- Página inicial
- Detalhe obra
VISITA
Meia hora. O cheiro sobe e o café pinga. Gota depois de gota. Ping, ping, ping. Ritmo certo, pausado, cadenciado. Sequência de sons. Batidas: tum tum tum, no coração; toc toc toc, na entrada. Cacete! Custa usar a campainha? Deve custar... Seguir o fluxo, num movimento louco, levantar do sofá, caminhar até o olho mágico – que puta nome ridículo! Olhar. Olho. Olho. Eu, olho. Para fora, pelo buraco de vidro. Meu roupão não é de seda. Mais parece um trapo de cachorro. Largado, jogado. Vinte e cinco minutos. Tum, tum, tum. “A campainha, cacete! Não paga pra usar!” Quase grito. Mas a Tina nem ia ouvir. Ela é surda de um ouvido. Do outro, só meio burra. Por isso não usa a campainha. Que será que ela quer? Eu poderia abrir a porta e perguntar. Mas, quer saber? Hoje é domingo. Não estou para querer encontrar respostas. É mais fácil virar as costas e voltar. Para o sofá. Para a mesmice. Com essas pantufas arrastando a sujeira pelo chão da cozinha, só porque é domingo e todo mundo saiu e eu fiquei sozinha, sem saco para nada, com menos vontade ainda de querer achar vontade em algum canto. Vinte minutos. Tum, tum, tum! Mais batidas, outro fluxo, lixo, merda! Eu mato! Juro que algum dia eu mato! Dez. Tum, tum, tum! Ela não cansa? Parece que não? Parece, sabe? Sobre quem será a fofoca de hoje? Alguém do trabalho? A nora? A professora da academia que pinta sempre o cabelo com alguma tintura horrível que fede depois que ela começa a suar-e-sempre-deixa-a-raiz-aparecendo-aquela-porca? Há quanto tempo será que ela está ali? Dois minutos. Quanto tempo ainda tenho? Toca o despertador. O café já parou de pingar. O cheiro se perdeu no ar. Não tenho mais nenhum. Ainda sou a mesma, com aquele horrível medo de pijamas listrados. Coisa de outras épocas. Tum, tum, tum! Cacete! Tum, bum, ping, rasp: bate, bate, pinga, arrasta; porta, coração, café, chinelo. A porta range. Não tenho mais tempo. Então é isso. Oi, Tina!
Inspiração
Um momento banal da vida, um instante perdido no tempo, um domingo largado quando a última coisa que queremos é ter alguém batendo à nossa porta...
Sobre a obra
Em “Visita”, a ideia foi colocar o leitor direto na cabeça da personagem. Usei o fluxo de consciência para misturar pensamentos, sons, lembranças e irritações, quase como a nossa mente funciona de verdade. As repetições e a contagem regressiva dão ritmo ao texto e fazem uma situação comum ganhar, aos poucos, um sentido bem diferente.
Sobre o autor
Publicitário de formação, economiário de ocupação e escritor de coração, sou um contador de histórias de final de semana. Autor dos livros "Prazeres" (contos eróticos), "Atemporal" (contos) e "Diário do Lobo Solitário" (romance), gosto de retratar cenas banais do cotidiano amplificadas pelo filtro do absurdo.
Autor(a): DIEGO RAMON VALLE VITAL (Diego Vital)
APCEF/SC
Essa obra já recebeu votos de 0 pessoas
Essa obra já recebeu 0 votos (com peso)