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UMA DOSE DE SAUDADE
Nas paredes da memória
Os quadros vão perdendo a cor,
As vozes aos poucos se calam
E o silêncio cresce com fervor.
O tempo é capataz da lembrança,
Irascível carrasco e executor
Que nos deixa, sem dó, como herança
Folhas e flores com perfume e torpor
Hoje os dias não são mais os mesmos
Os almoços de domingo estão incompletos
Faltam as saudações feitas da janela
Com aquele sorriso maroto e indiscreto
De cabelos miúdos e olhos escuros
Que se fechavam em alegria
Mesmo na conversa mais simples e vazia
Ou nos deslizes de teus famosos furos
(Ahhh, Cumplicidade!
Quanto bem nos fazia!)
Sei que existe um sentimento ingrato,
Porém tão forte quanto o amor,
Que nos obriga a seguir, de fato
Mesmo com a alma rasurada pela dor
A vida seguiu como devia
Tal qual o rio segue seu curso natural
Mas nem de longe correu como queria
Esse meu egoísmo, tão humano e banal
Nesse mundo onde ambos calávamos
Nós nos entendíamos só com o olhar
Com as palavras que dissemos, brincávamos
E tantos significados pudemos criar
Tantas risadas, sem desacordo ou senões,
Tantas bobagens infantis deixadas no ar
Tantos abraços firmes e desajeitados
Tanta vontade de agora um deles continuar
(Ahhh, Verdade!
Quanta dureza no pesar!)
Durante muito, muito tempo
Inúmeras foram as verdades que aprendi
Vendo, ouvindo e crescendo
Com as lições que tomei de ti
Agora que as visitas não têm mais portas
Percebo o quanto tudo mudou
Aqui, nessa tua nova morada
Só o silêncio me acompanhou
Nos morros de teu descanso eterno
Cantam as árvores lenta melodia
De versos incompletos e rimas inaudíveis
Sinto como afago seus cantos incompreensíveis
E um consolo velado aos poucos se cria
Com o conforto da quente certeza
Que, enquanto tivemos tempo, fomos melodia
Fazendo valer uma vida de pura beleza.
(Ahhh, Saudade!
Com essa dose pequena vamos brindar!)
Então, por fim, quando o coração volta a doer
Só me resta este pequeno copo erguer
Num brinde às lembranças que o tempo não apagará
Ainda que a memória, no cair da aurora, esmorecerá
Deixando gravada em mim a verdade:
Por ser teu reflexo, inspirado e inexato,
Mesmo que o “nunca mais” doa mais que a saudade,
Serei sempre de ti o mais lindo retrato.
Inspiração
Em 2023 meu pai faleceu. Desde então, aprendi a conviver com a falta e com a certeza do "nunca mais". Essa é uma pequena homenagem que fiz para ele, como forma de lidar com a saudade que se faz sempre presente.
Sobre a obra
Poesia como forma de expressar sentimentos, sensações e formas de ver e entender o mundo. Sou adepto da livre construção, sem me ater aos formalismos e à rigidez das regras e dos formatos. Apenas palavras colocadas no papel - ou no digital - que transmitem mensagens e compartilham sentimentos.
Sobre o autor
Publicitário de formação, economiário de ocupação e escritor de coração, sou um contador de histórias de final de semana. Autor dos livros "Prazeres" (contos eróticos), "Atemporal" (contos) e "Diário do Lobo Solitário" (romance), gosto de retratar cenas banais do cotidiano amplificadas pelo filtro do absurdo.
Autor(a): DIEGO RAMON VALLE VITAL (Diego Vital)
APCEF/SC
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