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SE CONSELHO FOSSE BOM...
Pelo menos não sou culpado por não tentar. Olha que tentei, mas não consegui encontrar uma única memória capaz de me deixar a certeza de haver uma alternativa.
Ali, naquele momento, eu só sabia que tudo sempre começava do mesmo jeito:
— Rapaz, se conselho fosse bom, fulano não dava, postava no Facebook. Mas, se você me perguntar o que eu acho, eu te digo...
Esse era o Toledo.
Ou melhor, essa era a versão “Tempos Modernos” do Toledo.
Darwin certamente usou o Toledo como modelo da Teoria da Evolução, porque a capacidade de adaptação ao meio que esse homem tem, nenhum outro animal conhece. Olhando para seu corpo curvo e adiposo, excessivamente concentrado em 160 centímetros de pura boa vontade, ninguém dá nada. O que pouca gente sabe é que o Toledo é um homem de mil caras, tão versátil e variado quanto o closet de uma atriz de Hollywood. Eu, como telespectador efusivo desse drama da vida real que é o Toledo, venho acompanhando sua evolução com o passar dos anos. Vi, vivi e venci várias fases distintas. Passei pela fase “Comércio Virtual” (“Se conselho fosse bom, nego não dava, leiloava no Mercado Livre”), pela “Sertaneja Universitária” (“Se conselho fosse bom, novinha não dava, arrasava na balada”), pela “Paz e Amor” (“Se conselho fosse bom, o mundo seria uma grande bola de energia onde todas as pessoas seriam fontes inesgotáveis de um prazer sem tamanho capaz de abrir todos os caminhos para os afluxos de boas vibrações e sintonias de agradecimento e gratidão”), pela “Djavan” (“O brilho translúcido e opaco da amálgama balaustrada de um conselho singularizaria sobremaneira todos os sintomas catatônicos de uma letargia inimaginável, com o vivente não se entregando aos subterfúgios da caetanização, ora que sim, ora que não”) e até pela fase “Para Bom Entendedor” (“Se fosse, seria”).
Por isso, pode acreditar: independente das palavras que ele use, das construções com as quais formule seus enunciados, do esmero filosófico com que pincele seu ponto de vista, o Toledo sempre vem com essa ideia.
E é aí que o problema começa...
* * *
Domingo. Manhã de sol. Calor. Aquele sambinha maroto vindo da barraca do Grupo do Bola. Quase meio-dia. Eu sentado na areia, olhando para o mar, em pura contemplação. Nossa pelada de todo final de semana tinha recém terminado.
— Da próxima vez o Neném tem que fechar melhor a frente da zaga, senão vai ser outro chocolate.
Quando percebi, ele já sentava ao meu lado e bebia com avidez homérica o resto de caipirinha que eu deixara no copo.
Esse era o Toledo: bom de coração, ruim de noção. Talvez por toda a simplicidade que envolvia sua personalidade, ele não se fazia de rogado. Nunca pedia licença, nem perguntava se podia. Não era maldade, nem falta de educação. Era o Toledo. Ele simplesmente era assim. Não ligava para convenções. Não se importava muito com as avaliações dos outros. Na fila do banco, não cedia vez para as mulheres com bebês de colo (“Vai dizer que não tinha ninguém com quem deixar essa criança?”). Em casamentos, fatalmente era o primeiro na fila da comida.
— Vai querer?
Ele apontava o copo vazio em minha direção.
— Não. Fica à vontade.
Com um movimento exagerado, ergueu a cabeça e abocanhou todo o gelo que havia sobrado no fundo do copo.
— Mas me diz. E essa cara? Tá pensando em quê? Dá pra ver que alguma coisa te incomoda.
— Não sei. Na verdade, só estou aqui olhando o mar. E pensando.
— Pensando em quê? – se não o conhecesse há tanto tempo, seria capaz de acreditar que ele ria de mim.
— Não sei como explicar.
— É mulher?
— Quê?
— O problema que te faz ir assim longe e ficar com essa cara de ator de filme de romance adolescente, é mulher? Porque geralmente quando alguém fica assim o problema é mulher.
