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Brasil, besouros e espantos
Brasil, besouros e espantos
Dizem que o Brasil está envelhecendo, mas creio que esqueceram de contar isso a ele.
Quando eu era criança, alguém me disse que os besouros não deveriam voar. Tinham asas pequenas para um corpo pesado, entre outras características que, segundo a explicação que recebi, deveriam impedi-los de levantar voo. Mas ninguém contou isso aos besouros. Eles voaram. Eles voam.
Hoje, vivemos em um Brasil de besouros: uma população considerada idosa que parece desconhecer os limites estatísticos e, vez ou outra, causa espanto justamente por fazer aquilo que dizem que já não deveria fazer.
A internet, por exemplo, seria território dos jovens. Pelo menos era o que diziam. Esqueceram, porém, de avisar às Avós da Razão: Sônia, Gilda e Helena. Todas com mais de 75 anos, conquistaram espaço no YouTube falando sobre relacionamentos e sexo. São as chamadas “Grandfluencers”.
Também esqueceram de avisar à Vovó Naior Miolaro que TikTok era coisa de adolescente. Ela foi lá e começou a apresentar coreografias modernas. E o Vovô Anésio, com seu jeito bem-humorado de interagir com o neto, também resolveu ocupar seu espaço na internet. Besouros digitais.
No esporte, a história se repete. Ninguém contou à Dona Sônia Moreira que, depois dos 60 anos, levantar 120 quilos na academia poderia parecer coisa de gente mais nova. Ela continuou treinando. Treinando e levantando peso. Como se a idade fosse apenas um número registrado em sua carteira de identidade.
Também há quem não tenha recebido o aviso de que, aos 80 anos, seria melhor ficar longe de um treino de CrossFit. O senhor Dejanir não recebeu o recado. Ou recebeu e não deu muita importância. Besouros esportivos, espantando a nova geração.
Tenho a impressão de que a notícia também não chegou ao mundo do empreendedorismo. Kazuo Kaneto criou, depois dos 60 anos, um sistema de gestão escolar. Maria de Lourdes P. Silveira criou, aos 70, uma marca de chocolates. Enquanto isso, outros sessentões voltam aos bancos universitários, mudam de profissão, começam novos projetos e descobrem que recomeçar não tem idade. Descobriram, para espanto geral, que não existe neles um rótulo de validade.
Talvez seja por isso que passei a gostar mais dos besouros. Eles não sabem que não deveriam voar. Continuam voando, mesmo que às vezes seja um voo barulhento e desengonçado. Ainda assim, cortam os ares com determinação.
No mundo da literatura, encontramos mais alguns besouros. Lindomar Cardoso Tournier é um deles. Publicou um novo livro aos 104 anos, depois de ter começado a escrever somente após a aposentadoria. Aos 104! Verdadeiramente um espanto, no melhor sentido da palavra. Parece que alguém esqueceu de avisá-lo de que já era tarde para começar. Ufa! Ainda bem!
De acordo com a Wikipédia, existem milhares de espécies de besouros no Brasil. Algumas são consideradas pragas. Talvez também encontremos por aqui algumas espécies humanas: os ranzinzas, os mal-humorados, os pessimistas e aqueles que passam a vida impondo limites a si mesmos e aos outros. Todavia, a maioria dos besouros exerce funções importantes para o equilíbrio do ecossistema. Talvez os nossos também.
Porque uma coisa é certa: uma sociedade que envelhece não precisa ser uma sociedade estagnada, sem planos e sem sentido na vida. Pode ser uma sociedade que aprende, trabalha, cria, dança, empreende, estuda, escreve e recomeça. O problema crucial é que continuamos colocando idade em coisas que não deveriam ser definidas pelos anos de vida. Talvez até a palavra “aposentado”, que tem origem em ir para o aposento, para o lugar de descanso, precise ser ressignificada.
O fato é que, quando alguém ultrapassa o limite que inventamos, ficamos admirados:
“Olha só! Um idoso na internet!”
“Olha a vovó levantando peso!”
“Uau! Um aposentado começando uma empresa!”
“O quê? Um centenário lançando um livro!”
Talvez essa sensação de espanto esteja menos naquilo que eles fazem e mais naquilo que se esperava deles. O Brasil está envelhecendo, mas, felizmente, muitos brasileiros esqueceram de associar idade avançada a realizações. Resistem diante de velhos preconceitos.
Pois é, os besouros não sabem que não deveriam voar e, por isso, continuam voando. Dentre eles, há, inclusive, os que escrevem crônicas para concurso e, apesar das asas pequenas, querem voar para a final em Goiás.
Inspiração
Estava vendo na internet pessoas 60+ em atividades surpreendentes e resolvi escrever sobre o idoso que causa espanto por sua performance. Mas para tornar o texto agradável fiz a associação com os besouros.
Sobre a obra
Na tentativa de fazer um boa crônica, peguei os elementos básicos, quais sejam: um tema do cotidiano e interesse popular, temperado com humor e com uso de metáforas. Inclui também personagens reais para dar também credibilidade, apesar da ironia.
Sobre o autor
Sou aposentado da caixa, tendo me desligado em 2018. Após a aposentadoria fiz uma pós graduação em literatura infantil e juvenil. Já publiquei dois livros de poesia para adultos e cinco livros para o público infantil, além de participar de dezenas de antologias. Atualmente sou membro algumas entidades literárias.
Autor(a): JOSE RENATO DE AMORIM (J. R. Amorim)
APCEF/MG