalços no asfalto e tomávamos banho no tanque de cimento, como se fôssemos reis. Para onde tinha ido o espírito de aventura? Agora as mãos transpiravam; o declive do morro me dava vertigens.
No final da ladeira, deparei com a praça onde eu me escondia quando não queria ser vista. Estava tomada pelo mato. Onde foram parar as crianças e os cachorros das décadas passadas? Provavelmente, ocultos pelos muros altos construídos ao redor das casas. Do lado oposto da praça, avistei o sobrado misterioso. Ficava na baixada, onde a noite caía antes, e estava quase completamente na sombra. Na parte inferior, próximo ao solo, as paredes de pedra se erguiam, tomadas pelo limo. As janelas altas permaneciam fechadas. O que teria acontecido com a mulher de aparência cigana que surgia na varanda, com a longa trança de cabelos negros que desciam até a cintura? Às vezes me dava a impressão de que ela nem havia existido.
Meu irmão apelidou o sobrado de “castelo da bruxa”. Parecia mesmo um castelo, com o telhado irregular e as paredes revestidas com pedras, uma torre dividindo a varanda e as três janelas iguais, que lembravam vitrais de igrejas. Junto à calçada, longas floreiras de cimento com plantas espinhosas protegiam a mureta, que também era de pedra. A caminho da escola, víamos de relance a mulher vestida de preto, os olhos escuros como bueiros. Quando o caminhão estava do lado de fora, avistávamos também um homem muito velho, usando um boné encardido. Sua aparência prosaica formava um contraste com a mulher. Nossa curiosidade criava as teorias mais absurdas: seria mesmo uma bruxa? Meu irmão não assumia que tinha medo. Eu mal sabia que, pouco tempo depois, contaria a ele:
- Eu conheci a bruxa. Falei com ela.
E as pupilas se dilatariam nos olhos castanhos familiares:
- Você não fez isso.
- O nome dela é Madalena - segredei.
- Como é que você sabe?
- Ela me contou.
- E o velho?
- É marido dela, acredita? Eu jurava que era pai. Como é que o cabelo dele é todo branco, e o dela é escuro?
- Falei que ela é bruxa, não falei?
- Calma, que vou te contar tudo.
Eu estava matando aula. Era um outubro atípico, a semana mais quente do ano. Seria capaz do asfalto derreter as solas de minhas sandálias. Ficar na escola era insuportável. Não tinha nem ventilador. O professor de biologia implicava que eu estava dormindo na aula, mas era a tontura por causa do ar abafado. A árvore junto à escadaria da praça fazia uma sombra boa. Quase ninguém circulava por ali de manhã. Eu me distraía com um livro encontrado no lixo: um romance obscuro sobre um homem que bebia por um amor não correspondido. Me identificava. Sentia o desespero do personagem quando a amada, uma italiana de cabelos curtos, ia se distanciando e deixando de atender os telefonemas. Anos mais tarde, encontrei o mesmo livro num sebo, e tive curiosidade de reler. Achei bem dramático, a trama se arrastando num ritmo lento, com descrições intermináveis da beleza da italiana. No final, ela se casava com outro, e o homem caminhava na chuva, bêbado, jurando nunca mais amar ninguém. Aos catorze anos, morrer de amor me parecia plausível.
- Como você consegue ler de frente para o sol? – A frase me arrancou do sonho, e me deparei com a mulher diante de mim. A claridade atravessava a árvore, e fazia desenhos em seu vestido. - Você tem uma luz muito bonita - continuou ela - Eu consigo ler a aura das pessoas.
Então ela se apresentou:
- Sou Madalena, e você? Vamos entrar, faz muito calor aqui fora.
Subimos as escadas de pedra que levavam à pesada porta de madeira. A sala ampla com pisos de terracota cheirava a comida azeda. Havia sujeira nos móveis gastos e um rastro de cachorro no chão, mas eu não via nem ouvia cachorro nenhum. Sobre o aparador, notei duas fotografias emolduradas em preto e branco. Na primeira, reconheci Madalena mais jovem, ao lado do marido, então com cabelos escuros. Na segunda, uma criança pálida sentada numa almofada, com narinas largas e olhos de sono.
- Que livro é esse? - ela quis saber.
Mostrei a capa.
- É uma história de amor.
Pensei e não disse: minha história com Davi. Quanto mais eu tentava dialogar, mais ele me fugia. Eu só queria uma resposta. Só queria compreender o que estava acontecendo. Ou, ao menos, era nisso que eu acreditava. Talvez a resposta fosse apenas prolongar minha angústia.
Na cozinha, Madalena me serviu um bolo de fubá amanhecido. Não me importei com os restos de gordura no prato mal lavado; na adolescência, a gente comia qualquer coisa. Do outro lado da mesa, ela me encarava, bebericando o café que eu havia recusado.