Por mais que fosse sujeito letrado, estudado e pós-graduado, o Toledo mantinha ainda esse hábito de, naturalmente, observar, entender e vivenciar todos os aspectos da vida de acordo com um código de conduta próprio, um “modus operandi” no qual tudo sempre poderia ser visto da forma mais simplista possível e todos os problemas se resumiriam a um ponto inicial, no todo banal. E lá no fundo, na origem de todo o mal, fonte inesgotável de toda energia deficitária e problemática, de acordo com o “Código Toledo” está ela: a mulher. Tudo quanto era problema, exatamente todos os tipos, na cabeça dele, se resumiam a algum problema com mulher.
— Como vai a Naira?
— Agora? Deve ir bem longe já.
— Como assim?
— Nós terminamos.
— Puxa. – quando queria, ele conseguia ser extremamente eloquente. – Mas então tá aí. Mulher. Esse é o teu problema.
Toledo sendo Toledo: simplificador, pacificador e completamente sem noção.
— Quando foi isso?
— Semana passada. No dia depois do nosso aniversário. Depois que fiz aquilo que você me aconselhou a fazer. Lembra da parte do “Olha, se conselho fosse bom fulano não vendia a preço de banana, penhorava a peso de ouro. Mas e daí que é aniversário de namoro? Não tem problema ir ao churrasco do pessoal do clube. Com certeza ela também já tem outros planos para hoje, senão já teria te chamado pra fazer alguma coisa. Também, se for o caso, amanhã tu compras umas flores pra ela, junto com um brinco, e canta uma música do Jorge e Mateus. Ela vai ficar louca da vida. Vai se emocionar. Vai te abraçar e te beijar. E nem vai lembrar que vocês não fizeram nada no dia do aniversário. Rapaz, se conselho fosse bom, fulano não dava. Mas vai por mim. Não tem erro. Vai ser até melhor assim. Senão ela vai acabar criando expectativa e ano depois de ano depois de ano vai ficar esperando que você faça algo espetacular no dia do aniversário de namoro. E nada nunca vai estar à altura das expectativas. Nada vai ser bom. Porque ela vai querer cada vez mais e você não vai conseguir chegar nesse patamar simplesmente porque todo homem tem um limite muito baixo para romantismos e demonstrações de carinho. Isso é coisa que vem desde a época das cavernas. É coisa que já vem de milhares e milhares de anos de evolução. Então, vai por mim. Passo pra te buscar às sete. Mas nem te preocupa. Se, ainda assim, você quiser fazer alguma coisa, só para não deixar passar o dia em branco, eu te deixo em casa antes das dez. E aí você vai ter todo o tempo pra se transformar no melhor e maior amante do mundo”. Pois então. Foi depois disso. Quando cheguei de madrugada. Teve discussão. Teve briga. Ela me dizendo que eu era assim mesmo, que nunca a colocava em primeiro lugar, que sempre tinha alguma coisa mais importante. Ela gritando tudo isso, xingando, me fuzilando com o olhar. E eu, bêbado do jeito que estava, sem conseguir falar uma frase direito, sem conseguir me defender, explicar a situação. Rindo, ainda por cima. A última coisa de que lembro é dela dizendo que não era isso que queria pro resto da vida e que eu nem precisava me importar de tentar ir atrás dela porque ela estava terminando comigo. Aí ela bateu a porta e saiu. E assim terminamos.
Olhei de soslaio para o Toledo. Ele olhava fixamente para o mar. Parecia refletir sobre a cena que eu acabara de contar.
Não demorou mais do que dez segundos em contemplação.
Rapidamente, virou-se para mim e se levantou num pulo.
— Baita calorão. Preciso dar um mergulho. – e saiu correndo em direção ao mar, o gingado adiposo e desajeitado daquele movimento antinatural chamando atenção de quem passava ao lado.
* * *
— Como vai o Hugão?
Esse era o Toledo, já com as energias renovadas depois de dançar com Iemanjá, sentado novamente ao meu lado, com meu copo na mão, tomando descontraidamente a caipirinha que eu havia acabado de buscar.
— Não sei. Faz tempo que não nos falamos.
— Ele ainda mora em Floripa?
— Mora. Mas parece que agora está em algum lugar do Uruguai abrindo outra filial da empresa dele.
— Aquela de produtos naturais?
O Hugão (apelido carinhoso para “Victor Hugo”) era – ou melhor, ainda é – meu primo. E durante algum tempo foi meu sócio.
