- Página inicial
- Detalhe obra
O mundo gira em torno de uma banca de jornal.
Houve um tempo em que o Brasil era um país onde a imprensa impressa era variada, pulsante e criativa. No final do século passado no Rio de Janeiro só entre os chamados diários poderia se contar as grandes publicações como o Jornal do Brasil e O Globo; os jornais populares como O Dia, A Notícia, O Fluminense e A Última Hora; jornais de opinião como a Tribuna da Imprensa; jornais de economia como o Jornal do Commercio e a Gazeta Mercantil, sem falar nos jornais de bairro e os especializados como o saudoso Jornal dos Sports e sua tradicional capa cor-de-rosa. Havia um consumidor ávido e que lia compulsivamente. No ônibus ou no trem, nas bancas das praças, nas cafeterias e restaurantes era comum as pessoas passarem o tempo lendo seu exemplar. Também era comum, após lerem o que lhes interessava, oferecer o jornal a um necessitado na rua que prontamente agradecia como se fosse uma bela caridade. Essa relação com a leitura cotidiana era tão importante que seria possível traçar o dia a dia de alguém observando sua rotina de leitor e sua relação com os jornais e as bancas. Peço a indulgência do leitor para narrar um pouco da minha semana de peregrino entre as bancas de jornal cariocas àquele tempo, apenas para dar um exemplo.
A semana começava na banca do Rafael no centro do Meier. Na verdade, tal banca fazia parte de uma loja com uma variedade de coisas. Além de jornais e revistas, havia também uma pequena livraria e uma seção de presentes variados. Ao lado da loja existia uma cafeteria que tornava tudo ainda mais especial. Rafael, longe de ser grosseiro, não era pessoa de muita conversa, seguia a velha cartilha do fale comigo apenas o necessário. Tinha duas de suas filhas como ajudantes. Estas eram alegres e extrovertidas e se encarregavam da parte social da banca.
Ao entardecer do sábado se reunia uma turma para esperar as primeiras versões dos jornais de domingo. Os jornais chegavam em fardos dentro de um caminhão. Sob as ordens de Rafael, pilhas com os diversos cadernos de cada jornal, lado a lado, eram organizadas em um canto da loja. As edições eram montadas ali mesmo na banca. Os fregueses, enfileirados, aguardavam tranquilamente Rafael e suas ajudantes montarem os jornais conforme a demanda. Hoje pode parecer inimaginável cadernos de jornais formando pilhas quase do tamanho de um homem e filas que, por vezes, passavam de vinte pessoas esperando pelo seu exemplar. Esse primeiro montante era apenas para o sábado. Durante a madrugada de domingo chegavam novas remessas dos chamados “segundo clichê”, uma versão atualizada do jornal.
Os grandes jornais da época muitas vezes possuíam mais de cem folhas na edição de domingo reunidas em diversos cadernos. O JB, Jornal do Brasil, reunia quatro sessões: Primeiro Caderno, o caderno B dedicado a divulgar a programação de cinemas e teatros e as novidades literárias, um caderno de esportes e a revista Domingo. A Domingo, que teve como primeiro editor executivo o grande jornalista e biógrafo Ruy Castro, foi uma grande novidade à época. Reproduzia a fórmula de sucesso de tabloides internacionais como o The New York Times e foi logo amplamente copiada no Brasil. O JB foi uma publicação respeitada por sua ousadia e qualidade na informação, mesmo nos tempos mais difíceis da ditadura, por seus conceituados articulistas e por sua cobertura da agenda cultural. O encerramento de sua publicação impressa em 2010, após 119 anos nas bancas, deixou uma imensa lacuna no jornalismo brasileiro, especialmente o carioca.
Durante a semana a programação diária era frequentar a banca do Leonardo na Avenida Rio Branco bem no centro da cidade. Banca grande onde era possível encontrar praticamente tudo que se publicava no país. A hora do almoço era a de maior movimento. Lá se reunia não sei quanta gente para conversar sobre tudo: esportes, política e carioquices. O clima era ameno e de camaradagem. Todos defendiam seus pontos de vista com respeito, sem abrir mão da galhofa que faz parte do carioquês. Leonardo era um sujeito na dele, mas extremamente solicito. Contava com dois ajudantes que faziam a maior parte do serviço. Léo era uma referência para os demais jornaleiros do centro. Mal as publicações chegavam pela manhã, já orientava a separação dos exemplares para os frequentadores fiéis. Fazia isso por pura gentileza, já que recebia quantidades mais que suficientes para todos. Eu nem conferia o que vinha na minha sacola. O Leonardo conhecia minhas preferencias melhor que eu mesmo. Uma particularidade dessa banca era a quantidade de transeuntes perdidos no centro do Rio que precisavam de alguma informação. Eram tantos que formavam filas; muitos turistas e falando línguas as mais diversas. Contavam com a paciência do Léo para atender a todos com atenção. E sempre repetia a piada de todos os dias: “ah, se eu cobrasse por informação...”.