- Tem uma pessoa que te ama muito. Minha intuição está dizendo.
- Ama nada – rebati.
Ela deixou a xícara de café na pia e se encostou no balcão.
- Sossega esse teu coração. Ele só está um pouco confuso, mas as coisas vão se clareando.
Como sossegar meu coração? Fazia dias que eu não dormia direito. Vivia com vontade de chorar, com aquela angústia permeando minhas falas e meus pensamentos.
- Ele vai te procurar. Estou vendo isso.
Derramei a história toda: a gente namorou por um tempo, sabe? Depois ele não quis mais. Apareceu com outra menina, assim, do nada. E parou de conversar comigo. Se ele quisesse, a gente poderia ser feliz. Falar de Davi me confortava, como se ele estivesse presente de alguma forma, quebrando o silêncio enlouquecedor.
- Não sei onde foi que errei.
- Mas foi você quem errou?
Minha voz silenciou na garganta, um calafrio eriçando a pele dos meus braços. As músicas que meu pai ouvia invadiram minha mente: por que é que as mulheres sempre são erradas?
- Teu coração é um tesouro. Feliz do homem que souber o teu valor. Você tem uma aura azul bem clara, e muita energia do bem.
Dizendo isso, ela me deu as costas, carregando o prato da mesa para a pia. Fiquei olhando os ladrilhos de terracota. O retângulo de luz que entrava pela janela vinha mudando de lugar, e agora era uma linha fina perto do rodapé. Eu não era boa. Era até bem egoísta, mentindo e cometendo desobediências. Vi o relógio na parede, marcando meio-dia. A manhã tinha se evaporado no calor sufocante. Eu precisava chegar em casa no horário certo, para não levantar suspeitas.
Ao me despedir no portão, ainda arrisquei: você tem certeza? Essa pessoa vai mesmo me procurar?
Confia, disse ela.
Mas os dias se passaram, e nada aconteceu. Comecei a duvidar que Madalena pudesse ver a aura das pessoas. Seria um pretexto para falar comigo? Para ocupar aquela manhã solitária enquanto o marido viajava? Com o tempo, meu desespero foi cedendo, o vento silenciando ao redor do salgueiro, a ausência de Davi se tornando cotidiana. Vieram outros amores. Um dia, aquele que se tornaria meu marido abriria um horizonte de possibilidades diante de meu olhar.
Contornei a praça e voltei pela rua de onde tinha vindo. Comecei a subir o morro a pé, empurrando a bicicleta. A casa na esquina oposta era simples, com portão de ferro e janelas azuis. A trepadeira no muro trazia uma nota de aconchego. Protegidos pela grade, dois cachorros de porte médio farejaram minha passagem e começaram a latir. Uma senhora espiou pela janela.
- Boa tarde – acenei.
Ela acenou de volta. No instante seguinte, apareceu do lado de fora.
- Liga não, eles são escandalosos. Cala a boca, Alfredo! Já pra dentro! Você também, Zé!
- Sei como é, eu também tenho um.
Ela fez uma pergunta corriqueira, relacionada com o tempo, para dar sequência à conversa. Você anda sempre de bicicleta? Na verdade, retomei a atividade física faz pouco tempo. Morei no quarteirão de cima, antes de me casar. Não lembro de você. Eu também não me lembro da senhora. Mas lembro da moradora daquela casa. A Madalena? Sim, a Madalena. Ela morreu faz um tempo. Vivia bêbada. Aí o marido foi embora da cidade, não sei se vendeu a casa, está fechada desde então.
- Ela perdeu um filho pequeno e ficou tantã, sabe? Nunca se recuperou.
- Não sabia – Pensei nos olhos de sono da criança na fotografia.
- Um menino de quatro anos. Foi atropelado bem aqui na frente, por um carro que descia o morro e perdeu o freio. Por isso ela começou a beber. No fim, a coitada não falava coisa com coisa.
Me deu a impressão de ter ouvido o som do vento no salgueiro, mas não era possível. Não ali, a mais de um quarteirão de distância. E a lembrança já não me trazia o menor desespero. Teria Madalena visto minha aura, num tom de azul bem claro? Olhei para o sobrado do outro lado da praça, com o telhado irregular desenhado contra o céu. A noite havia caído por completo, e as luzes da rua iluminavam a fachada de pedra. Era só uma casa.
Inspiração
A ideia surgiu a partir de um incidente acontecido na minha adolescência, e relembrado quando passei em frente à casa.
Sobre a obra
O conto mistura ficção e memória, podendo ser considerado autoficcional.
Sobre o autor
Atualmente, tenho oito livros publicados e cerca de sessenta prêmios literários Minha escrita aborda temas como gênero, violência e traumas, desigualdade social, maternidade, política e relações humanas no Brasil contemporâneo.
Autor(a): JENNY ALEXANDRA RUGERONI (Jenny Rugeroni)
APCEF/SP