Há vários anos, logo que terminamos a faculdade, resolvemos abrir um negócio juntos. O que nos faltava de experiência sobrava em espírito empreendedor e vontade de prosperar. Talvez por isso não tenha sido tão difícil juntar forças e começar a trilhar um caminho lado a lado. Fui o responsável por conseguir o empréstimo no banco. Não foi uma soma muito alta, apenas o suficiente para que pudéssemos alugar um espaço e comprar os equipamentos necessários para iniciar nossa produção. Como administrador recém-formado, eu cuidaria da parte burocrática da coisa, enquanto o Hugão tomaria a frente da produção propriamente dita.
Como todo negócio que se preze, começamos pequenos. Trabalhando apenas com produtos sob encomenda. Não tínhamos uma vida de luxo, mas certamente estávamos bem longe de passar fome. Até que um dia, em uma conversa de boteco – porque essas coisas só podem mesmo acontecer ao redor de uma mesa de bar –, enquanto falava com o Toledo sobre nossos planos de expansão, surgiu a fatídica frase: “Olha, se conselho fosse bom não se dava, vendia. Mas, se você me perguntasse, eu te diria para dar um passo mais largo nessa vida. Tudo bem que a empresa de vocês está indo bem, mas isso não vai durar para sempre. Esse negócio de produtos naturais é modinha. Você acha mesmo que esse povo que fica comendo luz e regurgitando capim vai mesmo aguentar muito tempo? Logo isso passa. E aí quero ver vocês se manterem. Se fosse comigo, eu sairia dessa sociedade e começaria um negócio só meu, como fez o Nicão, meu vizinho: ele criou uma empresa de distribuição de mala-direta. Agora trabalha em casa, não tem patrão nem ninguém pra ficar enchendo o saco e ainda faz o horário que quer. E pra complementar a renda, entrou numa de ser representante de uma empresa que vende perfume e maquiagem. E isso que ele não entende nada do riscado. Pra ver como é coisa quente! E o melhor dessa empresa é que eles têm um sistema de progressão que faz com que cada um dos representantes vá subindo de posto dentro da hierarquia da empresa à medida em que vai trazendo mais gente para trabalhar. É coisa de primeiro mundo. Parece que esse tipo de negócio tá em alta lá nos Estados Unidos. Se quiseres, posso falar com o Nicão pra ele te incluir nessa”.
Ah, o Toledo... Sempre com um enorme coração, dando os piores conselhos do mundo na melhor das boas intenções.
Mas claro que não me eximo de culpa nesse caso específico, porque se vendi minha participação na empresa para o Hugão a um valor irrisório e entrei para a empresa do Nicão para dali a dois meses me encontrar desempregado e com uma dívida no banco que crescia exponencialmente, foi muito mais por causa de uma infeliz conjuntura de mercado do que devido a um conselho bom, mas mal aproveitado (ou a uma dica ruim que acabei seguindo).
— Sim. Aquela de produtos naturais. Hoje é o segundo maior fabricante de suplementos alimentares do país. Tem duas fábricas nos Estados Unidos, uma na Argentina e agora vai abrir a primeira no Uruguai. – respondi, enfim, tentando minimizar qualquer traço de mágoa que, porventura, ainda pudesse evidenciar em minha fala o desalento daquele “podia ser eu” que sempre vinha acompanhando as lembranças dessa época da minha vida.
— Nossa. Deu sorte ele, então! Quem diria que essa moda iria durar tanto?
* * *
Domingo, praia, calmaria.
De quê mais as pessoas poderiam possivelmente precisar para se reconhecerem verdadeiramente felizes?
Não faço a menor ideia.
E eu poderia chegar a alguma conclusão em relação a tudo isso ali mesmo naquele instante.
Não fosse o Toledo - que mais uma vez se levantou num pulo e quase me fez cair para trás - certamente agora eu já conheceria a resposta desse meu drama existencial.
Mas esse era o Toledo: simplista, rústico e nada existencial.
Empirismo puro.
— Bom, a tarde já vai longe, e agora também me vou. – disse-me, enquanto batia com as mãos nas pernas e jogava toda a areia da bermuda direto na minha cara.
— Vai aonde?
— Dar uma corrida. Ver o movimento. Depois, casa.
