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A praça é do povo!
Os campo-grandenses têm orgulho de viver em uma das capitais mais verdes do país. Parques, praças e ruas arborizadas estão por todo lado e não é difícil encontrar, em meio às vias públicas, animais silvestres como cotias, guaxinins e, especialmente, capivaras que passeiam pelas ruas como se estas fossem uma extensão de suas tocas. Partilhar da exuberância dos pássaros, como as araras, acordar com o alarido provocado pelas maritacas ou pelo canto suave dos sabiás-laranjeira faz parte da rotina dos moradores da Cidade Morena.
Entre as inúmeras praças espalhadas por toda a Campo Grande uma se destaca. A Praça Ary Coelho fica no ponto central da cidade ocupando um quarteirão inteiro. É um fabuloso conjunto contendo uma fonte luminosa com chafariz, um coreto, área de parquinho, bancos e dependências sanitárias. Todo esse equipamento urbano é protegido por variados tipos de arvores de diversas proporções, vastos canteiros e gramados. É um espaço de grande importância para a região, pois proporciona um ponto de encontro e bem-estar no local mais central da cidade. E sua presença também contribui para a regulação térmica e hídrica de toda a região. A praça hoje está cercada por um gradil construído na última reforma ocorrida em 2012.
Pelo que se sabe, a praça foi construída no início do século passado no lugar onde havia um cemitério que lá existia desde os primeiros tempos do início da urbanização de Campo Grande. Próximo ficava a antiga igreja de Santo Antônio que foi demolida para dar lugar à nova catedral. Os antigos “moradores” do cemitério do Arraial de Santo Antônio, como o vilarejo era conhecido em seus primeiros tempos, foram levados para onde hoje é o cemitério de mesmo nome, não muito distante dali.
Para além de questões puramente urbanistas, o doador das terras do atual cemitério, Coronel Amando de Oliveira, tinha a expectativa de obter bons lucros com ele. Entretanto, quis o destino que o coronel fosse vítima fatal de uma emboscada e acabou por ser o primeiro defunto do novo campo-santo.
Conhecida inicialmente apenas como Passeio Público, passou a ser chamada Praça 2 de novembro como uma lembrança do que antes havia ali existido. Na década de 1950 a prefeitura a renomeou para Ary Coelho em honra ao ex-prefeito da capital que fora assassinado em Cuiabá em 1952. Também foi erguida uma singela estátua em uma das aleias principais onde o homenageado, sempre sorridente, recebe os transeuntes de braços abertos. Diante de todos esses fatos, a praça possui um certo estigma causado pela memória das mortes que envolvem sua história. Para os mais impressionáveis, um lugar lúgubre e que deve ser evitado; para os demais, bom enredo para se criar histórias de tirar o sono das crianças. Assim, a população mantém uma relação de carinho e desconfiança com o lugar. Mas esses sentimentos não dizem respeito tão somente ao imaginário macabro e não são restritos à Ary Coelho.
Já foi o tempo em que as praças e os espaços públicos eram ocupados pela gente burguesa. O “esvaziamento” desses locais não é novidade. Não é de agora o fenômeno pelo qual as pessoas deixaram as ruas e as janelas de suas casas, onde viam e eram vistas pelos seus vizinhos, e passaram a se recolher ao interior de seus aposentos. Dizem que tudo começou com o surgimento da televisão. Com o tempo esse movimento se intensificou. Hoje cada família tem o seu espaço vital reduzido às paredes de sua moradia, transformada em uma central de entretenimento com equipamentos e streamings os mais variados à sua disposição. O que não parou por aí, pois dentro da própria família cada membro acabou por ficar limitado ao perímetro do seu quarto, transformado na última trincheira de sua individualidade. Com isso, o que restou aos espaços públicos? Acabaram ocupados por gente “desconhecida”, gente provavelmente perigosa, segundo o imaginário popular, ou ao menos de boa parte da população.
Sobre a Ary Coelho, em particular, ouve-se muita gente dizer que o lugar é feio, sujo e reduto de desocupados, o que não condiz de forma alguma com a realidade. Provavelmente seja a impressão de pessoas que nunca lá estiveram ou que só passaram sem perder seu tempo para se certificar. Assim, embora a maioria da população ainda mantenha uma relação de carinho com o espaço, credita este sentimento às lembranças de tempos que já vão longe ou de impressões de gente que já partiu. Isso, por si só, já antecipa a condenação e o fim do espaço em um futuro que não temos como precisar.
