O caso da aranha cinzenta

O caso da aranha cinzenta.
Vou lhes contar minha história, mas já vou avisando que não se trata de
sexo nem drogas muito menos rock-and-roll, mas de bichos. Além disso, não
fumo, não bebo, nem cheiro. Uma chata que neste inverno nem pude tomar meu
vinho por causa do diabetes.
Duas informações devo lhes falar: que tais bichos referem-se principalmente
a insetos em geral aos quais tenho aquele nojo e histeria femininos. Tudo
superado até o limite do suportável devido à assiduidade do programa do biólogo
Richard no SBT por muitos anos. A fascinação dele por cada animalzinho mais
estranho e nojentinho me contagiaram a ponto de conviver pacificamente com
uma pequena aranha pretinha no pé da minha cama durante algum tempo, pois à
noite quando eu ia me deitar ela já tinha saído para sua vidinha noturna e de
manhã eu nem percebia que ela já tinha se recolhido. Até o dia em que diarista, ao
fazer a faxina mensal, acabou com ela.
Este detalhe da faxina mensal me leva à segunda informação, que é a mais
importante: o caso se passa na praia onde comprei um terreninho e construí um
chalezinho. Situação/localização geográfica: praia (do Cassino, Rio Grande, RS),
acrescentem 500 metros de dunas, mais 500ms de campo militar, mais a Avenida
Atlântica e o terreno do vizinho ao lado esquerdo, ao lado direito um terreno
baldio, em frente outros terrenos baldios. Ou seja, o que acontece quando tu faz
uma construção no meio desse mato todo? Os “habitantes originários" do lugar
disparam, se escondem, outros morrem, e, depois que a obra termina,
principalmente quando termina o veraneio, eles voltam, ou pelo menos tentam.
Assim, foi que nos primeiros veraneios tinham caracóis, tuco-tucos, duas
cobras, mais tarde vieram as corujas, uma perereca, a tal aranha pretinha, uma
lesma, uma família de lagartos, formigas tem até hoje e, finalmente, mais outra
aranha! Essa é que é a tal!
O fato com as corujas foi engraçado porque eu confundi os gritos delas (ru
ru ru) com pedido, em voz feminina, de socorro socorro socorro. Como é pertinho
do campo militar, onde tem ainda os concretos que foram a base de lançamento
de foguetes da NASA em 1966, tem um regato e muita vegetação; fiquei
preocupada se tinha alguém maltratando ou abusando de alguma mulher ali,
acordei no maior susto, era veranista recente naquele lugar, e era de madrugada,
não sabia para qual 190 191 ou 192 telefonar para pedir socorro, até que
totalmente acordada percebi que era algum animal, o que foi confirmado logo de
manhã ao perceber umas 4 ou 5 corujas no fio de luz. Nem vou contar também
que um lagarto chefe da família lambeu, ou será que beijou?, o meu dedão do pé
esquerdo enquanto eu tranquilamente sentada numa rede a ler um livro. Vergonha
do grito que eu dei, disparei para esquerda e o coitado disparou pra direita.
Nenhum vizinho comentou nada.
E assim, de cagaço em cagaço, fora o nojo, estava um noite na minha
bicama a ler ou escrever algo no i-Pad, batizado Popeye, quando decidi fazer o
último xixi antes de dormir, que apesar de último não dispensa o da madrugada.
Levantei tranquilamente e fui ao banheiro cuja porta fica quase encostada na porta
dos fundos. Sentei inocentemente no sanitário e iniciei a minha xixizada gostosa.
Banheiro simples, tipo casa da colônia, dois metros e meio por um metro e meio,
na entrada a pia, depois o vaso sanitário e ao fundo o box do chuveiro, ou seja, o
sanitário bem no meio dos dois metros e meio. Na largura do banheiro
consideremos um metro e meio, desconta as paredes de tijolos, sobra uns metro e
quinze, desconta, digamos uns 0,60 cms do sanitário; o rolo de papel higiênico na
parede em frente a, no máximo, meio metro. Ao lado do papel tem uma sobra de
obra, um toco adaptado pelo pedreiro para corte de sarrafos, até hoje usado por
mim como peso de porta, mas naquela noite, encostado na parede quase ao lado
do rolo de papel. Quando começou a diminuir o fluxo da urina puxei o meu bom
pedaço de papel higiênico para enxugar “as partes” e - instante fatídico -
enxerguei no tal toco uma tremenda duma aranha. Eu nunca tinha visto uma
aranha tão grande! E tão perto! Quase do tamanho da minha mão, cinzenta e
quieta. Nem raciocinei se devia aguentar um pouquinho mais pois já estava quase
terminada a xixizada e o papel higiênico já devidamente dobrado para uso
eficiente, respirar fundo e disfarçar o quê mesmo, ou se deveria sair dali correndo
feito louca. Saí dali correndo feito louca. Quando dei por mim estava encostada na
porta dos fundos, pelo lado de dentro, a calcinha na altura dos joelhos, ainda
pingando os restinhos de xixi e a mão direita levantada - não sei até hoje por que -
com o papel higiênico, ainda sem uso, sustentado tipo troféu.
Faz tempo isso, faz tempo mas não adianta, cada vez que me sento naquele
sanitário e olho para aquele toco, lembro direitinho daquela aranha: ela era muito
grande, ela estava muito perto, porra! (Pra não dizer que na minha história não tem
nem palavrão, quanto mais sexo, drogas e muito menos rock-and-roll).

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Inspiração

É autobiográfico. Queria escrever para o programa do Porchat, mas como não tem “drogas, sexo nem rock and roll” resolvi enviar para o Fenae Talentos. Esta história para mim tem emoções superadas, outras, renovadas.
"A garganta sufoca um grito
que, se solto, não alivia
mas o sapo que nela habita
grita por ela a dor maldita!."

Sobre a obra

Fiz uma narrativa detalhada para que o leitor conseguisse se situar no contexto de um prédio perto da praia e perto da urbanização que avança e invade o ecossistema. Detalhe por detalhe revisado, pois como disse nosso poetinha Mário Quintana: a gente tem que escrever e reescrever um poema até ficar com jeito de que foi escrito de uma vez só.

Sobre o autor

Fui alfabetizada com 4 anos de idade. Através de meus pais iniciei o gosto pela leitura. Escrevi alguns textos inspirados no cotidiano em diferentes fases da minha vida. Ao participar da Oficina Literária da APCEF/RS - Regional Pelotas, me descobri escritora e poeta. Ainda sou aprendiz, aprimorando meus escritos aos poucos.

Autor(a): ANGELA MARIA MADONO GOMES (Angela Madono)

APCEF/RS