A simples tentativa de imaginar o Toledo correndo me pareceu tão normal quanto pedir uma receita de picanha na brasa para um hindu. Ele estava vários quilos acima do peso, quem sabe algo em torno de duas arrobas, e não era dado a praticar esportes.
Isso agora. Porque nem sempre o Toledo foi adepto do sedentarismo. Houve mesmo uma época em que frequentava a academia religiosamente: às segundas, quartas e sextas para fazer um trabalho de fortalecimento muscular nos aparelhos; às terças e quintas para praticar Tai Chi Chuan e Yoga. Lembro-me com clareza dessa época porque nos encontrávamos todos os dias. Eu treinava jiu-jitsu e muaythai. Queria ser lutador profissional. Era bem mais jovem, obviamente, e cheio de vigor e explosão física. E também muito ansioso. Tanto que acabei tendo minha carreira de lutador abreviada. Na verdade, ela terminou antes mesmo de começar. Terminou aos 40 segundos do primeiro round da minha primeira e única luta em um evento profissional.
No dia de minha estreia, cheguei com muita antecedência. O Toledo já estava lá para dar aquele apoio moral de última hora. Fizemos todos os preparativos, eu aquecendo como manda o figurino e o Toledo inspirando e expirando em posição de lótus no canto mais escuro do vestiário. Faltando vinte minutos para entrar no tatame, percebi que tinha esquecido meus fones, juntamente com a sequência de músicas que havia preparado para entrar no combate com a adrenalina a mil. “Não tem problema” – disse-me o Toledo – “Pode usar o meu fone. Também tenho uma lista de músicas bem inspiradora!”. “Tem certeza?” – perguntei um tanto aflito. “Rapaz, vai por mim. Se conselho fosse bom, o Apollo não teria lutado com o Drago no Rocky IV, mas garanto que não vai ter pra ninguém!”. Por fim, aceitei. E entrei no tatame ouvindo Marisa Monte. Resultado: duas costelas trincadas, o nariz quebrado e a certeza de que o mundo realmente precisa de mais palavras de gentileza.
Ah, o Toledo. Sempre assim desse jeitinho: o coração enorme, as melhores intenções e os piores conselhos do mundo.
Antes de iniciar a corrida – nem bem tinha andado dez metros –, ele se vira com uma expressão séria no rosto:
— Esqueci. Quero te falar uma coisa.
— Diga.
— Aquilo da Naira... Eu já sabia.
— O quê? – fiquei sem entender.
— Que vocês tinham terminado.
— Sabia? Mas como sabia? – tive que controlar a voz para que minha pergunta não soasse a puro desespero.
— Ela me ligou. No dia seguinte ao aniversário de vocês. Acho que foi no dia em que vocês terminaram. Ou que ela terminou contigo. Sempre me confundo nessa parte.
Fiquei mudo por breves instantes.
— O que ela queria?
— Um conselho.
De repente, tudo ficou preto. Senti um calafrio correndo pela espinha. Ao mesmo tempo, a respiração ficou acelerada. Minhas mãos, geladas. Quase não consegui articular:
— E o que você... falou... para ela? – disse, sem conter o desespero.
— Eu? Rapaz, se conselho fosse bom, não se dava, vendia. Não falei nada. Só desliguei o telefone. Estava com uma ressaca daquelas! E, além do mais, quem seria estúpido o bastante pra seguir qualquer conselho meu?
Inspiração
Todo mundo tem aquele amigo do coração que sempre tem um conselho para dar. O problema é quando só se percebe depois de algum tempo que esses, talvez, sejam os piores conselhos do mundo...
Sobre a obra
Essa é a breve história do Toledo, um amigo-irmão, parceiro do fundo do coração, que sempre tinha o pior conselho do mundo para oferecer ao amigo no momento mais inoportuno. "Se Conselho Fosse Bom..." é um conto que mostra com humor e irreverência o quanto um conselho ruim dado no pior momento - mesmo que com boa vontade - pode virar uma tragédia.
Sobre o autor
Publicitário de formação, economiário de ocupação e escritor de coração, sou um contador de histórias de final de semana. Autor dos livros "Prazeres" (contos eróticos), "Atemporal" (contos) e "Diário do Lobo Solitário" (romance), gosto de retratar cenas banais do cotidiano amplificadas pelo filtro do absurdo.
Autor(a): DIEGO RAMON VALLE VITAL (Diego Vital)
APCEF/SC
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