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A ÚLTIMA PASSAGEIRA

A ÚLTIMA PASSAGEIRA

A história de cada um de nós, por mais simples que pareça, guarda momentos que poderiam muito bem entrar no roteiro de um filme ou de uma novela — embora, no meu caso, talvez coubessem melhor numa comédia de viagem.

Alegres, trágicas, românticas, bizarras ou cômicas: todos temos histórias para contar. Algumas, inclusive, só ficam realmente engraçadas depois que o susto passa.

Em 2018, viajei para a Europa com alguns amigos e, de última hora, incluímos Munique no roteiro, pois nossa passagem coincidia com o início da Oktoberfest.

Chegamos à cidade no fim da tarde e seguimos direto para o evento. Éramos seis e, como não tínhamos reserva nos ambientes fechados, ficamos nos jardins, os famosos beer gardens. Fazia bastante frio, mas nada que uma caneca de cerveja — ou várias — não nos fizesse fingir que não sentíamos.

Ficamos encantados com tantas marcas de cerveja e, principalmente, com aquelas imensas canecas de um litro, que na Alemanha parecem perfeitamente razoáveis. Começamos a beber alegremente, mas, logo no início da noitada, comecei a espirrar sem parar. A cada caneca, meu entusiasmo diminuía e minha rinite ganhava confiança. O nariz escorria, estava completamente obstruído, e eu ia perdendo a graça — e, possivelmente, a dignidade.

Um rapaz, nativo, ofereceu-me um pó branco. Recusei na mesma hora, certa de que estava diante de uma proposta criminosa internacional. Ele sorriu. Depois descobri que era uma espécie de rapé usado para amenizar os efeitos da rinite. Perdi o alívio, mas preservei a ficha policial.

Voltamos ao hotel, e minha noite foi péssima: eu não tinha sequer um remédio para desobstruir as narinas. No dia seguinte, fomos passear pelo centro de Munique e, de lá, o grupo seguiria novamente para a Oktoberfest.

Ainda sem medicação e já febril, percebi que não suportaria outra noitada. Decidi voltar para o hotel. Todos lamentaram, meu marido insistiu para que eu ficasse, mas ninguém iria perder uma festa daquelas por causa da rinite alheia. Assim, todos foram comigo até a estação do metrô para me embarcar e depois voltarem à cervejada.

O hotel ficava nos arredores de Munique, e nossa parada era a última estação do metrô. Parecia simples. Já tínhamos feito o percurso no dia anterior, e eu estava confiante, embora não soubesse exatamente qual linha deveria pegar — um detalhe pequeno, como descobriria depois.

Foi então que um rapaz de Cabo Verde, muito gentil, indicou o trem. Meu marido discordou, dizendo que não era aquele. Eu, porém, preferi confiar no rapaz que morava ali. Afinal, o que poderia dar errado? Essa pergunta, como se sabe, nunca deve ser feita numa crônica.

Eu estava sem chip local no celular e só teria internet ao chegar ao hotel. Combinamos que eu mandaria mensagem ao único amigo do grupo que tinha conexão. Como sabia o nome da estação e tinha certeza de que ela era a última, acomodei-me tranquilamente.

Dando uma de especialista em transporte alemão, passei a olhar as milhares de fotos que já havia tirado, sem prestar atenção às paradas. Minha lógica era impecável: se a estação era a última, bastava esperar o trem desistir de seguir em frente.

Em uma dessas paradas, nem levantei os olhos. Percebi o movimento das pessoas descendo, mas continuei firme nas fotos, certa de que ainda não havia chegado ao destino. Quando o trem partiu novamente, olhei para a frente e quase desmaiei.

Não havia mais ninguém naquele vagão. NINGUÉM! Levantei-me desesperada enquanto o trem seguia sabe-se lá para onde. Percorri vagão por vagão: todos vazios. Nem um passageiro, nem um fiscal, nem alguém vendendo água por um preço absurdo. Sem saber o que fazer, comecei a gritar por socorro, embora suspeitasse que meu público fosse composto apenas pelos bancos.

No meio do sufoco, parei por um segundo para raciocinar: o trem não podia estar andando sozinho. Alguém estava no comando e, em algum momento, teria de me ver — ou pelo menos ouvir a brasileira ensaiando um pedido de socorro em volume máximo. Continuei gritando até chegar ao último vagão.

De repente, o trem parou no meio do nada. Olhei pelas janelas e só vi mato. Meu desespero aumentou. Eu teria de descer ali? Seria aquele o estacionamento dos trens? Já me imaginei explicando, em péssimo inglês, como havia me tornado a única passageira de uma composição fora de serviço.

Após alguns segundos intermináveis, o trem começou a voltar. Fui respirando aliviada e parei de gritar. Sentei-me, envergonhada, tentando recuperar a compostura de quem, minutos antes, atravessava vagões vazios berrando por socorro. Não vi o maquinista — graças a Deus. Certamente ele me viu por alguma câmera e decidiu que devolver aquela passageira à civilização era a solução mais prudente.

Desci na estação e caminhei meio desorientada. Com meu inglês sofrível, conversei com alguns guardas, que me orientaram sorrindo — provavelmente divertidos com a turista que havia sequestrado a si mesma. Depois encontrei uma mulher muito simpática, que me explicou qual trem pegar.

Dessa vez, prestei atenção em cada estação, em cada placa e, se pudesse, teria perguntado até ao banco ao lado se eu estava no caminho certo. Por fim, cheguei ao hotel sã e salva.

Quando finalmente mandei mensagem, meu marido já estava muito preocupado com a demora. Contei o que havia acontecido. Eles ficaram aliviados — e ganharam uma pauta extra para a cervejada daquela noite.

Minha rinite me tirou da Oktoberfest, mas meu passeio solitário de trem garantiu ao grupo a melhor história da viagem. Hoje eu rio. Naquele dia, porém, teria preferido apenas uma caneca menor, um descongestionante e o trem certo.

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Inspiração

Comecei a escrever crônicas há alguns anos para participar do Talentos Fenae, tendo sido reconhecida no âmbito estadual em algumas edições. Continuo a escrever, tentando melhorar a cada nova edição do certame e já estou preparando um livro de crônicas e poesias.

Sobre a obra

Escrevo crônicas sobre fatos da minha vida, geralmente pitorescos, e observações do cotidiano. São narrativas e escritas em primeira pessoa.

Sobre o autor

Sou uma mulher de 65 anos que tem a mente inquieta. Depois da aposentadoria tenho me arriscado a escrever, bordar, pintar em vidros, aquarelas e até costurar roupas! A fotografia já é uma atividade mais longeva, foi a minha introdução no mundo das artes.

Autor(a): EDILENE MARIA MOURA FACUNDES (EDILENE FACUNDES)

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