Não é raro que os espaços públicos, ou seja, espaços de acesso livre para todas as pessoas e que devem ser administrados e cuidados pelo poder público, sejam designados como “espaços de ninguém”. Pode parecer uma simples sutileza, mas não é. Um tema que vez por outra volta ao noticiário é o da privatização das praias, vendida como capaz de garantir um melhor cuidado na conservação e, especialmente, trazer segurança para esses lugares, sem onerar o gasto público. Se o espaço é de ninguém, que mal tem, não é mesmo!? Claro, não é conveniente lembrar que, se privatizado, tornar-se-á um espaço no qual a grande maioria da população não terá acesso. Mas considerando que a própria população já havia aberto mão do acesso ao local, como é o caso das praças, que mal poderia ter nisso? É conhecido que espaços como parques, praças, estacionamentos, lojas do McDonalds e outros, são tratados como espaços reservados e em processo de valorização para a especulação imobiliária. Campo Grande vem em um processo agressivo de verticalização e tais espaços despertam o interesse de grupos financeiros e imobiliários que possuem grande poder econômico e influência política. O distanciamento da população dos espaços públicos favorece os interesses desses grupos que, apoiados por forte mídia amiga, vendem seus interesses particulares como uma “tendência natural” contra a qual nada se pode fazer. E a Cidade Morena a cada dia se torna mais cinza.
Além do mais, a ideia de que a Praça Ary Coelho é decadente parece totalmente equivocada. A praça é cuidada e permanece limpa. Seus recursos funcionam muito bem: o chafariz com a fonte luminosa sempre ligado, os brinquedos do parquinho conservados e funcionando, bancos e coreto bem cuidados, bem como o espaço sanitário. E aí é preciso louvar o poder público que, nesse caso, continua fazendo o seu trabalho. A burguesia parece que desapareceu, mas a praça pulula de vida. As crianças permanecem brincado no parquinho e a pipoqueira mantém fiel sua clientela. As Testemunhas de Jeová continuam a oferecer, incansavelmente, seus cursos bíblicos gratuitos aos poucos interessados. O pastor, sem igreja e sem rebanho, não desiste de continuar proclamando de forma ardente a palavra de Deus. Os aposentados continuam jogando dominó e colocando sua conversa em dia e os alunos de colégios das proximidades se reúnem próximo ao coreto. O sorveteiro está sempre ocupado. As árvores estão cuidadas e os pássaros se divertem em seus jogos e gritarias.
Durante todo o dia a praça é do povo. É uma população composta de gente simples que vai e vem em constante movimento para a qual o local é um esteio de descanso e recuperação para continuar sua dura jornada. Às dezenove horas tudo se silencia, os portões são fechados e a praça volta a ser somente das árvores, dos pássaros e dos encantados.
FIM
Inspiração
Campo Grande, a Cidade Morena, é caracterizada por seus espaços públicos, entre eles as suas inúmeras praças. Com o avanço da verticalização esses locais se tornam objeto da especulação imobiliária. É necessário que a população valorize e reocupe esses espaços para que a cidade se mantenha aprazível, democrática e receptiva.
Sobre a obra
A obra retrata uma parte da história e da importância da Praça Ary Coelho para a urbanização do centro de Campo Grande. Um centro que vem paulatinamente perdendo seus espaços e seus encantos junto a população. Mas a Ary Coelho continua viva e pujante, especialmente para o povo mais simples que mantém viva a alma do centro da Capital.
Sobre o autor
Entrei na CAIXA em 1998. Sou carioca e me mudei para Campo Grande em 2015. Procuro, com minhas obras, apresentar um pouco do povo, dos lugares e da cultura do Mato Grosso do Sul. Considero-me um escritor de ocasião e participar do FENAE Talentos é sempre uma grande fonte de inspiração.
Autor(a): PAULO ROBERTO ALVES MOREIRA DA CONCEICAO (Paulo Conceição)
APCEF/MS