É senso comum que um dos lugares mais seguros para se obter uma informação é uma banca de jornal. Não é porque os jornaleiros possuam algum tipo de superioridade moral, mas simplesmente por estarem sempre no mesmo lugar. As pessoas confiam que ninguém se exporia a dar uma informação errada de forma proposital estando o dia todo no mesmo lugar. Mas, conhecendo o Léo e sua equipe, estava claro que jamais dariam uma informação falsa pelo motivo que fosse.
É bom notar que a grande maioria dos jornaleiros que conheci são pessoas simpáticas e solícitas. Essa simpatia não vem de uma vida fácil. Ao contrário, a vida de um jornaleiro costuma ser bem exaustiva. Os jornais diários são distribuídos ainda de madrugada. Assim o dia do jornaleiro começa por volta das três horas da manhã. As jornadas são longas e exaustivas com raros intervalos, pois os clientes não param e, como todas as bancas oferecem praticamente a mesma mercadoria, não esperam.
Mas a banca do Léo estava longe de ser a única. No cruzamento entre as Ruas São José, Nilo Peçanha e Avenida Rio Branco, o centro do centro do Rio, estava a banca do Donatello, especializada em publicações importadas. Uma banca enorme que você encontrava exemplares de todo o mundo. Lá você poderia adquirir edições praticamente diárias do Time, The Economist, The New Yorker, Le Monde, etc... Também uma quantidade variada de quadrinhos desde mangá até as publicações mais sofisticadas. O Donatello era o cara que conhecia tudo o que acontecia no país e no mundo editorial. Precisava de alguma indicação, ali era o lugar. Se precisasse de uma edição que ninguém tinha, ele dava um jeito de conseguir.
Outra banca que você precisava ficar atento era a do Michelangelo. Próxima da banca do Donatello, só que bem em frente ao Bar do Gaúcho, ficando a poucos metros da Igreja do Parto e em uma das pontas do Buraco do Lume, tradicional lugar de manifestações políticas. Aparentemente era uma banca como qualquer outra, sem nada de diferente em termos editoriais. Porém, o Michel, nunca houve um italiano mais carioca, era dado a eventos. Um dos mais movimentados era a sessão de autógrafos com as coelhinhas da revista Playboy do mês. Nesses dias o local, que sempre era movimentado, ficava intransitável.
Quinta-feira é um dia de grande importância, quando saem as edições das revistas semanais. Tempo de garantir a leitura para o final de semana e assunto para a turma da banca do Leonardo. Mas, a quinta-feira também era o dia de visitar a banca do Roberto. Um lugar simples e que comercializava apenas alguns diários. Entretanto, o local era ao lado do prédio do Jockey Club Brasileiro e nas quintas era o dia da distribuição da revista Turf Brasil com a programação das corridas da semana no Hipódromo da Gávea. A banca, que passava despercebida a maior parte da semana, neste dia ficava lotada pelos turfistas que buscavam justamente as publicações especializadas. Era comum encontrar jóqueis, treinadores e proprietários. As calçadas em volta ficavam lotadas de pessoas que nem se conheciam direito, mas prontas para trocar ideias sobre o turfe. Dizem que todos os brasileiros são técnicos de futebol. O mesmo se dá com os turfistas. Todos se dizem especializados e conhecedores dos atalhos para acertar nas apostas, embora a maioria poucas vezes tenha trilhado o caminho do sucesso. Quando alguns se reúnem a conversa vai longe e com tal animação e veemência que parece que estão prestes a entrar em uma briga generalizada. No final cada um vai para o seu lado sabendo que estarão de volta na próxima quinta-feira. Naqueles idos, a maioria dos jornaleiros cariocas pertencia a famílias de origem italiana. Parecia ser uma espécie de negócio familiar. Roberto era uma das exceções.
Enfim, chegava sexta-feira em que o retorno ao bairro era terrível e muita gente estendia a jornada para relaxar enquanto aguardava o trânsito melhorar. O centro ardia até bem tarde. O carioca tem uma especial predileção pelos lugares simples, onde os cidadãos de terno afrouxam o nó da gravata para se encostar em um balcão de “pé-sujo” ao lado de alguém de bermuda e chinelo. Existem vários lugares próprios para isso: o Beco da Sardinha no Largo de Santa Rita é um desses lugares; o Bar do Gaúcho, onde não são poucos os que participam na lotada missa vespertina no Parto e já ficam na calçada para tomar um chopp de pé acompanhado por um sanduiche de pernil. Poderiam ir também para os lados da Lapa. Uma excelente opção era ir para o Bar Brasil tomar o melhor chopp do Rio, comer uma excelente comida alemã e, era quase certo, encontrar com o Jaguar e a turma de O Pasquim. Hoje a Lapa mudou muito, virou um lugar badalado e cheio de turistas. O chopp do Bar Brasil continua o melhor, mas o nosso querido Jaguar já partiu para encontrar com os amigos Millôr Fernandes, Henfil e Sérgio Cabral.
A sexta no Bar Brasil não tinha hora de acabar. Podia ficar por lá tomando o “garotinho”, o chopp é claro, até o começo da madrugada. Dali, rumar para a Praça XV e tomar uma sopa Leão Veloso para remediar a ressaca e aguardar pelo jornal O Dia que começa a circular por volta das duas da madrugada distribuído por jornaleiros ambulantes. Quando ainda existia o mercado do peixe, era possível completar o dia levando para casa um pescado fresco para incrementar o almoço de fim de semana. Mas isso acabou faz tempo. Jornal debaixo do braço, a semana se encerra com as notícias frescas de sábado.
E a vida seguia regida pelas efemérides dos jornais e pela rotina das bancas.
Quando me mudei do Rio para Campo Grande, faz mais de década, todo esse mundo já estava ruindo. É possível elencar vários motivos. Havia um processo crônico de degradação do centro da cidade. O próprio mercado editorial estava em um processo de rápidas mudanças. Hoje a notícia está na sua mão quase instantaneamente, então, por que esperar até madrugada por um diário que já chega velho. Os produtos, formas de distribuição e custos de manutenção inviabilizaram boa parte das atividades. Também o aumento da violência e do vandalismo fizeram a sua parte. E, por fim, a pandemia da covid-19 que trancou boa parte da população em casa durante muito tempo, mudou hábitos de consumo e leitura.
Mesmo com todas as dificuldades, esses lugares, ao menos os que conseguiram resistir, são ainda lugares de cultura, boa conversa, respeito à divergência de opiniões e de boas amizades. E, portanto, são lugares de resistência diante da sociedade cada vez mais intolerante que nos cerca. A decadência das bancas de jornal seria, então, efeito ou causa desse mundo em transformação? Um pouco de cada, creio eu. Um mundo onde o entusiasmo pela leitura foi se esvaindo, onde se está sempre com pressa para se ouvir alguém com atenção, um mundo onde se busca a “lacração” sem o interesse em entender as razões do outro. O mundo onde uma amizade verdadeira e gratuita se tornou um artigo raro, mas ainda mais valioso.
As boas bancas de Campo Grande foram desaparecendo em um curto período. Ficou mais fácil comprar um álbum de figurinhas em um grande magazine. Até porque colecionar figurinhas virou artigo de luxo.
Hoje frequento a banca do Hélio que fica em um ponto central na Cidade Morena. A banca é pequena e divide seu espaço com uma loja de película e capas para celular. Estratégia de sobrevivência. É um lugar bem cuidado, limpo e organizado. Vou apenas uma vez por semana. O dono não foge à tradição de simpatia dos jornaleiros e também guarda minhas publicações favoritas. Também não se preocupa se eu ficar folheando as publicações que sabe que eu não vou levar. Parece aguardar heroicamente o tempo que as coisas voltarão a ser como antes, sabendo perfeitamente que isso não acontecerá.
FIM
Inspiração
As bancas de jornal, cada vez mais reduzidas e descaracterizadas, são espaços que misturam cultura e amizade. Mesmo em tempos digitais e de lacração, a imprensa impressa resiste e mantém muitos adeptos. As bancas desafiam o novo, propiciando o encontro e relações reais. A obra tenta mostrar um pouco dessa cultura e dessa resistência.
Sobre a obra
Narra a trajetória semanal de um leitor e sua peregrinação pelas bancas de jornal. Procura, de um jeito leve, misturando memória e ficção, apresentar as bancas, as publicações e os personagens ligados ao mundo dos jornais impressos em um dos momentos históricos mais importantes da imprensa nacional nos fins dos anos 1990.
Sobre o autor
Entrei na CAIXA em 1998. Sou carioca e me mudei para Campo Grande em 2015. Procuro, com minhas obras, apresentar um pouco da vida, dos lugares e da cultura do Mato Grosso do Sul. Às vezes volto no tempo para falar de carioquices. Considero-me um escritor de ocasião. O FENAE Talentos é um grande momento de despertar para a criatividade.
Autor(a): PAULO ROBERTO ALVES MOREIRA DA CONCEICAO (Paulo Conceição)
APCEF/MS